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A depressão na primeira pessoa: Entrevista a Catarina Syder Fontinha de "O Sentido do Ser"

20 March 2021 · 20 min read

A depressão na primeira pessoa: Entrevista a Catarina Syder Fontinha de "O Sentido do Ser"
[caption id="attachment_3230" align="aligncenter" width="695"] Caracool.Fotografia[/caption]  

Olá leitores da Humanamente.

Vivemos tempos difíceis que certamente irão deixar muitas marcas e traumas em todos nós, de forma mais ou menos profunda. Avizinham-se ainda tempos duros de mais incerteza, de uma crise que já não temos como negar e que vai causar ainda mais danos a somar aos que já acumulamos. Como é que nos preparamos emocionalmente para isto?

A saúde mental, embora hoje em dia mais falada do que antes, permanece ainda um mistério e um tabu para a grande maioria das pessoas. Muitas continuam mesmo a querer negar o impacto das emoções no dia-a-dia de alguém e a estereotipar e julgar quem se vê negativamente afetado por elas, ou, mais propriamente, pela incapacidade de as gerir e controlar mediante padrões culturais e sociais que nos são impostos, que nos limitam e que em nada nos servem. Por outro lado, os próprios sistemas públicos de saúde e de ensino continuam a estar aquém nas medidas de prevenção, proteção e cuidado que poderiam (e deveriam) assumir, criando graves lacunas e facilitando as práticas de remedeio que só ampliam os problemas, o que está agora claro que já chegou ao ponto de insustentabilidade. Mas o que é que nós, comuns cidadãos, podemos fazer quanto a isso?

Não tenho as respostas todas, mas estou em constante busca das mesmas. E hoje, a convite da Paula Gouveia, irei partilhar convosco aquilo que sei, o que faço e por que luto diariamente desde há 6 anos. Não, contudo, sem antes vos alertar para o facto das minhas respostas poderem incluir conteúdos sensíveis que despoletem emoções fortes a quem se encontre vulnerável. Se  for o caso por favor peçam de imediato ajuda!

 

 1) Para as pessoas que não te conhecem, quem é a Catarina e o que te levou a criar a página "O sentido de ser"?

O meu nome é Catarina Syder Fontinha e entre 2014 e 2015 tive uma depressão profunda com tentativas sérias de suicídio, mesmo com acompanhamento terapêutico e psiquiátrico. A gota de água que me levou a tentar tirar a própria vida foi uma relação tóxica e com violência doméstica (psicológica e emocional, mas também, ainda que subtilmente, física), mas o certo é que as causas vinham detrás, de todos os traumas não resolvidos que tinha acumulado até ali e que pouco a pouco me iam tirando a força e capacidade de lidar com situações limite de forma saudável e construtiva. Ia a caminho de nova tentativa, com tudo estudado e testado ao pormenor para garantir o seu sucesso, sozinha em casa sem que ninguém me pudesse travar, quando em vez disso peguei no telefone e pedi ajuda, sem desistir até encontrar alguém que ma garantisse. No dia seguinte, véspera do meu 31º aniversário, dei voluntariamente entrada numa clínica de tratamento onde acabei por ficar 7 meses internada, 4 dos quais quase completamente isolada do mundo à minha volta. Foi nessa clínica que comecei a ser confrontada comigo mesma e a ter acesso a ferramentas de autoconhecimento e autodesenvolvimento de uma forma séria e profunda. Quando saí da clínica, prossegui nesse caminho e nunca mais parei – essa é a razão porque hoje estou viva, ativa, construtiva e a lutar por mim ao mesmo tempo que dou voz a esta causa na página @osentidodeser do Instagram e Facebook, em eventos, conferências, workshops, e no meu dia-a-dia enquanto cidadã comum.

2) De onde surgiu a ideia para o nome do projeto e quais eram os teus objetivos iniciais quando o criaste? Sentes que tem ido ao encontro das tuas expetativas?

