José Ortega y Gasset "Eu sou eu e a minha circunstância..."
4 de novembro de 2026 · 3 min de leitura

José Ortega y Gasset nasceu na capital de Espanha, Madrid, no dia 9 de maio de 1883 no seio de alta burguesia. Os pais eram ambos fortemente ligados ao jornalismo e os debates intelectuais foram formativos para o futuro filósofo que iria proferir a célebre frase:
"Eu sou eu e a minha circunstância, e se não me salvo a ela, não me salvo a mim"
Vamos analisar esta expressão. Primeiro que tudo há condicionalismos: nascer numa determinada família, condição sócio-económica, tempo histórico e local. Ao mesmo que atuamos sobre o mundo somos afetados por ele.
Em segundo lugar, a realidade radical e concreta onde a pessoa lida com as coisas que a rodeiam desde o seu corpo à sociedade. Esta é a vida humana em tudo o que tem de mais prático e mais simples e de mais incomum e complexo.
Como se pode encontrar salvação neste quadro? Procurando enfrentar os maus acontecimentos, resolver problemas e encontrar um sentido no mundo em redor. Procurando realizar todo o seu potencial. O Homem tem de perseguir o autoconhecimento e a interação com os seus semelhantes.
Em último lugar, mas não menos importante a vida é uma tarefa, ter que decidir continuamente o que vamos fazer a seguir, não só a nível de ação interna mas externa. Há uma relação dinâmica, carnal e viva entre o sujeito (o eu) e o objeto (o chamado mundo/circunstância). Por não defender um racionalismo demasiado frio e rígido e por sempre ter em atenção esta vivacidade estabelecida entre os elementos acima mencionados Ortega y Gasset é o pai do conceito rácio-vitalismo.
Em que contexto foi proferida esta citação?
Vamos recuar um pouco para perceber a jornada pessoal e académica de Ortega y Gasset. Estudou num Colégio de Jesuítas, licenciou-se em Filosofia e Letras (Universidade Central de Madrid, 1902) e acabou o doutoramento dois anos depois com apenas 21 anos. Fez formação na Alemanha onde aprendeu a ter um pensamento mais rigoroso, sistemático e profundo. De volta em solo castelhano é escolhido para professor catedrático de Metafísica, em 1910, uma cadeira de muito relevo na altura. Em 1914, Gasset publica "Meditações do Quixote" (Meditaciones del Quijote no original) , com 31 anos, onde se inclui esta frase que o imortalizaria.
De que trata este livro?
Gasset inspira-se e parte do clássico de literatura universal "D. Quixote de la Mancha" de Miguel de Cervantes para falar de alguém que vive desligado das suas circunstâncias. A personagem é um símbolo do ser humano que ignora a sua realidade imediata e se ilude quimericamente. Face à crise que Espanha vivia na época, a solução era olhar em frente e não ter nostalgia dos grandes feitos de outrora. O leitor pode ver-se refletido filosoficamente e questionar-se até que ponto é dominado pela imaginação e ideais abstratos ou pelas demandas imediatas da realidade.
A passagem por Portugal
Ortega y Gasset exilou-se em 1936 com a eclosão da Guerra Civil de Espanha (1936-1939) e o fascismo de Francisco Franco que ocupava o poder. Passou por França, Holanda e Argentina. Nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial, entre 1942 e 1945, escolhe Portugal para viver, habitando na zona de Cascais. Foi prolífico na escrita e em dar palestras e tomou contacto com figuras de vulto como António Sérgio, Vitorino Nemésio e João Gaspar Simões.
Regressa à Espanha, com o final do segundo conflito mundial, ainda na ditadura de Franco que vigia a sua atividade pública. Em 1948 funda o Instituto de Humanidades em Madrid, de caráter privado, e trabalha intensamente na consolidação da sua Filosofia.
Morreu a 18 de outubro de 1955, vítima de cancro gástrico, aos 72 anos de idade.
Paula Cristina Gouveia
