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Entrevista a Luciana Ruis "O Yoga é para todos e vai para além do tapete"

22 de junho de 2026 · 10 min de leitura

Entrevista a Luciana Ruis "O Yoga é para todos e vai para além do tapete"
  Ontem, dia 21 de junho, celebrou-se o Solstício de Verão, o dia mais longo do ano. Assinalou-se também o Dia Internacional do Yoga com uma prática às 10h00 na Mata das Alminhas, em Nelas. Fomos falar com Luciana Ruis, professora de yoga no Ginásio Prostar nessa mesma localidade, onde dá aulas de Hatha Yoga. Hatha, é uma palavra derivada do sânscrito  e tem uma tradição antiquíssima, sendo que Ha significa Sol e Tha, Lua. Numa conversa longa e muito enriquecedora, discutimos o significado do yoga e o impacto que pode ter na vida do individuo tanto a nível físico como de saúde mental e harmonia com o Cosmos.  

"Sejam testemunhas de vocês mesmos, a essência que vive por detrás de cada camada subtil e concreta". 

    1) Luciana, o que é para si o yoga e o que a levou à prática do Hatha Yoga, que tem uma componente espiritual, de consciência e de unidade? O yoga é para todos, é a união do corpo, mente e espírito. Costumo dizer que o yoga vai para além do tapete, é uma filosofia que abrange vários conceitos desenvolvidos por Patanjali. Tem éticas que devemos respeitar, umas viradas para o mundo e outras para nós mesmos. Na primeira, os Yamas (conduta social) temos não violência, não mentir, evitar os excessos, cuidar as energias internas (da fome, da raiva, do desejo). São os preceitos da moral que cada um deve olhar para evoluir. Na segunda, os Niyamas (observações pessoais) temos o autoestudo, buscar a verdade interna, o seu dharma (propósito e missão no mundo). Perguntar-se quem eu sou? "Há algum ser por detrás dessa pele?". Sejam testemunhas de vocês mesmos, a essência que vive por detrás de cada camada subtil e concreta. O yoga é muitas coisas, mas na verdade é a essência que está por trás de toda essa camada, desde as mais subtis às mais concretas, à mais material que é o nosso corpo. Cheguei ao yoga pelo corpo, não pela parte estética, mas pelos movimentos e posições que via como um desafio. A Filosofia também me atraía, eu sempre gostei muito de Filosofia e foi ensinada por um professor de ginásio que enveredei por esta prática. Comecei a estudar e reparei como coordenar respiração com o corpo me ajudava lá fora, numa situação de stress, num momento delicado, numa situação de vida difícil e eu, com algum esforço e numa busca que nunca termina, comecei a entender o motivo de cada asana (postura). Porque não é só movimentar o corpo de tal maneira: é uma tentativa de organizar a mente, deixar o stress lá fora e alcançar o equilíbrio. Aprendi que o yoga é acima de tudo um modo de vida.  

"O caminho do yoga não é para quem é perfeito, é para quem é imperfeito e nós todos somos. O yoga é tudo aquilo que nos coloca em estado de presença".

 
2) O uso de várias asanas (posturas) e pranayamas (técnicas de controlo de respiração) é visto como um caminho para o equilíbrio do corpo e mente. Numa sociedade que tente para o imediatismo, o tempo para nós mesmos é necessário mais do que nunca?   Todos temos as mesmas 24 horas e estamos sempre a fazer tanta coisa, estamos a adoecer como Humanidade. O yoga não é religião nem adoração, mas é preciso parar e deixar a rotina lá fora. Nós precisamos disso para nos olharmos como seres frágeis e cíclicos, não eternos. Só temos o momento presente e vivemos perturbados e sobrecarregados de informação, de conhecimentos que raramente se transformam em sabedoria. Parar, pensar, voltar, entender, estudar vira sabedoria a partir do momento em que eu aplico na minha vida. Conhecimento é algo mais consolidado, sabedoria é quando a gente vivencia. Através do yoga eu tenho ferramentas para estar presente, entrar em contacto com as minhas emoções sem que elas me dominem. Ainda acontece me dominarem, mas o caminho do yoga não é para quem é perfeito, é para quem é imperfeito e nós todos somos. Então, sabe quando vamos limpando aos pedacinhos um lustre que está coberto de poeira e começa a brilhar um pouquinho mais? É um trabalho minucioso, constante, mas o que importa é estar no caminho. Onde a gente está no caminho é apenas um detalhe. O caminho até ao samadhi (libertação do ego) é o mesmo para todos. Estamos em contacto com algo mais puro de nós e direcionando a nossa energia para um propósito. O yoga nos coloca frente àquilo que nós realmente somos, se nós nos permitirmos. A nossa luz e a nossa sombra. O yoga é tudo aquilo que nos coloca em estado de presença.