 

Quando regressei ao mundo exterior e saí da minha bolha protegida, comecei por usar as redes sociais de forma privada para manter família e amigos dos 4 cantos do planeta a par da minha recuperação. Ao longo de 2016 fiz para eles uma publicação diária a celebrar uma pequena ou grande conquista, um momento de paz, uma aprendizagem, uma dificuldade superada, um contratempo resolvido, ou até mesmo algum pedido de ajuda e apoio caso fosse preciso. A par com isto, também participava regularmente em grupos terapêuticos e não terapêuticos, aos quais tinha começado a ter acesso na clinica, mas que estão acessíveis a qualquer pessoa (e que em tempos de pandemia se tornaram virtuais – em coda.org podem encontrar informações sobre estas reuniões a nível mundial, incluindo Portugal, assim como ter acesso a mais ferramentas de apoio). Rapidamente compreendi o impacto e importância da partilha quer para a identificação pessoal e prática da empatia e do crescimento conjunto, quer para a motivação e responsabilização perante quem está ao nosso lado.

Foi assim que, ainda em 2016, criei a primeira página de apoio e partilha de ferramentas, que ainda hoje se mantém ativa no Instagram e Facebook, designada de @eutunos.me.nos (eu, porque parte de mim; tu, porque é para ti, sejas tu quem fores; nós, porque nos envolve e interliga; me, por ser um trabalho de autocuidado continuo; nos, por ser uma partilha de ferramentas e informação; menos, por ter o objetivo de minimizar tabus, informando e contando a minha história em prol do bem maior).

Na minha pesquisa já tinha identificado aqui em Portugal uma grande lacuna nesta área, a informação sobre saúde mental e sobretudo sobre depressão e suicídio era escassa, pouco divulgada, demasiado técnica e muito pouco apelativa ou feita de forma interventiva e em proximidade com o público a que se destinava. Também tinha visto e seguia exemplos internacionais, desde o Brasil aos EUA, passando pelo Reino Unido e mais alguns países europeus, ainda que em menor escala, do que poderia e deveria ser feito, o que me incentivou a tentar. Contudo, porque o meu processo estava ainda frágil e a sociedade portuguesa tinha ainda muitas barreiras e entraves, não comecei logo a entrar nos temas difíceis, mas procurei soluções alternativas. Apenas em 2017 é que mudei o rumo e comecei verdadeiramente a contar a minha história (abri, inclusive, um canal no Youtube, que ainda existe, mas está parado, onde publiquei diversos vídeos da minha experiência) e a partilhar informações e iniciativas como o Setembro Amarelo, tornando-me numa das primeiras vozes nacionais não profissionais a falar abertamente sobre estes temas e chegando a ter uma reunião presencial com a vice-diretora do Programa Nacional para a Saúde Mental da DGS para apresentar o meu projeto e obter o apoio deles. Ainda que isso não tenha acontecido, o facto de nesse ano também começarem a haver mais fóruns e eventos de debate sobre esta área, não me impediu de ser uma voz ativa na plateia dos mesmos e de, por causa disso, acabar por integrar projetos como o “Fazes Parte” da YMCA Setúbal e a Associação Alertamente onde coorganizei o 1º fórum da saúde mental e até ser convidada a dar o meu testemunho em plena televisão nacional.

Foram estes convites, a par com a sede constante de me informar sobre o tema (lendo relatórios, observando estatísticas, criando eu mesma questionários, conhecendo outras histórias e experiências em conversas, ampliando os meus horizontes e entendimento) e com a paixão ardente de continuar a salvar a minha própria vida e a de outras pessoas, inclusive tentando travar e prevenir a necessidade de intervenções de recurso em situações limite como a minha foi por não querer que ninguém passasse pelo mesmo, lutando para isso por melhores condições para todos, que me fizeram sentir necessidade de separar a continuidade dos meus testemunhos quase diários do lado ativista e de intervenção social. Assim nasceu a nova página @osentidodeser, com o objetivo de que tudo isto fosse cada vez mais maior que eu – tinha na verdade encontrado um propósito e sentido de missão, e queria ajudar outras pessoas a fazer o mesmo facultando-lhes ferramentas e informação para que tal fosse possível. Hoje, mantenho-me firme e segura nesta missão, tendo superado todas as incertezas, dificuldades e percalços que a mesma também me causou, e estando agora a criar as bases sólidas da casa que já comecei a erguer há 3 anos, ao mesmo tempo que esta continua também a crescer e a aumentar a sua capacidade de ação quer através do meu trabalho direto, quer através de parcerias e contribuições que vou criando e tendo.

