Recomeçar em grande
10 January 2021 · 5 min read

Um novo ano começa e para muitas pessoas é como se algo se tivesse reiniciado, como uma máquina que se reprograma para poder vir a funcionar melhor. É esse espírito de esperança que queremos sentir mas nem sempre é possível. Por mais que queiramos fazer tabua rasa do ano anterior, há sempre coisas que se arrastam, problemas que não conseguimos resolver e que transitaram para 2021, dilemas que nos continuam a deixar confusos e indecisos, projetos que andamos a adiar há muito tempo, mágoas que escodemos nos nossos corações.
O que significa então recomeçar quando os conflitos internos e externos persistem e o conceito de novo é relativo? Começa antes de mais pelas nossas atitudes e comportamentos. Com os conteúdos que absorvemos, com os pensamentos que escolhemos aceitar ou não como válidos, com a maneira como encaramos este período que se inicia: se como um tempo de estagnação ou de reinvenção.
Sofremos do mal de querer resolver tudo ao mesmo tempo ou de desistirmos cedo demais. Muitas vezes oscilamos entre uma sensação de urgência absoluta (o tão famoso querer tudo para ontem) e a apatia, em que parece que nada é importante e não fará diferença se procrastinarmos indefinidamente. Tal não é verdade, pois por mais que o mundo exterior não repare o que andamos a fazer, nós sabemos e vamos acabar por não nos sentir bem. Porque andamos a adiar-nos e não a cumprir-nos.
O que devemos fazer então? Como diz a sabedoria popular, fazer uma coisa de cada vez, delineando claramente o que é prioritário e o que pode ser realizado depois. Se tivermos essa capacidade estaremos a colocar-nos já numa posição de vantagem, de não andar ao sabor da corrente, de saber o que precisamos executar de dia para dia, de hora para hora. Da mesma maneira como fazemos a curadoria das nossas melhores fotos e momentos para as redes sociais, devemos fazer uma curadoria da nossa consciência. O que é curadoria de consciência? Trata-se de saber filtrar o que é essencial neste mundo tão povoado de estímulos, bloquear o ruído, escutar a nossa própria voz, manter o foco e tentar manter uma perspetiva positiva.
Não é fácil conseguir desligar do stress, das preocupações e das angústias do dia-a-dia. A insónia é cada vez mais um sintoma preocupante de mal-estar que pode minar seriamente a nossa saúde e qualidade de vida. Se soubermos redimensionar o que parece engolir-nos, num mar agitado, recuperando o controlo sobre as nossas emoções e reações, teremos mais tranquilidade e paz interior e sabemos que cuidar do nosso próprio jardim é o primeiro passo para a felicidade.
Muitas vezes as soluções para grandes problemas estão mais perto do que pensamos, se nos permitirmos distanciar-nos um pouco do que nos apoquenta e concentrar-nos em outros aspetos igualmente importantes do nosso bem-estar. Acontece muitas vezes ter epifanias, descobrir exatamente o que devemos fazer, quando pensamos noutra coisa qualquer. A intuição revela-se de forma mais acutilante quando nos permitimos pensar em algo diferente ou mesmo mudar o nosso ritmo de trabalho. Tirar umas horas ou um dia para pensar pode parecer-lhe uma autêntica perda de tempo quando está numa encruzilhada, mas pelo contrário, pode revelar-um ganho de tempo, em que surjam pérolas de autoconhecimento e possa traçar um rumo claro de ação.
Neste ano ouse arriscar, mesmo que o medo seja muitas vezes paralisante. Para usufruir da oportunidade de ter um 2021 de mudança, tem de começar por mudar-se a si mesmo. O trabalho tem de partir sempre de nós primeiro, por mais que seja desconfortável, duro e pouco glamoroso. Há quem diga que o oposto do amor não é ódio, mas sim o medo. Substituía-o pela coragem, a fé nas suas habilidades e verá como irá acabar por fazer progressos.
Em vez de tentar controlar todas as circunstâncias à sua volta, o que é desde já impossível, esteja ainda mais atento do que habitual aos seus pensamentos, a como o fazem sentir, à energia que emanam, se são baseados em factos ou apenas nas suas emoções do momento. Tenha cuidado com as generalizações como "Eu nunca vou conseguir" , com o pensamento de preto e branco (em que não há estados intermédios entre o bom e o mau), com um raciocínio excessivamente emocional, que lhe pode fazer sentir que é incapaz de lidar com as situações, sobrecarregando desnecessariamente o seu espaço mental. Não personalize o que não é uma ofensa direta à sua pessoa nem deve ser tomado como tal. Para além de tentar evitar o pensamento polarizado e excessivamente perfecionista, evite martirizar-se com o que devia ter feito e não fez. Concentre-se no presente e no que está nas suas mãos ainda alterar.
Quanto ao seu coração, pode ser muito complexo dizer adeus a ressentimentos ou libertarmo-nos de pessoas que não nos fazem bem. Não é a toa que se diz que o coração quer o que quer. As feridas internas são das que mais custam a cicatrizar, são dolorosas e podem tirar-lhe a vontade de sorrir. Combata tendências negativas, não alimente o que o magoa e tente encarar a vida com as lentes do otimismo.
Acima de tudo, é importante que não permita abusos físicos nem emocionais e tenha consciência do seu valor. É fácil deixar que a nossa autoestima dependa do modo como os outros nos percecionam e nos aprovam ou não. Vemos cada vez mais pessoas deixar que os números das redes sociais afetem o seu humor, as tornem ansiosas ou stressadas, pois comparam-se com ideais e sentem-se sempre inferiores, que ficam aquém não só do que é esperado delas, mas do que esperam de si próprias.
Espero que 2021 nos possa trazer mais serenidade para aceitar este mundo em constante mutação, em que a tecnologia avança a velocidade galopante, mais do que a nossa fisiologia ou competências sociais podem aguentar, por vezes. Que não tenhamos medo de dizer não ao que deixou de fazer sentido e de abraçar com prazer o que se coaduna com os nossos propósitos. E que muitos dos nossos abraços e beijos virtuais se possam tornar em reais pois não nascemos para não conviver e ver-nos apenas através dos ecrãs. Nascemos para tocar pele com pele, para escutarmos a voz e o riso uns dos outros, à medida que nos olhamos nos olhos.
Paula Gouveia
Créditos da foto: https://unsplash.com/photos/gWZfmnDoL_EThis article hasn't been translated to English yet — showing the original Portuguese version.
