← Back to blogBem-estar

Aceitar a felicidade

23 October 2019 · 2 min read

Aceitar a felicidade
   

Há manhãs cinzentas que começam mal e se vão tornando gradualmente piores e a medida que o dia avança, é como se entrássemos dentro de um qualquer feitiço feito de todas as coisas que mais nos incomodam no mundo e nas outras pessoas. Sentimos que não pertencemos a lado nenhum, que vamos andar sempre à deriva, como quem mergulha em águas das quais nunca vai encontrar o pé. Tudo é demasiado vasto e infinito e também potencialmente impessoal, frio e limitado. Mesmo nestes tempos em que a Internet nos possibilita tantas coisas, como expressar ideias, valores e mensagens, em muitas questões continuamos com respostas imperfeitas ou colocando ainda mais perguntas. Talvez seja por isso que nos continuemos a sentir isolados mesmo tendo aparentemente tantas possibilidades de contactarmos uns com os outros.

Não sabemos explicar as razões porque muitas vezes desistimos antes de lutar, as tardes tornam-se negras e arrastam-se penosamente, como se a nossa missão devesse ser suportar as horas e não aproveitá-las, desfrutando da vida alegremente.

E um dia é como se a dor simplesmente deixasse se manifestar, como se pela primeira vez abríssemos os olhos e percebêssemos que o sol existe para todos, mesmo que às vezes pareça não brilhar. No início é uma sensação estranha porque não nos é familiar, parece que é algo irreal. Fomos educados para sermos produtivos, para sermos funcionais, para termos sucesso e acumular dinheiro. Não fomos educados simplesmente para ser, para sentir e gerir emoções, sejam elas quais forem. O mais triste de tudo: não fomos educados para ser felizes.

Para muitas pessoas é mais fácil destruir relacionamentos do que acreditar que vai resultar e esforçar-se para isso. É mais fácil a auto-sabotagem do que trabalhar com paixão e afinco porque acreditamos que a recompensa mais tarde ou mais cedo, vai chegar.

Quando tudo é leve é fluído, temos tendência a ter pensamentos ruminantes e desorganizados e é quando reparamos o quando estamos habituados a um ambiente caótico e potencialmente tóxico a longo prazo. Queremos tanto estar no controlo que por vezes não sabemos simplesmente aceitar quando tudo corre bem, quando o vento sopra a nosso favor e a felicidade se instala no interior de nós. Sabemos que nada é permanente e num segundo tudo pode mudar mas tal não deve fazer com que comecemos a sofrer por antecipar e a traçar cenários de eventuais desgraças.

Saibamos abrandar mesmo que o mundo nos exija que aceleremos, saibamos respirar mesmo quando nem para isso pareça haver tempo porque se é preciso resolver problemas, apaziguar conflitos e lidar com o sofrimento, também é igualmente vital apreciar os momentos de paz, de sentido e clareza e ver neles pequenos e belos milagres,

 

Paula Gouveia

This article hasn't been translated to English yet — showing the original Portuguese version.

Comments