Outubro Rosa: A história de Soraya
27 de outubro de 2026 · 4 min de leitura

Quem foi Soraya? Cantora, compositora, instrumentista, arranjadora e produtora musical, gravou cinco álbuns de originais, venceu múltiplos prémios como o Grammy Latino e foi sempre prestigiada pelos seus pares. Mas ao longo deste texto descobriremos que foi muito mais que isso
A música corria nas veias de Soraya quando aos 5 anos ficou absolutamente fascinada ao ouvir o tio tocar uma canção folk tradicional colombiana "Pueblito viejo".
Nasceu em Nova Jérsia, nos Estados Unidos, filha de pai colombiano e mãe libanesa. Aprendeu a tocar viola sozinha e apresentou-se no Carnergie Hall em Nova Iorque como membro da Youth Philharmonic Symphonic, tocando violino clássico.
Foi a melhor aluna da sua turma no secundário (honra que os norte-americanos chamam de valectorian) e proferiu o discurso de despedida. Começa então a compor as próprias canções.
Na Universidade, Soraya estuda Literatura Inglesa, Filosofia Francesa e Estudos das Mulheres. Começa a tocar em público e percebe que consegue ultrapassar a timidez e cativar quem a vê. No entanto, aos 22 anos perde a mãe depois de uma longa batalha contra o cancro e trabalha como hospedeira de bordo.
Num dos voos conhece um executivo da Polygram que ouve uma das fitas de Soraya e, encantado lhe propõe um contrato discográfico. Surge assim o primeiro disco, com versões em espanhol e em inglês "En esta noche/On nights like this" (1996).
Nesta obra discográfica Soraya surge com leveza, resiliência e esperança mesmo depois de ter lidado com provações enormes como cuidar da mãe quando ela estava doente, assumir todas as responsabilidades da casa e procurar saber mais sobre o cancro e possíveis tratamentos.
No título homónimo “En esta noche” (1996) Soraya retrata a dor de perder a mãe com esta doença, de enfrentar a solidão e levar a vida para a frente. No segundo disco álbum “Torre de marfil” (1997) a artista mostra-se muito entusiasmada por trabalhar com nomes como a compositora Carole King e aborda uma sonoridade mais alegre e eclética. É já durante o lançamento do terceiro trabalho “Cuerpo y alma” (2000), que se preparava para promover intensamente, que descobre um nódulo num autoexame de rotina. Revela-se ser cancro de mama no estádio III.
Soraya submete-se uma mastectomia dupla, reconstrução de mama, radioterapia e quimioterapia.
Soraya lança o álbum que leva o seu nome "Soraya" (2003). Sentia-se saudável e em remissão. A positividade e o amor à vida sempre foram a mensagem principal da artista. Em canções como "Casi", “Razon para creer” ou “Solo por ti" somos incentivados a não nos rendermos perante os obstáculos, amar, lutar, ter fé, seguir maravilhados pela vida e honrar a nossa história e as nossas raízes. De procurarmos escutar o nosso coração e de nunca, nunca perdermos a esperança.
Soraya lançaria mais outro disco "El otro lado de mi", antes de morrer. Na família, para além da própria vida, que Soraya perdeu aos 37 anos, a mãe, avó e tia materna também faleceram com cancro de mama.
Durante os últimos anos da sua vida Soraya foi a primeira porta-voz latina da fundação Susan G. Komen Breast Cancer Foundation. Viajou pelos Estados Unidos e a América Latina para educar as mulheres para a importância do autoexame e diagnóstico precoce. Gravou uma canção “No one else/Por ser quien soy” cujos lucros reverteram na íntegra para a instituição. Também colaborou em angariações de fundos para a comunidade hispânica radicada nos Estados Unidos para a American Cancer Society. O seu legado levou a mudanças na saúde pública na América Latina.
Passagens que me impressionaram na leitura do livro: "Soraya, a life of music, a legacy of hope" (2007)
O quanto Soraya era dedicada, esforçada e intensa em tudo o que fazia. Nos estudos, nos hábitos de vida e nas causas que abraçava. Quando foi diagnosticada com cancro de mama comia de forma saudável e corria vários quilómetros por dia. Um amigo depõe no livro que quando ela já tinha a doença mais adiantada, Soraya plantou um jardim na sua casa digno de ganhar um prémio numa qualquer feira estadual.
Por último, mesmo certamente muito cansada com os tratamentos a que se estava a submeter a visão de Soraya sempre foi algo maior: a saúde de todas as mulheres para que mais nenhuma tivesse de sofrer de cancro de mama. Para além da música maravilhosa que todos podemos escutar, o seu legado é o ter feito sempre o seu melhor, a sua bondade e o seu enorme coração.
Não haveria melhor maneira de fechar este mês do que contar ou relembrar a história de Soraya. Se estão a passar por momentos desafiantes e duros a nível de saúde saibam que não estão sozinhos e que a luz virá ao fundo do túnel.
Extrato da carta que Soraya colocou no seu site oficial no dia 10 de maio horas antes de falecer:
"Sei que há muitas perguntas sem resposta, mas a esperança não me abandona e, acima de tudo, sei que a minha missão não termina com a minha história física. Estou segura de que aquilo que deixo nos vossos corações viverá por toda a eternidade.
A minha história física pode chegar ao fim, mas confio em que a minha existência deixará marcas nas vossas vidas, beneficiando o futuro de muitas mulheres... Hoje não perco esta batalha porque sei que aquilo por que lutei não se perderá.
Com amor,
Soraya"
Paula Cristina Gouveia