 

"O truque está no equilíbrio de ambas as partes, na compreensão de que sou parte de um todo"

 

3) Dizes que a depressão que tiveste, que foi muito grave, foi o teu pior pesadelo. Quais foram os fatores decisivos que consideras terem-te levado a dar a volta por cima e conseguir ver, finalmente, uma luz ao fundo do túnel?

 

Não há nada nem ninguém que possa decidir por nós mesmos que queremos viver e que estamos prontos para fazer o que for preciso para encontrar a forma de o fazer. Hoje eu quero viver, em vez de apenas sobreviver. Eu acredito que, na loucura em que estava quando pedi ajuda, algo no meu inconsciente já o sabia, mesmo que o meu consciente não o soubesse. E mesmo assim, negociei a minha vida ao dar entrada na clínica e passei todo o 1º mês de internamento na mesma: ora a negar a minha situação e a tentar integrar-me no grupo, com todos os meus padrões de co dependência ativos; ora a ter momentos em que nem sequer via um palmo à frente do nariz e não fazia ideia de onde estava; ora ainda a questionar-me porque lá estava, qual era validade da minha tentativa de me salvar a mim própria e a negociar comigo mesma a minha continuidade ali vs a minha morte. Foi, para mim, preciso ver a morte de frente nos olhos de outra pessoa viva por quem estava a lutar para que se quisesse salvar que me fez reagir e decidir dar tudo de mim para tentar viver e fazer jus à minha decisão de me ter internado voluntariamente ali. Afinal, que sentido fazia eu querer ajudar alguém e continuar a ignorar-me a mim mesma?

É por isto que o meu projeto começa por mim, uma vez que não é apenas uma frase feita e cliché dizer-se que “para ajudar alguém temos de garantir a nossa estabilidade em primeiro”. Claro que as coisas podem ser feitas a par e passo, mas se eu só me focar nos outros e me desfocar de mim, rapidamente a minha própria vida volta a entrar em desequilíbrio e eu volto a perder o rumo; se, por outro lado, apenas me focar em mim, também fico imersa nos meus pensamentos, dores, inseguranças e entro em autobloqueio; o truque está no equilíbrio de ambas as partes, na compreensão de que sou parte de um todo e que não tenho de ser sempre o elo mais forte ou o mais fraco deste, mas que é ok passar por todos os estágios e fazê-lo partilhando a jornada com uma rede de suporte adequada e com a comunidade a quem isso possa fazer sentido.

 

"Continuo a trabalhar em mim e a crescer enquanto pessoa para continuar a estar cada vez melhor, mais sábia, mais centrada, mais feliz"

 

4) Quais as maiores diferenças que consegues ver, já com algum distanciamento entre a Catarina deprimida e a pessoa que és agora?

 

Passar por uma depressão como a que eu tive pode parecer fácil a quem está a ver de fora, mas garanto que não o é a quem o está a sentir na pele. Temos todo o nosso corpo a lutar contra si mesmo, todos os órgãos a funcionar a meio gás e sobretudo o cérebro completamente em exaustão e sobrecarga de passar 24h sobre 24h, meses a fio sem descanso algum a tentar encontrar soluções para todos os problemas que temos, sentimos, inventamos, criamos... O meu metabolismo estava super acelerado e eu, que sempre tive mais tendência em engordar facilmente por ter uma relação nada saudável com a comida (também cheguei a ir a grupos de apoio para esta situação, além de a abordar em terapia – informação e ferramentas em ccaportugal.jimdofree.com/), em menos de 6 meses passei de 77kgs para 40kgs, o que me punha em risco acrescido de morrer de anorexia nervosa por falência dos meus órgãos vitais.

