Os homens também choram
13 de janeiro de 2021 · 6 min de leitura

Existe uma noção popular que associamos perigosamente como sendo um critério obrigatório de masculinidade e virilidade: a de que os homens têm de ter um controlo perfeito sob as suas emoções, que não podem demonstrar sofrimento de nenhuma forma. Quando falamos em saúde mental nesta sociedade sobrelotada de informação, muitas vezes encaramo-la numa perspetiva dos tão apregoados autocuidados e mesmo que involuntariamente, excluímos os homens desta equação. É sobre isso que vos quero falar nesse artigo, sobre os tabus que ainda rodeiam a saúde mental masculina.
O sofrimento não tem idade nem género. Pode acontecer em qualquer fase da vida, pelos mais variados motivos. Somos muito o fruto da educação que tivemos, que se traduz no tipo de experiências de que usufruímos. Desde cedo, que os homens são ensinados o valor do autocontrole extremo, a não verbalizarem muito do que sentem e pensam. Se fisiologicamente homens e mulheres são diferentes, culturalmente são-nos ensinados papeis sociais igualmente distintos. A noção de masculinidade que um homem internaliza passa muito pela força, por uma autoimagem de poder, de contenção emocional, de eficácia absoluta. Surge-nos o arquétipo do homem silencioso e robusto a todos os níveis, que faz o seu trabalho com o máximo desempenho e produtividade, que é em suma, um especialista a resolver problemas, quer seja na vida profissional ou pessoal.
Admitir que as coisas não estão bem vai contra essas aspirações idealistas do homem comum, fere um dos pilares de identidade que lhe ensinam a aceitar como sendo a sua: a de que vai bastar-se a si mesmo em qualquer circunstância, que tem de aguentar qualquer fardo sozinho, mesmo que de dentes cerrados e no limite das suas reservas de força.
É contra estas ideias que eu queria escrever hoje, não só porque é saudável questionar tudo aquilo que nos veiculam, mas também porque vejo como estas ideologias tão incalculadas na psique dos homens, acabam por se revelar prejudiciais a longo termo para a plena expressão da vasta gama de emoções que os homens podem sentir, que qualquer pessoa sente.
Admitir que se precisa de ajuda é ainda visto como um sinal de fraqueza, o que só vem adensar mais o estigma que rodeia a saúde mental. Não é de admirar pois que casos de depressões, stress generalizado e ansiedade de proporções graves, sejam cada vez mais comuns. O estado padrão do comum dos mortais parece ser do hamster que pedala na roda, permanentemente acelerado. Do que come mal saboreando os alimentos. Do que não tem tempo para parar e pensar na vida pois alega não ter tempo para nada.
Com estes indicadores desanimadores torna-se cada vez mais complexo ajudar-nos uns aos outros, porque o mal-estar interior começa a vulgarizar-se e às vezes só prestamos atenção quando os casos se tornam extremos ou quando, infelizmente, é tarde demais. Cada vez funcionamos menos a nível comunitário e mais a um nível individualista, de quem só pensa no seu bem-estar e não se abre para o mundo.
Reconhecer que se está a atravessar problemas não é um motivo de vergonha, é um ato de lucidez e de coragem, pois nem tudo se consegue resolver sozinho. Existe um provérbio africano, aliás, que diz se quisermos ir depressa, para irmos sozinhos e se quisermos ir longe, para irmos acompanhados. Os laços afetivos são muito importantes e por maior que seja a fadiga que experienciamos, não podemos deixar de querer trabalhar neles, pois podem ser uma componente vital da nossa felicidade.
Para todos os homens que me possam estar a ler neste momento, não faz sentido pensar que um homem não chora. Todos os seres humanos podem sentir dor num momento ou outro e choram quando tem que ser. O maior inimigo numa recuperação mental é sempre a nossa própria cabeça, a mente que como o próprio nome indica, muitas vezes nos engana. A que nos diz que é tarde demais, que vamos falhar sempre, que nem sequer devemos tentar. A ela, devemos contrapor com o que sabemos ser verdade para nós, que não há sucesso que não seja feito de erros, de um processo de descoberta de tentativa-erro, em que se vai à procura de respostas, como uma criança que tateia no escuro. Como tal, deixo algumas dicas para superar os estigmas associados ao sofrimento masculino:
1_ Procure melhorar a sua capacidade de comunicar: Quando estamos a sofrer temos tendência a querer isolar-nos e não falar com ninguém sobre o que estamos a passar. Contrarie essa tendência e procure exteriorizar o que está a viver. Comunicar significa pôr em comum e ao vencer o medo de partilhar o que lhe vai na alma, pode encontrar finalmente a empatia, compreensão e conforto de que tanto necessita.
2_ Não tenha medo das perceções dos outros: Não é de todo inferior ou menos válido como pessoa ao procurar ajuda de um profissional de saúde e/ou em ler artigos como este. O que importa é ter a consciência das características específicas da sua situação, para procurar resolvê-la da forma mais adequada. A Terapia Cognitiva Comportamental, que pode fazer junto de um psicólogo, tem tido altas taxas de sucesso, na medida em que ajuda a reconfigurar crenças negativas enraizadas na mente e transformá-las em pensamentos mais benéficos que lhe permitam seguir em frente.
3_ Não seja cruel consigo próprio: É de senso comum que devemos ser os nossos melhores amigos, mas quando estamos pior e deveríamos ter mais auto compaixão é justamente quando conseguimos ser mais rígidos e duros connosco próprios. Não se julgue impiedosamente nem compare com os feitos dos seus amigos. A relva do vizinho parece frequentemente mais verde que a nossa, quando nem sempre é assim. Lembre-se da criança que foi e fale consigo como se dirigisse a essa criança, com amor e ternura, sem abrir mais feridas no seu interior.
4_ Não sinta que é o único a sofrer: A dor é uma componente universal da existência. Seja por uma perda, dificuldades financeiras ou problemas relacionais: todos sabemos o que é nos sentir defraudados no nosso cerne, lamentar-nos pelo que poderia ter sido e não foi, todos nós já fomos magoados de uma forma ou de outra. Se colocar o seu sofrimento em palavras, tem mais possibilidades de que as pessoas ao seu redor não só se identifiquem consigo e se sintam mais próximas a si, mas também que o possam ajudar.
5_ Cultive a esperança: É um facto oficial que há mais suicídios de homens do que de mulheres, o que mostra que o mito do Super homem, que consegue fazer tudo por si só, deve cair por terra, para construirmos um mundo mais compassivo e mais ajustado à realidade. Todos precisamos uns dos outros para sobreviver e termos bem-estar, alegria e qualidade de vida. Viva um dia de cada vez, alimentando a crença que melhores dias virão, por mais que possa haver evidência em contrário. Devemos escolher o caminho daquilo que nos ilumina por dentro, do que é leve e nos apaixona. E não se esqueça: não é por agora chorar que não voltará a sorrir.
Paula Gouveia
Crédito da foto: https://unsplash.com/photos/uhdsw2Uzsek