Felicidade ou Conforto? Uma confusão concetual
21 de maio de 2019 · 4 min de leitura

Ninguém terá dúvidas de que a felicidade é um estado de quem se sente bem. Bem consigo mesmo, com vontade de viver a sua própria vida, portanto, é alguém que está motivado (a).
Mas será que é possível ser-se feliz para sempre? Tendencialmente a maioria das pessoas afirma que não, pois consideram que não é um estado permanente, apenas momentâneo. Quando as pessoas falam assim penso que estão a referir-se ao conforto, à diversão ou mesmo à ausência de dor. Ora a felicidade não é conforto, não é diversão ou ausência de estados emocionais. A felicidade implica bem-estar emocional e paz interior (conceitos nem sempre fáceis de concretizar) que implicam abertura à experiência, genuína entrega e persistência. Por outras palavras ser feliz, dá muitíssimo trabalho! Já a infelicidade apresenta um padrão que é possível ser quebrado, competindo a cada um (a) a livre escolha na estratégia a implementar. Mas atenção, nem sempre os recursos individuais estão acessíveis ou disponíveis, por variados motivos, e aí aconselho a quebra da “timidez” ou “avareza” no pedido de ajuda. Para e pelo seu próprio bem!
Existem algumas conceções erradas, muito comuns, sobre esta temática da Felicidade. A principal é a ideia de que, se tivermos muito conforto somos mais felizes. Isso não é de todo verdade, pois observo e ouço pessoas que têm aparentemente tudo (conforto e objetos) e permanecem infelizes. O meu convite será mais no sentido de uma reflexão, acerca do que, realmente nos faz falta (Porque é que precisamos?). Outras vezes, as pessoas confundem a felicidade com os momentos de diversão. Se eu acredito que a minha felicidade é estar sempre contente ou a divertir-me, então vou perceber que aqui também há impermanência. Por outro lado, existe ainda quem considere que a felicidade é a ausência de emoções negativas. Ora isso, não é possível! Uma emoção - como a tristeza, a raiva ou o medo — fazem parte da nossa existência e experiência de vida. Existe a este propósito uma espécie de precipitação que nos “empurra” para uma procura rápida de soluções “mágicas”, que em nada nos ajudam, pois corre-se o sério risco de “provar” o efeito reverso! As emoções são extremamente úteis se as considerarmos como dados (porque possuem informação) passíveis de serem trabalhadas, e não diretivas (um caminho a seguir). Tornar-se num (a) “especialista da felicidade”é perigoso e altamente disfuncional porque o desconforto é o preço a pagar para uma vida, com mais e melhor sentido!
Quando me perguntam quais os motivos que podem estar por trás da infelicidade lembro-me de alguns; O primeiro é a saúde física - as pessoas são mais felizes se tiverem uma boa saúde. Se o corpo que possuem estiver e for saudável (a dor e a doença estão na base da infelicidade). O segundo é a paz interior - só quem realmente se sente em paz, é que consegue ser feliz (quem se sente bem com os seus próprios pensamentos e comportamentos). Quando as pessoas vivenciam conflitos emocionais, cognitivos ou comportamentais correm um maior risco de desenvolver sintomatologia física e/ou psicológica. O terceiro é que as pessoas têm de se habituar a criar objetivos (específicos, mensuráveis, atingíveis, realistas e temporais) - precisamos de ter bem presente, porque é que, realmente vale a pena viver a vida. Cada um de nós tem de perceber qual o seu propósito de vida. Quem não tem os objetivos bem definidos (não tem justificação para fazer nada) facilmente pode cair na procrastinação ou mesmo depressão. Não se é feliz no seu próprio estado de desmotivação! O quarto consiste em perceber o caminho - só quem percebe a vida que realmente tem ou pretende ter, é que consegue ser feliz e por isso é extremamente importante assumir compromissos. O quinto é o amor próprio - nós precisamos de amor e, normalmente a tendência é procurar nos outros (as). Só que por vezes, esses outros (as) podem não estar disponíveis para nos amar como gostaríamos ou não nos respeitam como realmente precisamos. Cultivar uma postura auto-compassiva, bondosa/amorosa e generosa para com nós mesmos (as), é fundamental independentemente da existência do (a) outro (a). Por último, só conseguimos ser felizes se comunicarmos assertivamente com os (as) demais. O ser humano é um animal social, que precisa de conviver e estar em sociedade. Se tivermos dificuldades nesta área, podem-se criar muitas resistências (através da negação ou evitamento) e dor emocional.
Ser um (a) bom (a) líder do seu próprio bem-estar implica esforço individual e vontade própria, mas também, do caminho que cada um (a) estará disposto (a) a percorrer, mas sem… DESATENÇÃO!
Joana Cordeiro Dias
Psicóloga Clínica e da Saúde, Psicoterapeuta

