As férias que nunca tirámos
11 August 2026 · 4 min read

Chegou agosto e, com ele, a praga anual: o telemóvel a vibrar com pores-do-sol da Grécia, piscinas infinitas em Bali, cocktails cor-de-rosa fotografados contra o mar da Comporta. Não estamos de férias. Estamos, isso sim, a assistir às férias dos outros — editadas, filtradas e coreografadas ao milímetro para nos deixar com aquela sensação incómoda de que a nossa vida, em comparação, é cinzenta.
Não é imaginação. É desenho.
O Instagram não mostra férias — mostra o “ideal de férias”. E há aqui qualquer coisa de profundamente humano, ainda que pouco confessável: gostamos de exibir o nosso descanso tanto quanto gostamos de descansar. Já no início do século XX, o economista e antropólogo Thorstein Veblen descrevia o chamado "consumo conspícuo" — a forma como exibimos bens e experiências não pelo prazer que nos dão, mas pelo estatuto que comunicam aos outros. Trocar o "lazer ostensivo" de outros tempos (não trabalhar era, em si, sinal de riqueza) pela viagem fotografável de hoje é apenas a mesma lógica do “filtro Valencia”.
-O palco onde ninguém descansa-
O sociólogo Erving Goffman explicava a vida social como um teatro: há um "palco" onde representamos a versão de nós que queremos que os outros vejam, e existem os "bastidores", onde somos simplesmente humanos — cansados, aborrecidos, com o filho a fazer birra no aeroporto. As redes sociais eliminaram os bastidores das férias. Já ninguém publica a fila de três horas na segurança do aeroporto, o quarto de hotel que cheira a mofo, a discussão em casal sobre para onde ir jantar. Publica-se o momento — um único segundo, entre milhares — em que tudo pareceu perfeito.
O problema é que nós, do lado de cá do ecrã, comparamos os nossos bastidores completos com o palco editado dos outros. É uma comparação garantidamente perdida.
-Férias como ritual, não como troféu-
Victor Turner, antropólogo britânico, ao estudar rituais descreveu a ideia de liminaridade àquele espaço de transição em que saímos da rotina, suspendemos as regras habituais e, por breves dias, somos "outra pessoa" — mais livre, mais disponível, mais nós. As férias, nesta leitura, sempre foram isso: um parêntesis sagrado, quase ritual, longe da estrutura do quotidiano.
O problema é que transformámos o ritual em produto. Já não vamos de férias para sair da rotina — vamos de férias para produzir conteúdo sobre ter saído da rotina. O parêntesis deixou de ser vivido e passou a ser documentado, e a documentação, essa sim, tornou-se a verdadeira ocupação das férias. Há quem passe mais tempo a procurar o ângulo certo da fotografia do que a olhar, sem telemóvel, para o mar que foi ali para ver.
-A economia da inveja alheia-
Nada disto é acidental. As plataformas têm todo o interesse em que a comparação social nos deixe inquietos — é esse desconforto, aliás, que nos faz voltar a abrir a aplicação, à procura de mais um destino, mais uma ideia, mais uma prova de que "ainda não fizemos o suficiente". Cria-se, assim, um mercado de destinos que se tornam desejáveis não pela experiência que oferecem, mas pela sua "fotogenia": não se vai a determinado lago porque é bonito, vai-se porque é instagramável — categoria bem diferente, e mais estreita, do que simplesmente bonito.
E há também uma injustiça silenciosa nesta equação: as férias que aparecem no ecrã pressupõem, quase sempre, tempo e dinheiro que a maioria das pessoas simplesmente não tem. Comparar a nossa semana de campismo em Aveiro com a "escapadinha" de dez dias às Maldivas de um influenciador patrocinado não é comparar férias — é comparar realidades económicas completamente diferentes, disfarçadas da mesma estética de sonho.
-Recuperar o direito a férias medíocres-
Talvez a rebeldia neste verão seja pequena e sem glamour: com fotografias piores. Ou nenhuma, de todo. Deixar que a memória mais bonita das férias seja aquela que nunca chegou a existir em pixels — uma conversa longa, um livro acabado, uma sesta sem propósito.
Ninguém morre por não ter ido a Santorini. Morre-se, isso sim, um pouco todos os dias, a comparar a nossa vida inteira com o highlight reel editado da vida de estranhos. As férias de sonho do Instagram não existem — existem apenas boas edições. As nossas, ainda que imperfeitas, são as únicas que realmente vivemos.
Ana Kosmider Leal
Antropóloga e professora

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