O vazio incomoda
9 de maio de 2019 · 1 min de leitura

Buscamos a felicidade com obstinação, sabemos que não podemos desistir, que depois da tempestade vem a bonança e se desenham no céu o sol e o arco-íris. O tempo parece não passar quando estamos em sofrimento, quando somos como cordeiros à espera e não leões que vão à caça, ao ataque, rumo a dias melhores.
Enchemos os nossos dias e casas com objectos, teimamos em manter na nossa vida pessoas que não nos acrescentam, hábitos que nos fazem mal. A alternativa surge-nos tão dolorosa como arrancar um penso rápido com rispidez a uma ferida na carne que ainda sangra.
Tememos muito o nada absoluto, o que se afigura como o vazio porque o vazio incomoda. Por isso é que preferimos o conforto das coisas familiares, mesmo a que não nos fazem felizes. Dizemos a nós mesmos que não temos coragem, que amanhã vamos romper com os vícios, com as pessoas tóxicas da nossa vida ou com as que estão apenas como segundas ou terceiras opções. Mas esse dia nunca chega e sentimos-nos afundar cada vez como que num lodo de infelicidade.
Não percebemos que o vazio é já o que estamos a viver, essa vida sem vida, sem sal, sem verdadeira alegria. Não percebemos que se cortássemos o mal pela raiz, que nos afastássemos do que não nos preenche nem nos realiza, estaríamos a abrir espaço e caminho para nos sentirmos mais livres. E liberdade não é vazio, é andar de mãos dadas com a esperança e acreditar que é possível ter os olhos a brilhar novamente e um sorriso genuíno estampado nos lábios. O que incomoda às vezes está ali para nos ensinar uma lição mas a única maneira de demonstrar que a aprendemos é agradecer e simplesmente seguir em frente.
Paula Gouveia
