Entrevista a Salomé Costa "Este livro espelha um momento de reinvenção"
6 August 2026 · 8 min read

Crédito da foto: Ieva Grikinyte
"A language that survives" é um livro bilingue, lançado pela Chiado Books que introduz o profundo imaginário visual e poético da sua autora, Salomé Costa, que entrevistámos a propósito do seu percurso profissional, do que é fazer arte e das suas expetativas para o futuro.
"Há uma grande vontade em mim de aprender sobre as coisas que nos rodeiam, e isso tem sido o principal motor da minha carreira, tanto artística como académica".
1_ Se tivesses de apresentar a Salomé a quem não te conhece quais os pontos essenciais que farias questão de referir?
A Salomé vive intensamente e está a aprender a partilhar essa intensidade com os outros. Não gosta de rótulos porque parecem existir por causa da experiência de outros, e isso deve ser sempre questionado. Tem poucas certezas, o que lhe permite procurar alternativas, soluções e conhecimento. A Salomé é audaz e resiliente, encontra-se em constante viagem entre os mundos imaginários e a realidade, tem uma força que não sabe bem explicar e gosta de se desafiar.
2_ Estudaste durante doze anos música clássica. O que te aproximou desta Arte e que ferramentas levas para a vida depois de tantos anos de formação?
Nos últimos anos académicos, dedicados à música clássica, o que mais aprendi foi o que não queria levar comigo para a vida. Ainda é um tópico delicado porque não tenho bem a certeza de que lado do barco é que estou. Sinto-me um pouco frustrada e desapontada com o tópico em si. Há uma grande parte da viagem de se ser músico que acaba por ser descoberta individualmente, intuitivamente, e é um processo muito solitário, e que pode nem sempre estar certo. Por outro lado, vivi momentos inesquecíveis nesse mundo que me trazem grande nostalgia. Aprendi a ouvir, desenvolvi uma visão mais estratégica, eficiência e ganhei um gosto especial por me desafiar e assumir responsabilidades.
3_ Definirias a multidisciplinariedade como uma necessidade natural da tua alma ou como a famosa frase atribuída a Picasso "Aprenda todas as regras como um profissional para que possa quebrá-las como um artista"? É uma mistura de ambas?
Infelizmente, sou demasiado impaciente para aprender todas as regras. Tenho a sorte de poder viver intuitivamente e de ter excelente memória, o resto é magia. No entanto, há uma grande vontade em mim de aprender sobre as coisas que nos rodeiam, e isso tem sido o principal motor da minha carreira, tanto artística como académica.
4_ "A language that survives" é uma obra bilingue em que a poesia dialoga de forma perfeita com a fotografia, em que mais que uma combinação, são uma unidade. Dirias que és uma artista que já encontraste, neste momento, a tua voz ou que vais continuar sempre, seguindo as tuas inquietudes, à procura de novas formas de expressão?
Posso dizer que aprendi muito em todo este processo, desde o escrever até ao promover e traduzir para o público e sinto que estou próxima de encontrar uma linguagem que me irá permitir explorar ao máximo o meu potencial emocional e artístico. No entanto, tudo pode mudar e com certeza irei ter que encontrar novas formas de expressão no futuro.
"O que tem o maior valor é tudo o que o criador aprendeu e absorveu no processo de concepção e partilha. Isso que é imaterial estará presente no próximo projeto e prevê um futuro em constante transformação e evolução".
5_ A nossa revista fala muito de saúde mental e tu partilhas algumas listas no teu livro. Podias falar um bocadinho do impacto a nível de organização de ideias e de clareza emocional que escrever proporciona ao teu cérebro?
Foi da falta de organização e clareza mental que surgiu o livro. Ele espelha um momento de reinvenção. Esses momentos são, muitas vezes, momentos de pouca clareza; é com o estarmos inundados de dúvidas que começam a surgir novas respostas. Sou alguém que tem dificuldades em abrandar pensamentos, é sempre tudo muito confuso. A escrita ajuda a acalmar esse fogo em mim, mas não é algo que eu procure para clarear as nuvens. Para esse efeito, a música e o movimento são mais precisos. Eu uso a escrita para contemplar mais do que para explicar.
6_ Esta tua primeira obra é apresentada como abordando questões de identidade, valor e propósito. Gostei particularmente de uma parte (espero não estar a deturpar o sentido das tuas palavras) em que dizias que um projeto criativo que nos acompanha não se mede pelo seu valor posterior a nível performativo, mas naquilo que nos mudou a nós. Ainda manténs essa filosofia de vida e de trabalho?
