Fases difíceis
13 de agosto de 2020 · 3 min de leitura

A vida consegue ser muito amarga quando menos esperamos, enchendo-nos de uma tristeza que nem sabemos bem definir. Algo tão simples como um comando de televisão estragado pode fazer-nos entrar numa órbita de stress e ansiedade até conseguirmos resolver a situação. Geram-se fases difíceis que podem durar dias, semanas, meses ou mesmo anos e ter ou não uma causa directa com os eventos que acontecem na vida.
Para conseguir superar estas dificuldades tudo começa pela postura e atitude que escolhe adoptar. As contrariedades podem continuar a acontecer mas se fizer por encarar as experiências da vida como algo didáctico, que lhe vai sempre ensinar algo ou trazer algo positivo, as coisas começam lentamente a mudar e é exactamente essa mudança que se pretende.
Comece por reconhecer as suas sensações, pensamentos, sentimentos, todo o material de que é feita a sua psique a que pode aceder, desde o aparentemente mais superficial ao mais complexo. Dê espaço para sentir essa dor, esse luto, esse vazio, o que quer que invada a sua mente, sem julgar ou censurar. Depois é altura de reconhecer aqueles pensamentos ruminantes e circulares que lhe estão a infligir sofrimento, a torturar o seu interior e tentar de alguma forma fazer as pazes com eles, entendê-los até os conseguir relegar para segundo plano.
Não tenha medo de procurar o conforto de pessoas próximas, que sejam compassivas e compreensivas. A saúde mental não é um luxo supérfluo, é um bem de primeira necessidade, pois se não estivermos em condição funcional, podemos entrar numa espiral descendente, que apenas se vai agravar com o tempo, pondo em risco o nosso bem-estar e mesmo todos os pilares da nossa vida. Não hesite também em pedir ajuda profissional, se se revelar necessário, não tem de sentir vergonha de o fazer nem de suportar sozinha fardos que lhe são demasiado pesados. Há sempre alguém para ouvir, para amparar, para oferecer um ombro amigo.
Lentamente vai começar a entrar na fase seguinte que pode parecer como uma espécie de limbo ou purgatório mas é na verdade a transição que vai permitir que se reinvente. Vai continuar a ter alguns dias maus, pensamentos que lhe causam nervosismo ou auto-recriminação mas já se conseguirá ancorar em algumas certezas, algumas questões começam a ser respondidas, vê-se já alguma luz ao fundo do túnel e aos poucos começa a haver de novo atividades prazerosas e gratificantes. Se antes nos sentíamos engessados pela tristeza, agora permitimos-nos sentir alguma alegria e dançar ao ritmo da música da vida.
Por último, a última receita para superar as fases difíceis é aceitar os nossos erros e limitações, acreditar que tudo tem um propósito maior e que apesar de sermos falíveis nos devemos amar exatamente pelo que somos. Não temos de fingir nada para que os outros gostem de nós, nunca iremos agradar a toda a gente, pelo que o que importa realmente é sermos autênticos e nos sentirmos de consciência tranquila quando deitamos a cabeça na almofada para dormir. Ao fechar os olhos para mais uma noite de sono, que estejamos tranquilos sabendo que fizemos o melhor que podemos, um melhor que vai variar segundo determinados fatores mas que vem de dentro de nós, de um lugar puro, do cruzamento entre a nossa razão e o nosso coração.
Paula Gouveia
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