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A incerteza que nos consome

9 July 2020 · 3 min read

A incerteza que nos consome
   

A conversa é a mesma: nos cafés, nos supermercados, nos cabeleireiros, um pouco por todo o lado. Será que o pior ainda não passou? Perguntamos-nos acerca do nosso futuro, se podemos fazer planos ambiciosos para o próximo Outono ou se, pelo contrário, outro confinamento se irá impor. Reflectimos sobre segurança, o que podemos fazer para nos proteger e aqueles que amamos, como manter a chama dos nossos sonhos e esperanças vivos, mesmo quando temos de cancelar ou adiar projectos. Adiar é não viver na altura que gostaríamos e não viver doí-nos, é como um peso que arrastamos durante milhares de quilómetros arriscando-nos a desmaiar de cansaço. Como ficar, então, mais leves?

Quando nos sentimos sobrecarregados é frequente que essa sensação venha acompanhada de que pouca coisa está realmente sob o nosso controle. Todas as cartas do baralho parecem ser jogadas aleatoriamente e nos serem dadas sem nos consultar de antemão quanto ao resultado que daí advém. Quando tudo nos parece arbitrário sem fio condutor, rapidamente perdemos o encanto pela vida, a capacidade de sentir paixão e entusiasmo pelas pequenas coisas. E são as pequenas coisas que fazem toda a diferença, que transformam ruídos em melodias, que organizam o caos, que nos fazem filtrar o exterior e criar pontos de coesão dentro de nós.

Nem tudo tem de fazer sentido e ser coerente, o ser humano é tendencialmente cheio de contradições, mas no essencial importa que vivamos alinhando o que fazemos com os nossos objectivos e propósitos, que não personifiquemos uma mentira apenas porque achamos que assim conseguimos agradar mais aos outros.

Tudo o que consome, subtrai-nos algo em troca e se é a incerteza, é certo que nos fará mais mal que bem pois antecipar sofrimentos não evitará que aconteçam, preocupar-se em demasia não ajuda a resolver problemas, só uma atitude proactiva o poderá fazer.

Associamos frequentemente o branco à pureza e à paz. Num mundo em que nem tudo pode ser comprado, que tenhamos pelo menos a salvaguarda que acontece quando as tempestades interiores se acalmam, quando o vento implacável se tornava numa brisa suave.

Nunca há certezas absolutas, as respostas que parecem cravadas em pedra são apenas tentativas temporárias pois a vida em si é provisória. Nunca teremos o poder de saber exactamente o que amanhã nos trará e não devemos permitir que isso nos impeça de ser felizes, não devemos tornar essa a causa dos nossos conflitos e revolta.

Dizem-nos para sonhar mas com os pés no chão, para termos sempre em conta qual é a realidade das coisas. Há alturas em que nada é mais agradável do que estar com a cabeça nas nuvens sem fazer caso a conselhos ou admoestações. Noutras, temos de descer à terra e ver onde aliar coração e razão, aquele lugar doce que alia potencialidades na teoria com aplicações na prática.

A incerteza é um facto da natureza, é uma constante do que somos, do que sempre vamos ser. Não é feita para ser adorada ou repudiada, é feita para ser aceite. Que ventos favoráveis nos acompanhem, que a saúde não falhe e continuemos a trilhar a senda do que sonhamos, com a tranquilidade de saber que ao viver mais um dia, com alguma dignidade e alegria, já estamos no caminho certo.

 

Paula Gouveia

Créditos da imagem: https://unsplash.com/photos/W-wGFm54R-k

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