Obviamente que quer o meu aspeto físico quer a minha baixa e até negativa energia vital afetavam e influenciavam todas as pessoas à minha volta; as minhas oscilações de humor e capacidade de reação tiveram um impacto muito forte na minha família, chegando a acelerar a evolução negativa da doença do meu pai (tem EM) e quase levando a minha mãe à loucura por exaustão física e mental, e amigos mais próximos, que sofriam sem saber mais como me ajudar e choraram quando souberam que o meu desaparecimento a determinada altura foi por me ter internado para me tentar curar e não por ter tirado a própria vida. Também a nível profissional tiveram consequências, sendo que a determinada altura consegui arranjar um trabalho onde os psicotécnicos que me fizeram já indicavam problemas, mas me tentaram dar a mão e ajudar até que o meu excelente desempenho profissional não era suficiente para colmatar as queixas dos colegas e até mesmo das pessoas de outras empresas que se cruzavam comigo nos espaços comuns do edifício pela minha incapacidade de me relacionar de forma saudável com elas devido a todo o peso emocional, de medo e vergonha que me esmagava e levava a querer esconder e fugir de cada vez que já nem conseguia fingir que estava tudo bem.

Desde que entrei em recuperação que voltei a ter um espírito mais construtivo, a ter uma energia mais limpa e positiva e a conseguir conectar-me de forma diferente com o mundo e as pessoas à minha volta. Nem tudo foi um mar de rosas, é certo, e as aprendizagens são contínuas nas tentativas de mudar os meus padrões de comportamento e reação; já fiz amizades novas e já perdi amizades antigas; já passei por diversas experiências e desafios profissionais; já adotei duas cadelas lindas, que me apoiam incondicionalmente quando estou em dias não, mas também puxam por mim para não ficar ali presa; já viajei sozinha e superei diversos limites físicos e mentais; já tive potenciais recaídas e usei as ferramentas ao meu dispor para me reequilibrar e reerguer de imediato, sem entrar de novo em espiral negativa. Hoje sinto que, independentemente de todas as dificuldades que esta pandemia também me trouxe – fiquei sem trabalho, sem casa, sem rendimentos e a depender do apoio da família -, estou emocionalmente mais consciente e estável do que alguma vez estive na minha vida e continuo proactivamente a trabalhar em mim e a crescer enquanto pessoa para continuar a estar cada vez melhor, mais sábia, mais centrada, mais feliz.

 

"O meu propósito passa pela essência do que quero ser e da energia que quero transmitir e receber do mundo"

 

5) Numa altura em que se fala muito em estarmos alinhados com o nosso propósito de vida e com as nossas razões para agir, o nosso "porquê", sentes que encontraste o sentido para o teu ser e se sim, de que forma é que achas que esse processo teve lugar?

Sim, acredito que sim. Não em todas as frentes, porque, em abono da verdade, continuo a ter áreas indefinidas na minha vida e sobre as quais tenho dificuldades em definir objetivos e prefiro viver o dia-a-dia e o momento presente (aliás, é isto que faço no geral, mas há partes da minha vida em que consigo ter uma ideia clara para o que quero alcançar nos próximos 6 a 12 meses, outras em que não o consigo fazer por não querer criar expectativas). Ao mesmo tempo, também estou consciente do trabalho, empenho e tempo que as conquistas que quero fazer podem levar a ter e do facto de que as coisas podem não correr a 100%, pelo que não deixo de ter planos B de segurança a nível da necessidade de resposta às minhas necessidades básicas, mesmo que isso implique, por exemplo, estar a trabalhar nalguma área que não me estimula tanto para poder pagar as contas.

