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Entrevista a Maria Vegas "Reconectarmo-nos connosco próprios não se faz num salto, mas sim em vários"

21 de novembro de 2025 · 11 min de leitura

Entrevista a Maria Vegas "Reconectarmo-nos connosco próprios não se faz num salto, mas sim em vários"
 

Maria Vegas é uma cantora e compositora portuguesa que lançou no ano passado o disco de estreia em inglês, "Reconnecting", que já tem uma versão ao vivo "Reconnecting LIVE". Bem disposta, sagaz, criativa e a mostrar que não há nada a temer para as mulheres acima dos quarenta, fomos falar com a Maria sobre o processo de criação deste disco, sobre os maiores desafios que já enfrentou e, no fundo, sobre a sua filosofia de vida.

 

"Tenho uma ligação com o mar de deslumbramento e medo, um pouco como tenho com o desconhecido"

  1. O seu disco de estreia “Reconnecting” abre com a canção “Ocean”. Como é a sua ligação ao mar e porque decidiu abrir o trabalho com esse conceito?

MV - Procuro sempre no mar a paz à minha inquietude. Neste meu primeiro “mergulho” oficial no mundo da música onde me reconecto com o meu ser e conto histórias muito pessoais não fazia sentido não abrir a porta no lugar onde me sinto mais conectada, longe de todas as distrações. Tenho uma ligação com o mar de deslumbramento e medo, um pouco como tenho com o desconhecido (e todos os seres humanos acho eu). E às vezes a mudança é isso mesmo, saltar para o abismo mesmo sem sabermos o que vamos encontrar. “Ocean” foi também o primeiro tema que o Paulo Furtado (The Legendary Tigerman), o produtor deste álbum, me entregou para escutar. Foi uma das melhores sensações do mundo ouvir uma das minhas canções, que escrevo e componho na minha guitarra, pintada pela estética cinematográfica e sonhadora que o Paulo leu em mim.

  2. É uma pessoa muito versátil: desde ser solista nos Pequenos Cantores da Maia, à pintura, Design de Moda a criar uma marca de calçado (MyPitangas) e agora um álbum musical. Diria que criar é um verbo que a define? MV - Como dizia a Coco Chanel “para mim criar é uma necessidade tão básica como respirar”. E é isso mesmo que sinto, se tenho momentos na minha vida em que deixo de criar por algum razão, fico sem ar, passo mal :) Então, é muito difícil passar pela vida sem o fazer. Vejo estética e construção em tudo à vinha volta, é um exercício espontâneo que me faz passar pelos dias com mais propósito e sentido.   3. Classifica a sua música de retro indie cinematográfica. Há quem veja influências de David Lynch na estética e de Nancy Sinatra ou Lana del Rey na sua voz. Era sua intenção criar uma atmosfera sonora onírica em que sua interpretação soa como uma verdade tão sincera, quase trovadoresca? MV - Isso é uma maneira muito bonita de descrever a minha forma de estar na música, diria também que quase trovadora :) Sim, eu também vejo essas influências e muitas outras. Somos feitos de histórias e de memórias que colecionamos ao longo da vida e elas naturalmente refletem-se na nossa obra. Essa “classificação” retro-indie-cinematográfica nasceu de uma brincadeira quando conversava sobre a comunicação do meu álbum e alguém no grupo de trabalho me disse que incontornavelmente me iriam questionar em que género que encaixo. Ora, indie assumidamente que sou porque este projeto é uma produção independente, fui apoiada pelo Fundo Cultural da SPA ao qual me candidatei, mas sou dona dos meus desígnios porque não tenho editora e fiz com que este sonho acontecesse pelas minhas próprias mãos; retro porque me considero antiga, pelos anos de histórias boas que tenho para contar e das influências que guardo; cinematográfica porque a estética da produção levou-nos para esse lugar das bandas sonoras onde o Paulo navega com mestria. Mas para ser muito sincera, quem tem a ousadia de lançar o seu primeiro álbum aos 43 anos pode catalogá-lo como quiser!  

"Não descuido a minha saúde mental e levo muito a sério os desafios mentais. Faço psicoterapia “de manutenção” e às vezes em modo “gestão de crise.”

