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Não há relação direta entre doença mental grave e violência

31 de agosto de 2026 · 2 min de leitura

Não há relação direta entre doença mental grave e violência

Foto de Artur Adilkhanian na Unsplash

Escolhi falar sobre as minhas anteriores crises de mania na newsletter deste mês por causa das notícias recentes que associam doença bipolar à criminalidade. Nem todas as pessoas com doenças mentais ouvem vozes, têm visões, alucinações, maus instintos, intenções perversas ou acabam por matar alguém. Isso é algo socialmente construído.

De acordo com o The Council of State Governments Justice Center não há uma relação direta entre saúde mental grave e violência. De facto, apenas cerca de 3% a 5% de todos os crimes violentos são atribuídos a indivíduos com uma doença mental severa.

A maioria da violência deve-se ao abuso de substâncias, histórico na criminalidade e fatores de stress sociais (como ser sem abrigo ou instabilidade familiar) em vez de apenas mero diagnóstico de doença psiquiátrica.

As pessoas com uma doença mental grave têm dez vezes mais probabilidade de serem vítimas de um crime violento do que o cometerem. Indivíduos com depressão, doença bipolar ou perturbação de personalidade borderline causam tendencialmente mais danos a si mesmos do que aos outros.

Só quando se fala de abuso de substância ou de perturbação de personalidades antissociais é que as taxas de comportamento violento aumentam.

É importante analisar os factos baseados o mais possível em dados fidedignos e não em crenças, preconceitos e estigmas. A natureza da criminalidade é muito complexa mas as pessoas com doenças mentais, quando tratadas, não são mais perigosas que o público em geral. Pelo contrário, a maioria delas são pessoas que carregam histórias de abuso e de trauma, e não são preparadores de atos violentos.

Quais as razões que podem levar alguém a cometer violência? Em tempos de crise pode gerar-se baixíssima tolerância à frustração e muito stress e isso é verdade para quem tenha uma doença mental diagnosticada ou necessidade de começar a ser acompanhado nesse campo. Em segundo lugar, alucinações em que lhe dão ordens violentas (como no caso da esquizofrenia) e que se sente que tem de obedecer e em terceiro lugar, abuso de substâncias que podem causar agitação, estimulação, intoxicação e, por último, a agir de forma violenta.

Na doença mental grave encontram-se muitas vezes falta de recursos e de oportunidades, abuso de substâncias não tratado, que podem facilmente formar vieses numa pesquisa científica. Mas todos somos mais que um diagnóstico.

Desmistificar a imagem da doença mental é mais do que necessário, não porque já não existam perigos reais dos quais nos defendermos, mas porque o nosso conhecimento das verdadeiras ameaças é que nos trará maior proteção ao final do dia.

Paula Cristina Gouveia

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