Recuperar o ânimo
27 January 2021 · 6 min read

Os tempos que atravessamos podem ser muito desencorajadores. Dias chuvosos, frios, em que muitos de nós estamos confinados, sem poder estar com as pessoas que amamos, assustados por causa desta doença que tem vitimado tantas pessoas pelo mundo fora. Pode parecer que o tempo parou e que vivemos o mesmo dia vezes sem conta. Perdemos o interesse por coisas que sempre gostámos de fazer e sentimos tédio e frustração.
Nem sempre nos sentimos unidos pelas redes sociais, por vezes são apenas uma fonte de mais caos, de mais confusão, que nos fazem comparar a nossa vida com a dos outros e sentir pena de nós próprios. Como recuperar o ânimo quando sentimos que a nossa vida está numa qualquer espécie de limbo, os nossos sonhos adiados e que tudo o que nos resta é esperar e tentar manter a saúde?
Identifiquei cinco dicas que considero importantes para o momento atual e que podem ser úteis:
1_ Tente dar uma estrutura ao seu dia. Procure acordar e deitar-se sempre às mesmas horas, dormir o melhor possível e ter hábitos que lhe façam bem. Experimente coisas novas se sentir que a vida caiu na rotina. A palavra de ordem é seguir a sua curiosidade. Não tem de adquirir competências novas nos seus passatempos como aprender a fazer pão caseiro ou a tricotar, basta fazer algo que lhe traga satisfação e uma sensação de produtividade. É uma excelente altura para destralhar, organizar o guarda-fatos ou a garagem, por exemplo. Com tantos programas, livros e séries sobre arrumação não tem mesmo desculpa para não tentar manter a ordem no seu espaço físico e naquilo que está no seu controlo. Verá que ao fazê-lo sentirá aos poucos uma maior tranquilidade que terá ramificações em todas as outras áreas da sua vida.
2_ É normal ter dias maus, em que sofra de tristeza e ansiedade, quer esteja ou não a trabalhar. Afinal, nenhum de nós sabe ao certo quando esta pandemia vai acabar e as nossas vidas vão aproximar-se do que antes tínhamos como normal. Não se recrimine, não se puna por não ser capaz de estar sempre com motivação e um sorriso no rosto. Sentir-se perdido(a), à deriva, sem conseguir concentrar-se é um dos possíveis efeitos secundários desta batalha que travamos, pelo que não se cobre demasiado e tenha a gentileza consigo mesmo(a), reconhecendo que o que está a sentir é válido. Isto não significa deixar-se derrotar por pensamentos negativos, sem os pôr em causa. Permita-se ter um vasto espetro de sentimentos e de expressá-los mas não se feche à alegria quando esta lhe bater à porta.
3_ Tente fazer uma coisa de cada vez, focando-se ao máximo na experiência e menos no resultado final. É tentador querer ser multifunções, o que causa muito dispêndio de energia e pode levar a muito cansaço mental. Se dedicar blocos de tempo a um projeto ou atividade apenas, verá aumentar as possibilidades de se embrenhar tão a fundo no momento, que nem dá pelo tempo passar. Vive apenas o momento e entra num estado em que está simplesmente a fluir com a vida em vez de pensar no que foi ou poderia ter sido, a sofrer por antecipação ou entrar em stress por todas as coisas que lhe faltam realizar. Dê a si mesmo(a) a oportunidade de trabalhar e desfrutar de instantes com os seus entes queridos, sem tanta rigidez e sem dúvida que irá começar a ver melhorias no seu humor e panorama geral da sua vida.
4_ Sinta gratidão por viver, faça uma lista de afirmações que lhe tragam uma sensação de autoestima e poder pessoal, cultive pensamentos que lhe tragam esperança. Quando estamos desanimados, pensamos que nunca irá passar. Questione estas crenças que deturpam a realidade e substitua-as por uma mentalidade de maior flexibilidade e confiança no que os seus dias ainda lhe podem trazer. Tente discernir atividades que não só sejam gratificantes e prazerosas mas que também sejam edificantes e sustentáveis a longo prazo. Não tenha medo de fazer listas de pontos fortes e fracos, pode ajudar muito esquematizar as nossas ideias dessa forma e levar-nos a perceber o que está a nosso favor e o que simplesmente não tem funcionado. Desta forma, pode traçar objetivos e continuar o seu caminho. Não pense que tem de saber exatamente o que está a fazer ou para onde vai, isso pode causar-lhe uma tal paralisia decisória que é incapaz de dar um passo sequer. Mantenha-se em movimento e no melhor estado anímico que lhe for possível e certamente quando olhar para trás, serão visíveis sinais de progresso.
5_ Não é nada mais aborrecido do que sentir que já sabemos tudo o que nos interessa, que o mundo não tem nada mais para descobrirmos. Por vezes, ficamos totalmente desprovidos de entusiasmo a sentir mesmo que não há nada de novo debaixo de Sol ou que nada do que há apela aos nossos sentidos ou interesses. De facto, vivemos tão saturados de todo o tipo de conteúdos que é fácil ficarmos sobrecarregados de estímulos e desvalorizarmos o que antes fazia os nossos olhos brilhar. Não é por acaso que se diz que tudo o que é em excesso pode ser nocivo e creio que é isso que acontece com muitos de nós. Já não sabemos para que lado nos virar e parece que se não tomamos uma decisão importante num segundo, os outros querem logo decidir por nós. Esta pressão, intrínseca e extrínseca é um dos maiores males do nosso tempo porque não incentiva a reflexão e a paciência, duas qualidades que precisamos mais do que nunca pois vão fomentar a maturidade e a capacidade de resiliência. Não nos ensinam nas escolas e universidades a adiar a nossa gratificação, queremos ser logo recompensados quando fazemos esforços e nem sempre a vida funciona assim. Iremos fazer sacrifícios e ter a sensação que foram em vão, tentar de todas as formas e mesmo assim não conseguir, errar vezes sem conta, trabalhar arduamente e ficar com a sensação de que a injustiça não diminui, que apenas se perpetua. O importante é continuar a ter vontade de aprender todos os dias, pois quando adquirimos a postura de sabe-tudo, afastamo-nos do que é a realidade: que vamos ter sempre imenso para saber, sobre todas as coisas, até ao nosso último suspiro. Mantenhamos, portanto, a humildade nas nossas personalidades e a busca de sabedoria.
Há alguns consolos que podemos ter nesta altura de dor e medo, que são justamente as coisas que, independentemente da sua dimensão, podemos controlar: as nossas reações a tudo o que nos acontece, os nossos cuidados connosco mesmo e relativos à prevenção desta doença. Podemos conseguir trazer alguma paz e organização para o nosso mundo pessoal e estas são já razões suficientes para recuperar o ânimo e continuar em frente.
Paula Gouveia
Crédito da imagem: https://unsplash.com/photos/CbpdArA4rLAThis article hasn't been translated to English yet — showing the original Portuguese version.