  4. A Maria tem um negócio de venda de porco preto alentejano (Laborela) e chegou a fazer mil quilómetros por dia para ir ao encontro de todos os clientes. Alguma vez se sentiu em burnout ou num chamado ponto de rutura? MV - Se acrescentarmos a isso, que sou mãe de dois, logo não durmo descansada desde 2011, temos o cenário perfeito para estar sempre perto do ponto de rotura! Sem dúvida que hoje em dia acumulamos esforços e funções numa corrida desenfreada para não sei bem o quê. O mundo tem nos provado nos últimos tempos que é cada vez mais urgente repensarmos a nossa forma de estar sempre que nos obriga a parar e ficamos reféns de não saber estar sem o barulho da humanidade. Tenho feito isso com muito respeito, mas a verdade é que faço aquilo que gosto e pelo facto de ter sido (quase) sempre patroa de mim próprio obrigou-me a desenvolver uma auto-disciplina de saber quando devo parar, ou abrandar, para que tudo valha a pena. No entanto, não descuido a minha saúde mental e levo muito a sério os desafios mentais, tenho sempre muitas coisas a acontecer, muitas responsabilidades, e preciso estar bem e às vezes não estou. Faço psicoterapia “de manutenção” e às vezes em modo “gestão de crise”. Os dias seriam mais difíceis sem este apoio.   5. De que maneira ser mãe de duas crianças mudou a sua forma de ver a vida e moldou a mulher que quer ser no futuro? MV - A forma de ver a vida não mudou. O que mudou foi o sentido de legado e responsabilidade. Enquanto antes preocupava-me em deixar uma boa marca na vida dos que estão e passam pela minha vida, agora preocupo-me em deixar bons seres humanos para o mundo. Não vou negar que ando com muito pouca fé na humanidade e temo pelos meus filhos, pelo futuro. Sei que lhes passo bons valores e que lhes nutro a força de pensarem pelas suas próprias cabeças, mas tenho muito medo dos fenómenos de massas e do quão frágil é aquilo que achamos como garantido. Principalmente a liberdade. Ser mãe não me mudou enquanto mulher, acrescentou-se. Nós já nascemos programadas mães, mesmo as que nunca serão. Está na história das nossas células parirmos a humanidade!   6. A Maria teve uma embolia pulmonar e uma trombose venosa profunda. Como vê agora em retrospectiva esses tempos certamente angustiantes? Cuida mais de si agora do que no passado? MV - Não gosto de olhar para esse lugar… tive muito medo que os meus filhos ficassem sem mãe. Tive um ano a reaprender a respirar e sofri de síndrome do medo de morrer, o que não ajudou muito no processo de recuperação inicialmente. Hoje tenho de ter algumas precauções porque depois de se passar por este cenário clínico fica-se com uma predisposição muito elevado para o voltar a ter. Mas hoje vivo com tranquilidade, até porque sei que o que me aconteceu não foi obra do acaso e não tenho nenhum desafio genético, eu tive a TEP e a TVP fruto de uma contusão pulmonar. Sofri um trauma no pulmão e tive muitas semanas uma mancha de sangue no pulmão que fez posteriormente desenvolver os coágulos. Mas este, é outro lugar onde não gosto de voltar…  

"Mas como em tudo o importante é mesmo não desistir. Não queria que outros autores escrevessem para mim nesta fase, eu tenho muitas coisas para dizer"

  7. Na pandemia decide voltar ao amor antigo da música, depois de ser incentivada por um amigo. Compra uma viola e começa logo a dedilhar os primeiros acordes. A necessidade de se exprimir desta forma aguçou o engenho?   MV - Sem dúvida! E adoro esse provérbio. Aliás, adoro provérbios (sou antiga, já referi). Tinha algumas bases. Aprendi a desenrascar-me ainda miúda, com um amigo da escola, que me ensinou os primeiros acordes, hoje é um grande guitarrista e já tocou comigo. Mas a necessidade de desenvolver um pouco essa habilidade veio do formato que eu encontrei para compor. Eu só consigo ser poética a escrever canções em inglês, se as estiver a musicar dedilhando na minha guitarra! Escrevo facilmente em português, em castelhano, e sai-me poesia como pãezinhos quentes, mas escrever em inglês é uma naturalidade que desenvolvi pela vida em trabalho e nas nas crónicas e artigos que escrevo, como a coluna que tenho na Lemon Magazine. Quando cheguei à composição bloqueei! Sabia que queria escrever as minhas canções em inglês e não me saía nada de jeito. Mas como em tudo o importante é mesmo não desistir. Não queria que outros autores escrevessem para mim nesta fase, eu tenho muitas coisas para dizer, não queria escrever em português, então para encontrar o meu formato tive de sair da minha zona segura e mandar-me de cabeça para o abismo, lá está. Mas valeu a pena porque até acho que vou muito bem nisto :)   8. Sónia Tavares, dos The Gift teceu rasgados elogios à sua música bem como Tozé Brito (vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Autores-SPA). O que sente ao ter este acolhimento tão caloroso? MV - Fico assim tipo como quem vai rebentar. O ato de criação em si é um ato egoísta. Pelo menos como eu o vivo. Crio para mim, sem pensar em como vai ser recebido pelo mundo, vem de uma necessidade de expurga muito auto-centrada. Mas depois está cá fora! E aí chega-nos o medo de que não seja bem recebido ou acarinhado pelos outros. Ficamos num estado de insegurança, mesmo os que dizem que não ficam, a querer muito que tratem bem aquilo que saiu de nós. Por isso é que eu comparo muito a criação com o parir. Temos os filhos para o mundo e o medo apodera-se de nós quando eles estão cá fora. Então é de uma dimensão esmagadora ver que as minhas canções são tão bem acolhidas, seja pela pessoa que descobre a minha música quando liga o rádio no carro seja por figuras tão relevantes na área em que mergulhei. Tenho um enorme respeito pelo Tozé Brito e uma imensa admiração pelo mulherão que é a Sónia Tavares.  