Recentemente fiz, com a Paula Matias, uma coach que acaba de se tornar minha parceira no projeto com esta precisa ferramenta, o Jogo do Propósito para tentar encontrar resposta para essas áreas que tenho mais indefinidas. E compreendi que o meu propósito não passa pelo plano A ou pelo plano B, mas sim pela essência do que quero ser e da energia que quero transmitir e receber do mundo faça eu o que fizer na vida. Defini que eu, Catarina, quero contribuir para um mundo mais justo e empático, que proporcione alegria e esperança num futuro melhor a quem se relacione comigo (direta ou indiretamente), estando comprometida a fazer a minha parte por meio do meu desenvolvimento e exemplo pessoal, porque acredito no meu poder de inspiração e conexão autêntica e que este se multiplica nos demais.

 "Esta causa e luta são maiores que eu"

 

6) Defines-te como uma ativista em saúde mental, uma pessoa que quer partilhar a sua história e ajudar as pessoas. Como vês o ativismo em saúde mental ao redor do mundo e particularmente em Portugal? Consideras que têm sido tomadas medidas suficientes para chegar às pessoas que precisam de ser ajudadas?

 

Desde que eu comecei os meus projetos em 2016 até agora que muita coisa mudou, sobretudo neste último ano de pandemia. Como referi na introdução, hoje em dia há muito mais vozes, nacionais e internacionais, a falar abertamente de saúde mental e emocional, a transmitir informação de forma clara e apelativa e a fazer com que esta alcance um maior número de pessoas. Isto está a contribuir para um aumento da empatia e da compreensão, mas ainda é insuficiente.

A maior parte das ações informativas acontece nas redes sociais e nas grandes cidades, chegando a públicos muito definidos e limitados. De igual forma, são também os grandes centros urbanos aqueles onde existe um maior número de possibilidades de cuidados médicos, sejam de terapia ou psiquiatria, e também de soluções alternativas e preventivas, como aulas de yoga e meditação, medicinas alternativas, etc. Contudo, as zonas rurais do centro e sul do país, onde na realidade há maior incidência das taxas de suicídio há décadas, continuam a ser menosprezadas e sub-apoiadas. No Alentejo, nos últimos 3 anos, durante o mês de Setembro já se vão fazendo campanhas de informação e prevenção. Contudo, uma vez mais, também a forma como estas são aplicadas chega mais a uma população que já tem mais capacidade e acesso à informação por outras vias e manifesta interesse por elas, do que a quem realmente precisa por ser quem perpetua estigmas, tabus, preconceitos e vulnerabilidades – a população menos culta, de maior idade, mais isolada.

Por outro lado, já é um facto mais que consolidado, e que esta pandemia veio ampliar grandemente, que o SNS tem um número insuficiente de apoio clinico de psicoterapia nos cuidados primários, e que mesmo nos cuidados de continuidade e em crise há graves falhas que levam a meses de espera para acesso aos hospitais de dia ou até às enfermarias de internamento, sendo a política habitual fazerem-se consultas de psiquiatria de x em x meses para medicar as pessoas, esperando que o problema assim fique controlado, se não mesmo resolvido – o que, claro, não acontece. O acesso ao privado continua a ser um privilégio, porque mesmo as tarifas sociais que muitas clinicas aplicam para apoiar pessoas mais carenciadas são para estas insustentáveis a médio/longo prazo, sendo que raramente os problemas se resolvem num par de semanas ou meses. Felizmente já há movimentos associativos recentes, como a Associação The Pinnaple Mind, e partidos políticos a criar propostas para alterar esta realidade, seja com a contratação de mais profissionais, ou com a criação de um cheque terapêutico que subsidie consultas no privado quando o público não tem capacidade. Continua, contudo, a não haver um plano de ação que abranja por igual todo o país.

