← Voltar ao blogInspiração · Afetos · Bem-estar · Auto cuidado

Quando o entusiasmo dá lugar à deceção

19 de outubro de 2026 · 2 min de leitura

Quando o entusiasmo dá lugar à deceção

Foto de Aleksey Oryshchenko na Unsplash

É uma hora, três dias, uma semana, o tempo que for, em que nos sentimos no topo do mundo, cheios de energia e esperança para o futuro, apenas para sermos derrubados pela maré. Os ideais são virados do avesso face à cruel realidade e desconstruimos tudo aquilo em que acreditámos. Sentimos que errámos, que fomos demasiado dóceis, fracos ou estúpidos. Que nos deixámos ir no canto da sereia e assim fomos arrastados para o fundo das águas.

Mas o que é viver sem correr riscos, sem encher o peito de ar e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para agarrar uma oportunidade mesmo que isso implique abdicar de outras? É cobardia, é viver como cordeiro uma existência inteira em vez de mostrar a coragem de um leão. E sem audácia, sem corrermos atrás dos nossos objetivos a vida perde a graça assim como o mar sem sal não é mar.

A deceção ataca-nos como uma raiva surda, uma vontade de gritar e de calar ao mesmo tempo, para que todo o mundo saiba o quanto fomos enganados e o quanto somos infelizes. Que somos criaturas de nervos frágeis e de sensibilidades raras e não fomos feitas para esperar indefinidamente, para ser colocadas em segundo plano, para ser tratadas como uma possível opção por quem tratámos sempre como prioridade. Por quem nos preocupámos, cuidámos e amámos.

Não faz sentido arrepender-nos, o tempo avança irredutível e não se compadece de dúvidas, de desacertos, de inquietações e de ruminações mentais sobre o que foi e o que poderia ter sido. As coisas são simplesmente como são e às vezes nada funciona. A saúde não colabora, os relacionamentos acabam, o trabalho não anda bem, a ansiedade atormenta-nos por todos os lados e quer fazer de nós suas vítimas. Será que vamos deixar?

Tem de haver algo de mais forte em nós, mais inquebrável, que sorria perante a adversidade, que permaneça quando não há mais lágrimas para chorar e não podemos lamentar mais o rumo da nossa história ou o tempo que perdemos. Não há futuro no passado. Há o luto das coisas que um dia podem ter feito sentido mas já não fazem. Há um espaço que se abre, não porque se esteja vazio, mas porque se depurou, refinou, destralhou do que era apenas barulho mental desnecessário, puro entulho que só nos fazia sofrer.

Pensamos que temos de fazer planos intermináveis, que a vida tem de ser perfeita em tudo e que precisamos de controlar cada coisa que nela acontece. Mas a vida não tem de ser perfeita para valer a pena ser vivida.

Paula Cristina Gouveia

Comentários