"Reconectarmo-nos connosco próprios não se faz num salto, mas sim em vários. E neste processo, quando comecei a compor, foi realmente para mim um salto muito importante porque senti que devia ter feito isto a minha vida inteira."

  9. Quando começou a fazer música sentiu que nunca tinha parado. É essa reconexão que sente que fez com este primeiro trabalho? MV - Diria que fez parte do processo. Reconectarmo-nos connosco próprios não se faz num salto, mas sim em vários. E neste processo, quando comecei a compor, foi realmente para mim um salto muito importante porque senti que devia ter feito isto a minha vida inteira. Sempre esteve lá à espera, a desenvolver habilidades até ao momento de se levantar o pano. Foi muito libertador e foi um reencontro com algo que eu senti de muito perto em menina e depois se desvaneceu no tempo. O nome do álbum vem de algo maior, vem do momento em que a vida nos obrigada a parar, olhar à volta, e perceber onde nos perdemos para nos voltarmos a encontrar. E digo “a vida nos obriga” porque normalmente é assim que acontece. O ser humano dificilmente sai de si próprio ou de uma circunstância que conhece por iniciativa própria. O crescimento precisa de um estímulo externo porque nasce da dor, e ninguém quer inflingir dor a si próprio.  

"Não existe idade para realizar sonhos, ou para mudar, ou para perseguir o que quer que seja. Realizei um sonho de menina aos quarentas, que me trouxe uma nova vertente profissional também.

Quanto a mim, abraço os meus quarentas em grande estilo, com todos os desafios que isso implica, e nunca fui tão destemida, tão bem resolvida, tão calma, tão tranquilamente apaixonada como sou hoje."

  10. Muitas mulheres têm medo de fazer 40 anos. Aos 43, o que pode a Maria dizer a todas essas pessoas que receiam o envelhecimento e o relacionam com ser colocada numa prateleira? MV - Digo o que digo aos meus filhos: que têm de pensar pelas suas próprias cabeças! Se nos sentimos bem e capazes, o resto são só dogmas e preconceitos da sociedade. Ter 40 é bom pra caraças! As mulheres são sem dúvida mais fustigadas com esta questão das idade, mas os homens também o são e sofrem outro tipo de pressões. Só nos cabe a nós contrariar esta coisa de se achar que temos de saber o que queremos fazer da vida aos 20, ter tudo resolvido aos 30, conquistado aos 40, e que aos 50 estamos tranquilos porque planeámos bem a reforma. Não existe idade para realizar sonhos, ou para mudar, ou para perseguir o que quer que seja. Realizei um sonho de menina aos quarentas, que me trouxe uma nova vertente profissional também. E apesar de me ter divorciado quando achava que era para sempre jamais abrirei mão de perseguir um amor tão lunático e inconveniente como eu, sou muito fã das histórias de amor de velhinhos que casam aos 80, pelo menos eles terão uma grande probabilidade de terem um amor para a vida toda :)))) Quanto a mim, abraço os meus quarentas em grande estilo, com todos os desafios que isso implica, e nunca fui tão destemida, tão bem resolvida, tão calma, tão tranquilamente apaixonada como sou hoje. E sim, o sexo também é melhor kkkkkkk.      

Paula Cristina Gouveia

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