Noutro aspeto, ao longo dos últimos anos tem-se verificado internacionalmente um acréscimo acentuado dos problemas de saúde mental e das taxas de suicídio entre os jovens dos 15 aos 25/30 anos, sendo esta já a 2ª principal causa de morte destes a nível mundial. Se as redes sociais lhes dão acesso à informação disponibilizada pela minha e por diversas outras vozes que os tentam ajudar e proteger, também se sabe que são um fator de risco com as novas e mais intensas formas de bullying e todos os estereótipos com que se confrontam a cada momento nas mesmas, não tendo ainda capacidade de os combater de forma saudável e segura e sentindo-se presos na impotência de poderem falar disso abertamente com alguém, porque os pais lutam para trabalhar e pagar as contas, os amigos julgam,  etc. A intervenção de prevenção a este nível é ainda muito limitada e, comparativamente a outros países onde o tema da saúde mental já é debatido e levado mais a sério há mais tempo, está muito aquém das necessidades. É urgente e necessário implementar nas escolas, desde tenra idade, apoios emocionais e ensino de gestão emocional – a ideia de que esta é uma tarefa que se limita aos pais em casa é uma ideia antiquada, perigosa e irrealista quando os miúdos passam mais tempo na escola e em atividades semelhantes que em casa, além do já referido acima.

Sinto assim que ainda há muito por fazer e que temos que acelerar o passo nesse sentido. Temos também de desbloquear a possibilidade deste tipo de necessidades poderem vir a ser respondidas por diferentes vias, incluindo a artística, tal como eu aplico no meu projeto pela formação que tenho nessa área. Tenho ideias para aplicar no meu projeto nesse sentido, à semelhança dos workshops que já anteriormente fiz e certamente voltarei a fazer, mas não tenho garantias de que possa vir a poder aplicar as mesmas pelo simples facto de nem todas as entidades me reconhecerem a capacidade de o poder fazer com a formação e bases que tenho a nível burocrático e pedagógico. Mas sei também que não depende apenas de mim e apoiarei quem quer que seja que faça projetos neste sentido, uma vez que me é claro que esta causa e luta são maiores que eu.

7) Quais as tuas maiores inspirações ou modelos que permeiam o teu trabalho? 

Inicialmente fui buscar inspiração e modelo a diversos canais internacionais que seguia, como o Depression to Expression, os grupos de Setembro Amarelo do Brasil, entre outros. No entanto, à medida que vou fazendo o meu percurso, vou também encontrando a minha própria forma de dar corpo e manifesto à minha voz. A meu ver, nenhuma voz que seja genuinamente pelo bem comum é melhor que a outra, e todas se podem complementar umas às outras. É por isso que este ano também criei a página independente do meu projeto para públicos de língua estrangeira, em inglês (@thesenseofbeing). Nunca sabemos quem vai chegar até nós, quem se vai ligar a nós, que vai ser influenciade por nós e que vidas vamos potencialmente salvar e transformar para melhor. Por isso, eu escolho dar de mim a quem me queira ouvir, da forma mais honesta e humilde que me é possível.

 

8) Sabemos que quando se está a sofrer de uma depressão, é muito difícil encontrar otimismo e esperança no futuro. Que mensagem final gostarias de deixar a quem possa estar a passar por este problema nestes tempos conturbados de pandemia que atualmente vivemos?

Bom, com plena consciência de que já me alonguei imenso nesta entrevista, mas na esperança de ter feito contar cada palavra que nela deixei, que veio diretamente do meu coração para aqui, a última coisa que quero dizer é o seguinte:

Não sei quem és, de onde és, qual a tua história, porque me estás a ler e o que te estou a fazer sentir com as minhas palavras, mas quero que saibas que acredito em ti, no teu potencial, na tua luz, na tua essência e sei que mereces viver. Estarei aqui para te ajudar e apoiar naquilo que estiver ao meu alcance.

Muito obrigada por esta incrível oportunidade, muito obrigada pela disponibilidade e tempo que dedicaram a ler-me. Desejo-vos o melhor.

  [caption id="attachment_3229" align="aligncenter" width="801"] Caracool.Fotografia[/caption]

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