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O mundo ao contrário

15 de outubro de 2020 · 3 min de leitura

O mundo ao contrário
 

Este mês traz consigo muitos tópicos que importa debater: a saúde mental (cujo dia mundial se assinalou no dia 10 de Outubro), o cancro de mama (que leva a que este mês seja conhecido também por Outubro Rosa) e o Covid 19, que infelizmente continua na ordem do dia, com números de casos crescentes, tendo sido decretado ontem o estado de calamidade em Portugal. O mundo parece, de facto, estar ao contrário. Falta empatia à maioria dos seus líderes, com os autoritários ignorantes cheios de certezas e a propagandearem informação falsa e os mais sábios cheios de inseguranças, porque têm noção de que todo o conhecimento humano é sempre cheio de imperfeições e de lacunas. Mas questões políticas à parte, todos sabemos que o planeta está a clamar por socorro, não só porque não vivemos de forma sustentável mas também porque não sabemos nos tratar com a compreensão e compaixão necessárias. Daí a importância de movimentos sociais para combater a violência, a desigualdade e o racismo.

Temos tendência a ver-nos no centro de tudo, a tomar as nossas experiências como referência e a julgar e a criticar e o que é diferente. Não nos colocamos no lugar do outro com a frequência que devíamos. Não temos consciência dos nossos privilégios quando nunca fomos discriminados pelo nosso tom de pele ou quando tivemos uma educação oferecida de bandeja. Não sabemos o que é ser uma minoria reprimida, silenciada ou sistematicamente abusada ao longo dos séculos. Se vivemos num mundo que é multicultural porque não buscamos enriquecer a nossa bagagem com histórias que exprimam diferentes perspetivas e dimensões da experiência humana? Porque é que só podemos ser definidos como uma coisa e não como uma amplitude de emoções? As pessoas, por mais felizes que sejam, não serão felizes o tempo todo. Há sempre momentos de dor, raiva, frustração e medo, quando mais não seja pelas variáveis externas que não controlamos. As pessoas, por melhores que sejam, não serão sempre lineares e previsivelmente corretas o tempo todo. Há sempre momentos de dúvidas, de altos e baixos, de erros. Porque errar é a coisa mais humana que existe e ninguém, absolutamente ninguém, é perfeito.

Muitas pessoas definem o contexto atual de pandemia como ter a vida em suspenso. Outros dizem que a vida continua mas construída sobre estruturas diferentes, que se instaurou uma nova normalidade. Mas será este o novo normal que queremos? Em que há exclusão, intolerância, injustiça e egoísmo? Porque não substituímos estes termos tão tristes com o que realmente é desejável, com o que é positivo e nos acrescenta: integração, aceitação, justiça e altruísmo? O amor é feito de demasiadas vertentes para apenas o buscarmos numa só e se dependemos da aprovação dos outros para tomar uma ação, podemos ter de esperar indefinidamente.

O mundo precisa de soluções, respostas baseadas na criatividade, na coerência e sobretudo, no coração. Ele dá-nos tanto e pede-nos tão pouco! Sintonizemo-nos com a Terra, com a vibração da lua, com as ondas do mar, com a luz das estrelas, com o fluxo dos dias, a sucessão das estações, com temperaturas, sons e cheiros. Desliguemos por momentos as televisões, telemóveis e computadores. É altura de respirar fundo e aceder ao que de mais profundo temos. A nossa consciência nos dirá que vale a pena tentar acertar aos coisas. Comecemos por nós. Neste exato momento. A intuição nos dirá o que está certo. Sem ilusões, sem esperar facilitismos ou caminhos sem pedras. Mas trilhando as dificuldades com esperança porque a verdade é doce e ser corajoso é a maior vitória de todas. Quando nos conquistamos a nós próprios, já conquistámos o mundo e já o tornámos um bocadinho melhor.

 

Paula Gouveia

  Imagem retirada de: https://unsplash.com/photos/MK99KzXoHgk

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