Entrevista a Sergi March "As identidades apareceram para que eu pudesse continuar a viver"
15 de janeiro de 2026 · 8 min de leitura

Sergi March é um homem espanhol com 41 anos de idade diagnosticado com TID (Transtorno Dissociativo de Identidade), antigo Transtorno de Personalidade Múltipla, que tenta alertar os outros para esta condição e faz ativismo pela saúde mental em todas as suas dimensões.
1. Sergi, a sua infância foi marcada por abuso sexual, maus tratos continuados e violência familiar. Desenvolveu as múltiplas identidades (alters) como uma forma de compartimentar acontecimentos com os quais não sabia lidar e poder sobreviver, não só física, mas também emocionalmente. Sente que isso o protegeu de alguma forma de tanto sofrimento e impotência pelo qual estava a passar?"Não foi uma loucura nem uma falha, foi uma reação lógica a algo que nenhum menino deveria viver"
Sim… sem dúvida nenhuma. Se a minha cabeça não tivesse feito isso, eu não poderia ter continuado. Não foi algo consciente, claro, foi uma resposta automática de proteger-me quando não havia ninguém mais que pudesse fazê-lo.
As identidades apareceram para que eu pudesse continuar a viver enquanto outras partes ficavam com o que doía, com o que dava medo. E visto em perspetiva, foi a única maneira que teve a minha mente de salvar-me.
Hoje tenho de trabalhar com as consequências de tudo, mas também tenho muito claro que não foi uma loucura nem uma falha, foi uma reação lógica a algo que nenhum menino deveria viver. Assim que sim, protegeu-me… e provavelmente salvou-me a vida.
2. Depois de diagnósticos errados, como doença bipolar, teve finalmente o diagnóstico correto e descobriu que tinha 14 identidades adultas e 3 infantis. O que é que isto significou para si e para os seus entes queridos? Senti muito medo, mas também pensei que por fim muita gente que me atacava ia entender o que me acontecia. Acreditei que o diagnóstico ia trazer compreensão e infelizmente, para certas pessoas, não foi assim. Além do mais, no meu caso há amnesia dissociativa e isso faz que não recorde nada antes de 12 de junho de 2024, salvo alguns factos traumáticos muito concretos. Entender isto também me ajudou a compreender porquê não me lembrava de muitas coisas que me diziam ou inclusive certos espaços horários de dias inteiros. Foi como dar sentido a lacunas que antes me desconcertavam. E para as pessoas próximas foi um processo de aprendizagem, de adaptar-se e de entender que isto não é sobre mentiras nem inventar nada ou chamar a atenção, é sobre uma pessoa que teve de dividir-se para poder sobreviver e agora tenta recompor-se como pode. 3. O Sergi diz que a dissociação pode começar com dores de cabeça e durar horas ou um dia inteiro, provocada por ruídos ou outros estímulos. Também falou de ter flashbacks horríveis durante o sono, em que o cérebro e o corpo estão desconectados. As experiências dolorosas têm a sua maneira de persistir? Sim, as experiências dolorosas têm a sua maneira de persistir. A dissociação pode começar de formas que parecem pequenas como uma dor de cabeça e logo estender-se durante horas ou inclusivamente todo o dia, sobretudo se há ruídos ou estímulos que me sobrecarregam. Durante o sono, os flashbacks também são horríveis: o cérebro e o corpo desconectam-se e mesmo que não estejas “consciente” no momento, o corpo recorda e sofre. Tudo isto deixa marcas, mas também me ensinou muito sobre como funciona a minha mente e os meus limites. Não é algo que se possa apagar, mas pode-se sim aprender a viver com isso, entendê-lo e trabalhar para que não controle todo o meu dia-a-dia.4. Ver a vida como um espetador, como na despersonalização ou distanciamento de um ambiente externo (desrealização) são experiências que lhe acontecem. Estão associadas com a dissociação? Em que medida crê que o TID está retratado de forma estereotipada nos filmes de Hollywood? (pessoa que pode ter várias identidades, lapsos de memória e confusão sobre eventos pessoais entre estas, mas sempre com um laivo de maldade, de querer prejudicar alguém). Sim… a despersonalização faz parte da dissociação. Há momentos em que sinto que estou a viver a vida como um espectador. Como se tudo estivesse a acontecer através de uma tela e eu não estivesse completamente dentro do meu corpo. Não significa que eu seja louco nem que queira fazer dano a ninguém. É a minha mente a buscar a forma de sobreviver ao stress e ao trauma. Isso é tudo. E Hollywood… uff, Hollywoood faz tudo mal. Mostra-nos sempre pessoas perigosas. Com lapsos de memória que levam ao crime, que manipulam os outros… Isso não é a realidade. Ter múltiplas identidades ou confusão sobre memórias não tem nada a ver com fazer mal. É apenas um mecanismo de sobrevivência. O que importa de verdade é mostrar como alguém com TID vive, luta e se reconstrói a cada dia, sem morbilidade, sem dramatização. É isso que realmente acontece. 5. O que significam regulação emocional e segurança para si hoje e para a sua criança interior? Hoje tento controlar as minhas emoções e não me deixar que elas me dominem, embora nem sempre consiga. A segurança, para mim, significa sentir-me um pouco mais tranquilo comigo mesmo, apesar de, todavia haver momentos em que não o consigo de todo. Estou aprendendo, passo a passo, e alguns dias são mais fáceis do que outros. Não é uma jornada concluída, nem tenho todas as respostas, mas cada pequeno passo adiante me ajuda a sentir que posso continuar. 6. Tem tentado de alguma maneira falar a essa criança e dizer-lhe que está tudo bem, que ela caminhou sobre o fogo e completou a travessia até ao outro lado? Sim, estou a começar a aprender a fazer isso com a ajuda da minha psicóloga, a reconhecer tudo o que passei e a dizer-me que estou bem, que sobrevivi a coisas muito difíceis e que posso seguir em frente. Mas, sendo honesto, não sei fazer como fazê-lo completamente, não é algo que tenha controlado. É um processo e cada pequeno avanço me lembra que posso seguir caminhando, passo a passo, até sentir-me um pouco mais tranquilo comigo mesmo."Ter múltiplas identidades ou confusão sobre memórias não tem nada a ver com fazer mal. É apenas um mecanismo de sobrevivência".