"Observe-se, tire o foco da instabilidade e recorde-se que a primeira não-violência deve ser connosco mesmas".

  3) Que benefícios sentiu com a prática assídua do yoga e de que pode falar aos seus futuros alunos interessados em experimentar? Em primeiro lugar, o estado de presença é dificultado porque vivemos constantemente monitorizados, conectados, mas sem contacto significativo, muitas vezes, com as pessoas à nossa volta. Por isso, eu diria, a questão social, em contexto de grupo, a nível de paciência e respeito e cuidado consigo e com os outros. Depois, a homeostase (capacidade de o organismo manter o seu equilíbrio interno), humores, metabolismo e a respiração. Se prestarmos atenção à maneira como respiramos podemos ajudar a regular estados mentais e muitas outras componentes: ciclo de sono, tensão arterial, questões endócrinas, abdómen e de aparelho digestivo. As diferenças físicas, emocionais, mentais, sociais e de autocuidado equilíbrio emocional começam a fazer-se notar naturalmente. O yoga fortalece ainda articulações, trabalha alongamentos e tonifica o corpo inteiro. Ao estarmos no tapete, o mundo fica lá fora, fazemos pranayamas, limpezas, meditações: tudo para regular a mente e prevenir a ausência de oscilações na mente. Com a prática regular de yoga, que é variável para cada um, o objetivo é preparar a mente para a meditação. Os sábios na Índia não precisavam do yoga do tapete porque já estavam mais preparados para sentar e meditar. Meditar não é ausência de pensamentos, é a ausência de oscilação. O asana (postura) é uma preparação, alinhar o nosso corpo e a nossa mente é a uma preparação. Meditar é uma técnica de autoconhecimento. "Quem não sou? Eu sou o meu corpo?" Então é um momento em que senta para meditar e surgem diferentes níveis de meditação, começa a fazer perguntas a algum ser lá dentro e às vezes a mente começa a falar até que pergunta em cima das respostas que vão vindo e a mente se cala. Nesse momento, entra realmente num estado de meditação. Claro que podem surgir sentimentos de frustração, de autoexigência, mas observe-se, tire o foco da instabilidade e recorde-se que a primeira não-violência deve ser connosco mesmas.  

"Acredito que tudo o que foi criado tem um propósito, um talento, alinhado ao Criador, e eu sou parte dessa criação- tudo é sagrado."

 

4) Hatha vem do sâncrito pela junção de Ha (Sol) e Tha (Lua). Acredita que tudo no Universo e no bem-estar do ser humano funciona numa relação de complementaridade?

Sim. Adoro essa pergunta e é bem complexa. No Yoga existe a visão dualista e não dualista. Na dualista a divindade, o criador (Shiva, Shakti, o que for) está externo a mim, há uma relação eu- Deus, de separação. Na visão não dualista eu sou parte de Deus, comungo com esta entidade, integro a sua Criação. Particularmente, identifico-me num todo com a não-dualista, acho o conceito de Dharma muito bonito viver como tem de ser vivido porque é a minha natureza. Eu vejo dessa forma. Tudo é Criação. Shiva, que é a força masculina tem de estar em equilibrio com Shakti, são faces da mesma moeda, complementam-se. Para mim, Shiva, força masculina e Shakti, força feminina da geração têm de estar em equilíbrio, são como dois complementos de uma moeda e tudo é Criação. Acredito que tudo o que foi criado tem um propósito, um talento, alinhado ao Criador, e eu sou parte dessa criação- tudo é sagrado, faz parte desse ritual e linha filosófica.  