Pergunta bastante difícil, não tenho a certeza se a interpretei da forma que querias. Sim, a obra material irá sempre representar um momento, uma fase imaterial da vida do seu criador. A partir do momento em que a obra se torna pública, ela é uma representação de algo que já foi, de um criador que já não é o mesmo e que não irá criar outra obra como aquela. A obra passa a estar exposta a interpretações ilimitadas e vidas diversas, e isso é lindo; mas apenas mostra que, neste caso, o valor que atribuímos a estas coisas materiais é variável dependendo da relação entre observador e observado. No entanto, para mim, o que tem o maior valor é tudo o que o criador aprendeu e absorveu no processo de concepção e partilha. Isso que é imaterial estará presente no próximo projeto e prevê um futuro em constante transformação e evolução. Do ponto de vista do espectador, o processo será muito semelhante; é a experiência emocional que a obra lhe proporciona que fica na memória e pode evocar mudança.
"A obra surgiu de um sítio muito íntimo, de uma viagem interior minha, e esta é uma forma de ler o livro; no entanto, a outra forma de o ler é através da perspectiva pessoal do leitor."
7_ Sentes que apesar de teres lançado uma coleção híbrida a tua intenção ficou inteira e não fragmentada, seguindo a exortação de Fernando Pessoa "Põe quando és no mínimo que fazes"?
Sim, a obra ficou fiel à minha intenção e consciência, sendo representada de uma forma também fragmentada.
8_ Tens ideia de quando tempo o livro demorou a estar pronto desde a sua concepção aos ajustes finais e que fases mais interessantes nos podes contar sobre todo esse processo?
Desde a decisão de escrever um livro até à publicação, demorou cerca de dois anos e pouco, embora o processo não tenha sido contínuo. Comecei a trabalhar no projeto no outono/inverno de 2023 e o livro foi publicado em fevereiro de 2026. Posso dizer que foi um processo extremamente intenso a nível emocional. Apesar do projeto ter começado em 2023, ele também reflete fases difíceis de anos anteriores, dores de crescimento, o processo de adaptação a um novo país, falta de rumo, redescoberta pessoal. No entanto, foi precisamente este projeto que me trouxe esperança e um novo propósito à medida que ia ganhando forma. Durante todo esse período, conciliei a escrita com o trabalho; eu digo um part-time, mas, na realidade, as horas eram a tempo inteiro. Mais tarde, já na fase de edição, em contacto com a editora e a promoção, estive sempre a gerir paralelamente com o trabalho, agora realmente em part-time, e o primeiro ano na universidade a tempo inteiro, foi duro. Aprendi coisas giras sobre mim, como ter as melhores ideias nos momentos mais inoportunos, por exemplo: enquanto trabalhava (cheguei a fazer um ou dois poemas enquanto trabalhava, ou outro tipo de planeamento, lembro-me de estar a pensar repetidamente no mesmo verso ou na mesma ideia para não me esquecer antes de anotar), enquanto andava de bicicleta para ir trabalhar, a tomar banho, etc. Comecei a trazer para onde quer que fosse um pequeno bloco de notas para poder praticar esta espontaneidade.
9_ Estás a cursar atualmente Estudos Antigos nos Países Baixos. Que inspirações novas está a tirar desta nova aprendizagem e consegues de alguma forma relacionar num círculo perfeito com a forma como tudo começou, com a Música Clássica?
Sim, é verdade. Foi uma grande reviravolta na minha vida, à qual estou muito grata porque me tem colocado em sítios extremamente desafiantes e enriquecedores. Não só me traz novas inspirações como me está a tornar num ser humano diferente, mais paciente, mais cauteloso, com mais perguntas do que as que já tinha antes. Coisas que espero trazer no meu próximo projeto. Eu diria que não é de todo um círculo perfeito, é uma forma bem mais irregular e incerta. Sempre tive muito interesse pelo passado, pela história e foi como se essa parte de mim estivesse à espera do momento oportuno para ocupar o seu devido espaço na minha vida.
10_ Por último, gostarias de dar algumas pistas ou explicar o que significa para ti "A language that survives" ou preferes que o leitor forme a sua própria imagem mental depois de fazer a leitura do livro?
Poderia ser mais clara em relação a isso, talvez um dia venha à tona exatamente ao que eu me referia, mas para já não quero restringir a imaginação e a viagem dos leitores. A obra surgiu de um sítio muito íntimo, de uma viagem interior minha, e esta é uma forma de ler o livro; no entanto, a outra forma de o ler é através da perspectiva pessoal do leitor, porque estes momentos de reinvenção e crescimento são momentos que nos afetam e conectam a todos como seres humanos.
Paula Cristina Gouveia
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