7. O Sergi lamentava-se do tempo perdido até ter o diagnostico certo, pois só se lembra de forma consistente da sua vida no último ano e meio. Vê os 41 anos como correr atrás do prejuízo ou como uma espécie de Renascimento? Tenho 41 anos e ao viver com amnesia dissociativa às vezes sinto que estou a viver a vida de outros no lugar da minha. Há lacunas, memórias que não tenho, e isso as vezes dá-me uma sensação estranha de desconexão. Mas ao mesmo tempo sei que quero construir a minha própria vida, passo a passo, aprender a estar comigo mesmo e aproveitar cada momento que posso recordar. É um caminho lento, mas estou decidido a caminhá-lo e a fazê-lo meu. 8. O Sergi teve uma vida mentalmente fragmentada e que pode ter sido muito confusa em determinados momentos, mas que não deixa de ser grande, rica e interessante. Sente que as suas diferentes entidades vão continuar a existir independentemente da sua vontade, ou podem tornar-se mais uniformes com um trabalho de integração, nomeadamente psicoterapia? Não procuro que as identidades se integrem nem desapareçam: o que quero é ser funcional, viver com ordem e poder gerir o meu dia-a-dia sem que nada me bloqueie. Com a ajuda da psicoterapia estou a aprender a coordenar-me comigo mesmo e com as minhas distintas partes, e a minha psicóloga disse-me que temos que ser como um exército, e eu ser o de maior patente. Isto significa que eu decido, traço o rumo e todos os outros cooperam para que tudo funcione. Não se trata de excluir nada, mas de fazer que tudo funcione para mim, passo a passo, com controlo e ordem."É um caminho lento, mas estou decidido a caminhá-lo e a fazê-lo meu".
9. Uma rede de apoio e afeto é essencial para manter a saúde mental e melhorar e isso o Sergi já tem. A ignorância da sociedade que põe preconceitos e rótulos sem conhecer é o mais difícil de mudar. Quais são as alturas em que se sente mais compreendido, escutado com empatia e validado no mundo? Sinto-me mais compreendido, escutado e validado quando estou com a Xandra, que é a minha companheira e o meu apoio mais próximo na vida diária. Ela conhece as minhas outras identidades muito melhor que eu e isso dá-me tranquilidade e força porque posso confiar que não estou sozinho e que alguém realmente me entende. Também me sinto validado quando posso falar de TID e amnésia dissociativa com pessoas que escutam de verdade, que querem entender e não julgam. Esses momentos lembram-me que a minha experiência é real e legítima. O mais difícil continua a ser a ignorância da sociedade e os preconceitos que existem à minha volta. Há gente demasiado próxima que me invalida, que nega a minha experiência ou quer dar a impressão como se não existisse, e isso doi e complica as coisas. Ter a Xandra e àqueles que realmente me escutam permite-me seguir em frente, resistir e construir a minha vida segundo as minhas próprias regras, passo a passo, pese a ignorância e os preconceitos dos outros. 10. Quais são os seus maiores desejos para 2026? Para 2026 o meu maior desejo é seguir ganhando estabilidade e ordem na minha vida, poder gerir o meu dia-a-dia com mais calma e funcionalidade. Também quero seguir avançando na terapia, aprendendo a cuidar-me e a entender-me melhor, embora eu saiba que é um processo longo. E sobretudo, desejo poder continuar a construir a minha vida com a Xandra e, ao mesmo tempo, ajudar as pessoas a compreender o TID e a amnesia dissociativa para que saibam que a nossa experiência é real e que se pode viver com ela, passo a passo."A minha experiência é real e legítima"
Paula Cristina Gouveia
Tradução do espanhol pela própria