"Quero elevar o yoga pela a vivência do corpo e da vida"

  5) Quais as suas grandes inspirações e aspirações no trabalho e na vida? A nível de Yoga para mim tudo parte da pergunta "Quem sou eu?", do desapego e da disciplina da prática diária (sadhana), não como algo rígido, mas com constância, de fluir, de tirar carga emocional e passar para a movimentação psíquica. Como inspirações tenho Paramahansa Yogananda, Swami Sivananda e Mahama Marhashi. Trabalho no mundo corporativo, em Recursos Humanos. A nossa vida está muito atribulada, sujeita a oscilações, mas consigo, muito melhor que antes, com mais autoconhecimento identificar pensamentos atribulados e projeções, parar e olhar. Nós estamos aqui para crescer a diferentes níveis. Acredito que já havia habilidades yoga em mim e não sabia como usar. Cada um de nós tem uma história, não existe melhor nem pior, só estamos em alturas diferentes.  Tento não me identificar demasiado, praticar a escuta ativa, mas mantendo limpo o canal de luz da linha do caminho de que falava há pouco.Não levar nada a peito, carregar menos emoção melhora a comunicação, estabiliza. Somos transitórios e alinhar os princípios em cada ponto da nossa vida com desapego e disciplina, ajuda a que um vá alimentando o outro. Na procura de quem eu sou, Marhashi, tem um livrinho em que fala “Eu não sou esse corpo, não sou minha pele”, no fundo, colocar perguntas até chegar ao que é. Existem vários caminhos para o yoga, a porta de entrada não tem de ser uma coisa só. Como me vejo como pessoa: tenho dois filhos, sou casada e acredito que o desenvolvimento faz-se em espiral, como dizia Jung, o passado não existe mais, o que existe é a entrega (Shavasana), a tentativa de alinhar corpo e espírito. Há coisas que ainda não conseguimos lidar e outras que vemos que qualquer coisa mudou, com os exercícios e experiências que alinham o físico à nossa mente. Aprecio muito a Filosofia aplicada na vida diária, quero fazer retiros, ter o meu próprio espaço, dar aulas de 2 horas porque faz mais sentido. No futuro gostaria de guiar as pessoas que estiverem comigo, não pelo que eu acho, mas pela vivência dos alunos eles mesmos, elevar o yoga pela a vivência do corpo e da vida e afinar essa união entre individuação (para se perceberem) e a unidade.  

8 passos de Yoga

 

Yoga de Patanjali

  Yama (condutas éticas e morais) Niyama (regras de conduta pessoal) Asana (posturas físicas) Pranayama (controlo da respiração) Patyahara (recolhimento dos sentidos) Dharana (concentração) Dhyana (meditação) Samadhi (libertação do ego/iluminação ou absorção total)  

Sofrimento e contentamento segundo a Luciana

  “A causa do sofrimento do ser humano é a gente querer dominar tudo, saber tudo, adiantar-se a tudo. Claro que a dor acontece, ela é natural no ser humano, mas o praticante de yoga tende a eliminar o sofrimento. Se aparecer uma pedra no nosso caminho e a chutarmos, isso é dor, mas se eu carregar comigo vou estar a sofrer. Devemos estar no momento presente, com respeito pelos ciclos e mesmo com a frustração se o corpo não obedece. Abrir espaços naturalmente no seu corpo, sem forçar, e ver como fica a sua mente. "Respeitar o corpo, está tudo bem, eu amo esse corpo".  Colocar-se num estado de "eu estou aqui", só o agora é importante. É a única forma de eliminar sofrimento porque aquilo com que ainda não sabemos lidar, persiste, como dizia Jung, é a nossa sombra. É importante deixar que a mente chegue a um estado de contentamento a que se chama santosha, que eu acho um dos mais bonitos niyamas. Se eu estiver aqui sem apreciar o Sol lá fora, a atmosfera envolvente, sem gratidão, sem conexão, eu não estou presente. Um dia de chuva, se eu não respeitar o ciclo da natureza, o que às vezes é difícil, idem. Quando falamos o yoga está para além do tapete como fica sua mente, o que despertou em si? O yoga não é terapia mas pode trazer à tona questões com as quais precisamos lidar. Quando fazemos alguns pranayamas ativamos energia. Estamos no caminho samadhi, puro, em que vemos no nosso horizonte a energia e o propósito que temos nesta Terra. Em que conseguimos obter a paz no meio do caos- samasthiti.  

Paula Cristina Gouveia

     

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