Vencer a depressão
22 June 2020 · 3 min read

Temos como pressuposto que são os médicos as únicas pessoas capacitadas a salvar vidas. É para isso que estudam durante longos anos e são treinados profissionalmente para conhecer o corpo humano e as suas doenças. No entanto, não são apenas eles que podem salvar alguém. Somos todos nós. Com uma palavra amiga, com um gesto carinhoso, com um sorriso sincero. Nada causa tanto impacto como alguém que nos vê como realmente somos.
Não é fácil falar sobre momentos em que sentimos tristeza profunda, angústia, desespero e mesmo total falta de esperança no futuro. No entanto eles existem em nós: na nossa mente e nas sensações físicas que nos transmitem: de aperto no peito, de frio, de nó na garganta. E se existem devem ser falados, porque quando isto não acontece algo mais sério se pode manifestar: ausência de vontade de viver.
Os sintomas podem ir desde a apatia a agitação, insónia a sono excessivo, falta de apetite a apetite constante, isolamento ou sensação de solidão mesmo no meio de uma multidão; ou seja, não são condições padrão e variam consoante o caso desta doença, a depressão. Independentemente de a depressão ser funcional (em que a pessoa consegue aparentemente levar uma vida normal mesmo estando doente) ou não funcional (em que na maioria das vezes está remetida a uma cama ou pouco se movimentando), geralmente se verifica a perda de interesse e prazer por actividades que antes nos eram agradáveis.
Surge a pergunta: é possível vencer a depressão e se sim como? Não há consensos na comunidade científica. Mas é sempre possível melhorar com o tratamento adequado. Não há qualquer vergonha em procurar ajuda profissional e isso não é qualquer sinal de fraqueza ou inferioridade, é um sinal de que conhecemos o nosso problema e estamos dispostos a buscar a sua resolução.
Não há fórmulas mágicas, soluções que sirvam para todas as pessoas pois todos temos sensibilidades, necessidades e personalidades distintas. Quando se perde alguém por suícidio devido a depressão o mais natural é pensar: o que poderíamos ter feito para salvar aquela vida? Afinal como convencer alguém que mesmo o túnel mais negro terá uma luz ao fundo e que essa luz passa por continuar vivo? São questões extremamente delicadas, que mexem com muitas emoções porque na verdade somos apenas humanos e não temos a capacidade de prever o futuro.
No entanto, se colocarmos intencionalidade nas nossas palavras, elas nunca estarão vazias, serão sempre sementes de algo valioso que brota do nosso interior, nunca estarão desprovidas de significado. Nada causa mais angústia na vida do que a sensação de ausência de sentido, daí que quando tudo à nossa volta parecer ruir, tenhamos de nos agarrar a razões para viver, pois é dessa fundação que parte a construção da casa do nosso ser que poderá ser baptizada de sentido.
Para algumas pessoas o maior alicerce é a fé, com a ideia de um Deus que nos exige dificuldades e sacrifícios, mas que acaba sempre por nos abraçar e nos encontrar e ser benevolente connosco. Para outras, esse Deus vive no amor da família e dos amigos. É importante ver a vida como algo sagrado, que merece ser vivido plenamente mesmo com os maus dias, as mágoas, os ressentimentos e a dor. A dor não tem de nos definir, somos algo mais do uma pessoa em sofrimento e é quem realmente somos aquilo que começamos a descobrir do outro lado desse túnel escuro, da noite escura da alma da depressão.
Paula Gouveia
Créditos da foto: https://unsplash.com/photos/dbj0O83MM5YThis article hasn't been translated to English yet — showing the original Portuguese version.
