Um ano de solidão
27 December 2020 · 5 min read

Para muitas pessoas, esta época das festas é a mais solitária do ano. Os motivos são diversos desde não poderem estar com os seus entes queridos ou por terem tendência a isolar-se e a sentir melancolia quando é suposto nos sentirmos alegres, a celebrar um período especial.
Este Natal, a Consoada foi mais reduzida a nível dos seus elementos pois o cenário pandémico assim o obrigou. Ficou a saudade dos familiares que não puderam estar presentes. Ao longo dos meses, fomos dizendo adeus a planos, a viagens marcadas e deixámos de estar com os amigos como tanto gostaríamos. Em nome da nossa segurança, da nossa saúde, fizemos o sacrifício e sentimos mais uma vez na pele o que é viver em regime de austeridade, desta vez relativamente à liberdade física limitada e das demonstrações de afetos.
Tivemos de nos adaptar a um mundo em mudança, em que as estruturas que conhecíamos deixaram de ser as mesmas. As reuniões e o teletrabalho tornaram-se o novo normal e descobrimos que até poderíamos funcionar assim, até certo ponto. Digo até certo ponto, porque tínhamos sempre em mente as provações pelas quais estávamos a passar, pelo que deixou de se fazer, pelo que foi adiado indefinidamente nas nossas vidas.
Aprendemos que a vida é o aqui e agora, por mais que seja doloroso não ter o controlo absoluto sobre os nossos destinos e o que nos acontece. Para muitas pessoas este ano de pandemia foi um ano de solidão. Para as crianças que tiveram de estar em casa tanto tempo e tiveram o contacto com os seus colegas severamente condicionado. Para os adolescentes que ao estudarem no computador, viram a sua capacidade de concentração ser posta à prova diariamente. Para os adultos que tiveram de trabalhar, muitas vezes o dobro do que já trabalhavam, com as fronteiras entre vida profissional e pessoal a esbaterem-se cada vez mais. Para os pais, que tiveram conciliar a carreira com estar de olho nas aulas dos filhos e assegurar-se que eles estavam atentos e a fazer os trabalhos de casa. Para os idosos que não podiam mais ser visitados, abraçados e beijados como habitualmente, que se viram como grupo de risco, num cenário cada vez mais negro a perguntar-se se seria assim o desfecho das suas vidas.
A exaustão, o vazio, a sensação de falta de sentido, instalaram-se em muitos lares e muitas mentes. E acima de tudo, a solidão. Profunda e implacável: de não poder sair para a rua às ruas quando entendemos, de não poder ver e estar com quem queremos, de ver serem negados desejos, oportunidades e sonhos. Por estes e mais motivos estamos numa altura em que muitas pessoas não só não conseguiram entrar no espírito de Natal como sentem que é inútil fazer resoluções de ano novo, pois sabem que independentemente das suas melhores intenções, o que tomamos como garantido pode sofrer uma metamorfose, literalmente, num segundo.
As crianças estão tão habituadas ao computador e telemóvel que estão a cada vez mais a perder os reflexos naturais para amparar as suas quedas. Os adolescentes comparam-se constantemente com as imagens que vêm nas redes sociais e sentem que são inferiores. Os adultos acumularam funções até pouco sobrar da paciência e disponibilidade para os que lhe são mais próximos. Os pais viram cada vez mais acentuar-se dilemas e culpas de não poder fazer tudo e estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Os idosos sentiram um medo que não se parecia com nada que já tivessem experienciado antes.
Tudo o que não se usa fica atrofiado. É assim com o nosso físico, (que cada vez trabalhamos menos, tendo vidas marcadas pelo sedentarismo), com a nossa capacidade de memória (que delegamos tanto em enciclopédias virtais e discos externos) e com a nossa capacidade de nos focarmos no momento presente.
À solidão, somou-se a mágoa, sensação de perda e a incapacidade de ver alguma benesse escondida. Queria, no entanto, contrariar o pessimismo e negatividade e apresentar cinco dias para se sentir menos sozinho(a).
- Procure sentir-se confortável com a própria companhia e passar momentos de qualidade a sós, fazendo o que lhe dá mais prazer, quer seja uma maratona de séries ou filmes, de leitura ou escrever num diário. Não se lamente nem recrimine, analise o estado atual da sua vida e o que pode fazer para melhorá-la no futuro.
- Aceite incondicionalmente a sua realidade. Discirna o que não está nas suas mãos e o que pode alterar. Não controlámos os eventos, controlamos como reagimos a eles. Por isso, saiba fazer essa distinção com sabedoria e sensatez, e se conseguir ver o lado positivo num ano de crise, adote esse tipo de mentalidade.
- Procure a companhia de pessoas com quem partilhe ideais e visões, mas não se feche numa zona de conforto social, saiba ouvir opiniões contrárias e permita-se aprender sempre, mesmo com pessoas que à primeira vista têm uma personalidade e opiniões apostas às suas. A nossa bagagem cultural enriquece-se quando temos coragem de ouvir diferentes visões sobre o mesmo problema e daí tirarmos as nossas próprias interpretações e conclusões.
- Perceba que para estar presente, não é necessária a presença física. Podemos ter alguém a nosso lado de quem estamos emocionalmente a milhares de quilómetros de distância. De modo análogo, é possível sentir uma identificação de modo ser e pensamento com pessoas que não podemos ver de momento. Não se limite e procure conexões autênticas, que lhe sirvam de amparo nesta altura difícil. Num mundo em que podemos fingir qualquer coisa, ser nós mesmos é o derradeiro ato de coragem.
- Se formos atacados por forças externas, somos destruídos. Se formos impulsionados por forças internas, transformamo-nos. Utilize os seus esforços para se aperfeiçoar, não pense em tudo o que não pode fazer este ano mas lembre-se do que o fez sorrir. Podem ter sido instantes fugazes, mas agarre-se a eles e deixe-se embutir de um sentimento de força e de esperança. Se fizermos todos os dias um pouco mais, acabaremos por progredir significativamente, de forma cumulativa. Não subestime os pequenos passados diários que pode dar todos os dias, com constância e perseverança.
Não está sozinho, mesmo na sua solidão. Não pense que é a única pessoa a lidar com o peso desse sentimento. Sofrer faz parte da vida de toda a gente, mas como diz o ditado, não há mal que sempre dure. Acredite e tenha fé e ame-se incondicionalmente em primeiro lugar e em todos as alturas. Estamos juntos.
Paula Gouveia
Créditos da imagem: https://unsplash.com/photos/nwWUBsW6ud4This article hasn't been translated to English yet — showing the original Portuguese version.
