O desafio do autoaperfeiçoamento
19 de janeiro de 2021 · 5 min de leitura

Se olharmos o mundo ao nosso redor, decerto que rapidamente encontraremos aspetos que gostaríamos de mudar: as desigualdades sociais, as injustiças, fome, guerras, alterações climáticas e tantos outros problemas que nos afligem e fazem questionar a nossa qualidade de vida num todo e até a nossa própria sobrevivência enquanto espécie. Se nos olharmos ao espelho, com algum distanciamento e espírito crítico, também surgirão naturalmente coisas que gostaríamos de alterar quer seja na nossa fisionomia, na nossa personalidade ou nas nossas interações com as outras pessoas. Afinal, todos somos imperfeitos, obras em construção e suscetíveis de melhorias diárias.
No entanto, há uma diferença entre o desejo positivo de nos auto aperfeiçoarmos, de um modo focado e positivo e o sofrimento psíquico que nos pode trazer não ter o rosto, o corpo ou a vida que idealizámos. Numa sociedade em que nos comparamos constantemente uns aos outros e tentamos corresponder a esses índices aparentes de sucesso, é importante, saber claramente o que nos é inato e inalterável e aquilo que é possível de ser melhorado com o tempo e o esforço.
Estamos quase no fim do mês de Janeiro e algumas pessoas já baixam os braços às resoluções que fizeram de ano novo e têm a sensação desagradável e altamente incómoda de que saíram dos trilhos. É o sentir-se confuso, perdido e no meio do caos completo. Não sou de todo estranha a esses sentimento e com o novo confinamento e o recorde de mortes por Covid 19 a ser batido de dia para dia, não podemos dizer que vivemos o cenário mais animador.
O objetivo não é nos enganarmos com quimeras impossíveis de ser realizadas nem pensar que ser realista equivale a um pessimismo absoluto: é encontrar uma qualquer forma de equilíbrio, que nos permita continuar a tentar, a colocar um pé em frente do outro e a avançar um pouco todos os dias, pois mesmo os mais mínimos progressos se feitos com consistência podem, cumulativamente, levar a grandes concretizações.
Pode ser difícil a batalha contra pensamentos intrusivos que despoletam ansiedade e uma sensação de que não temos controlo sobre nada que nos acontece. Podemos olhar o nosso reflexo no espelho e pensar que não sabemos o que estamos a fazer. Por mais que estejamos preparados para todas as eventualidades, as circunstâncias da vida vão mudando de configuração e a verdade é que temos de nos adaptar a elas o melhor que conseguirmos se não queremos ficar para trás. Por mais que pratiquemos a autodisciplina, vai sempre haver uma componente de imprevisibilidade na nossa vida. Só poderemos exercer controlo até certo ponto, depois temos de saber abrir mão e esperar que os resultados nos sejam benéficos.
Querer ser melhor diariamente é um desafio porque haverão sempre dias em que as coisas fluem melhor do que noutros, não somos uma reta que ascende sempre, a vida, tal como o bater do nosso coração, é feita de altos e baixos. Mas não significa que devemos deixar de lutar, colocar-nos no papel de vítima, de quem acredita que está tudo pré-determinado, que nada faz sentido e que tem mais fé em jogos de sorte ou azar do que nas suas próprias capacidades de virar a mesa. Nem sempre vamos ter as cartas ideais, nem sempre o baralho da vida nos vai dar o que nos necessitávamos. Vai haver momentos em que seguramente sentiremos que o nosso jogo é fraco. Porém, tal não deve fazer com que queiramos abandonar a jogada em que nos é dada a oportunidade de participar. Viver, em si mesmo, é ter um trunfo de ouro e cada dia deverá ser um evento especial, em que devemos valorizar cada segundo que respiramos e tentar desperdiçar o mínimo de tempo possível.
Ter ambição, metas e sonhos é essencial para que nos possamos orientar em qualquer altura, balizar as nossas atitudes e comportamentos, tendo um padrão referencial do nível onde estamos e que queremos um dia atingir. É algo que nos deve entusiasmar, estimular e motivar a querer saltar da cama todas as manhãs com um sorriso no rosto e com a alma pronta a abraçar o dia e a enfrentar qualquer obstáculo com determinação e coragem.
E no entanto, há elementos que devemos aceitar, de forma compassiva e gentil, dizendo a nós mesmos que esses defeitos inalteráveis são o que fazem de nós quem somos e podem ser o que nos torna únicos e inimitáveis, o que nos dá um encanto particular. É importante ter muito cuidado com esse diálogo interno, com aquilo em que escolhemos acreditar. Esta aceitação profunda do nosso modo de ser e das variáveis que não podemos mudar, não deve ser confundida com conformismo que não exige o mínimo esforço. O amor-próprio é revolucionário mas exige um trabalho contínuo sobre si mesmo. Não é desistir, é compreender de forma pacífica e lúcida. Não é comodismo, não é dizer que não antes de tentar, é estar consciente dos próprios limites, valores que funcionam como diretrizes e mapas interiores, das fronteiras pessoais e profissionais.
Como tal, é sempre preciso haver um delicado equilíbrio entre o que se dá e o que se recebe, entre o que se aceita e o que se tenta mudar. Quando não estamos em harmonia, vemos a realidade com óculos bem escuros, tudo nos parece mau, não gostamos de nada em nós, a nossa vida parece entediante ou miserável, o mundo um lugar inóspito e cruel. É só quando encontramos a nossa voz, com autenticidade e capacidade de ter perspetiva, que começamos a mover os dados do jogo ao nosso favor. Começamos a ver o lado de bom de qualquer situação, a prestar mais atenção aos ensinamentos de cada dia, a ver que foi nos momentos que nos sentimos à beira do abismo que mais crescemos enquanto pessoas.
Não devemos sentir que os tropeços e derrotas nos definem. O que nos define é a capacidade de levantar depois de uma queda, de insistir depois de um fracasso, de voltar a sorrir depois de chorar, de voltar a acreditar depois de vermos as nossas esperanças serem destruídas. O que nos define é a capacidade de continuarmos aqui, a tentar ser, não melhores que ninguém, mais uma versão aperfeiçoada de nós mesmos.
Paula Gouveia
Créditos da foto: https://unsplash.com/photos/vcD34kOLwJQ