Da experiência com a ansiedade à criação da aplicação CONFIA
30 de setembro de 2026 · 7 min de leitura

Facilmente nos podemos perder no reino da produtividade ou em acontecimentos inquietantes e esquecer que a paz não é um lugar mas sim um estado de presença. Quando a ansiedade se instala deixamos de conseguir aproveitar a vida, entramos em modo de gestão de crise, de só pensar no que tem de ser feito ou como reagir; é uma sensação de sofrimento psíquico indescritível.
Foi de uma experiência pessoal relacionada com ansiedade e ataques de pânico que Guilherme Mendes criou uma aplicação CONFIA, destinado a ajudar pessoas que estejam a atravessar esses mesmos problemas.
Guilherme Mendes nas suas próprias palavras
No caso de Guilherme em particular os sintomas começaram a aparecer com um susto a nível de saúde relacionado com a sua filha:
"A partir daí entrei num período em que comecei a sentir a ansiedade de forma muito física: dores, aperto no peito, formigueiros, tensão, preocupação constante e uma atenção excessiva a tudo o que o meu corpo fazia. Quando não percebemos o que está a acontecer, cada sensação pode tornar-se mais um motivo de medo.
Procurei ajuda médica e fiz exames porque, numa fase inicial, é difícil acreditar que sintomas tão físicos possam estar ligados à ansiedade. Também tive acompanhamento e tratamento, e fui aprendendo gradualmente a compreender melhor o que estava a acontecer comigo. Esse processo foi essencial. A minha experiência ensinou-me precisamente que pedir ajuda e excluir causas médicas quando é necessário é importante, e que uma aplicação nunca deve substituir profissionais de saúde.
O processo de recuperação não foi um momento único em que tudo desapareceu. Foi um processo. Houve fases melhores, outras mais difíceis, e muita aprendizagem sobre os meus próprios padrões: perceber o que desencadeava determinados estados, como reagia aos sintomas, o peso da preocupação antecipatória e a importância de olhar para a evolução ao longo do tempo em vez de avaliar tudo por um único dia mau. Hoje continuo a encarar a recuperação como um caminho, não como uma linha de chegada".

O que é a CONFIA?
A CONFIA é uma aplicação de bem-estar e autoconhecimento emocional. Permite fazer check-ins, registar como a pessoa se sente, acompanhar a evolução, identificar sinais e padrões que se repetem, trabalhar pequenos objetivos e ter um espaço de comunidade. O objetivo é ajudar cada pessoa a conhecer-se melhor e a olhar para o seu percurso com mais contexto, em vez de viver cada momento difícil como se fosse isolado.
É uma ferramenta de apoio à auto-observação, reflexão e bem-estar. A aplicação não substitui acompanhamento médico, psicológico ou psicoterapêutico.
Tem componentes de lógica adaptativa e análise de sinais para personalizar a experiência e tornar os registos mais úteis ao longo do tempo.
"O princípio que procuro manter é que qualquer interpretação deve ser prudente: a aplicação pode sugerir padrões ou chamar a atenção para sinais, mas não deve dizer à pessoa o que ela 'tem' nem apresentar conclusões clínicas. A tecnologia deve apoiar a reflexão, não substituir julgamento clínico".
Guilherme Mendes define-se sobretudo como português, marido e pai e que a CONFIA não teve uma motivação empresarial.
"Não sou psicólogo e este projeto não nasceu de uma ideia de negócio ou de uma startup. Nasceu essencialmente da minha experiência pessoal e da vontade de transformar uma fase difícil da minha vida em algo que pudesse, eventualmente, ajudar outras pessoas. Quero que a aplicação seja uma ajuda entre momentos de acompanhamento, ou um primeiro espaço de reflexão, nunca uma alternativa a cuidados de saúde quando eles são necessários.
Desde o lançamento a CONFIA chegou a várias centenas de utilizadores e começou a ser utilizada também fora de Portugal, com registos de utilização em países como Brasil, França, Bélgica, Moçambique e Equador. Para mim, mais importante do que um número é pensar que cada instalação corresponde a uma pessoa que, por algum motivo, procurou uma ferramenta deste género".
A aplicação foi desenvolvida intuitivamente, naquilo que Guilherme sentia que teria precisado nos momentos difíceis: um espaço simples para fazer check in, registar como se sentia, padrões temporais, avaliar a sua evolução, estabelecer pequenos objetivos e sentir que não estava sozinho através de um espaço de comunidade.
É útil ligar pontos, hábitos, comportamentos e fomentar o autoconhecimento emocional. A aplicação não se limita a armazenar registos, relaciona informação, devolve observações, sinais e estados que se repetem que ficam visíveis em setores como no Mapa Pessoal.
"A intenção não é diagnosticar nem colocar rótulos, mas sim ajudar pessoas em relações que no dia-a-dia, podem passar despercebidas".
As recorrências vão levar a observações que possam suscitar a reflexões, sendo que a pessoa pode sempre mostrar outra leitura e evolução em novos registos.
A importância dos pequenos objetivos e da comunidade
"Quando estamos ansiosos, até coisas simples podem parecer demasiado grandes. Por isso gosto da ideia de objetivos graduais e realistas. Em vez de pedir uma mudança enorme, a aplicação procura trabalhar passos pequenos, com diferentes níveis de exigência. O mais importante é que o utilizador sinta que consegue avançar, mesmo quando naquele dia só consegue fazer o mínimo.
A comunidade nasceu de uma ideia simples: muitas vezes aquilo que mais pesa é achar que somos os únicos a sentir determinada coisa. Poder ler experiências de outras pessoas, partilhar uma dificuldade ou receber uma resposta pode reduzir essa sensação de isolamento. Ao mesmo tempo, tenho muito cuidado para que a comunidade não se transforme num espaço de diagnóstico ou aconselhamento médico. A ideia é apoio entre pessoas, não substituir profissionais".

Guilherme reforça que não teve objetivos comerciais quando criou a CONFIA:
À medida que cresce, existem questões técnicas, de sustentabilidade e de evolução que precisam de ser pensadas. Mas a motivação original continua a ser a mesma: se aquilo que aprendi num período difícil conseguir tornar o percurso de outra pessoa um pouco mais compreensível, já existe valor no projeto.
Para o futuro as ambições são claras:
Quero tornar a experiência cada vez mais personalizada sem a tornar mais complicada. Tenho trabalhado especialmente na forma como a aplicação identifica sinais e necessidades, na evolução dos objetivos graduais, na comunidade, nas traduções e na componente reativa da aplicação. Também gostaria, no futuro, de aproximar o projeto de profissionais e investigadores para que possa ser avaliado de forma independente e melhorado com base em evidência.
A quem está a passar por uma fase de ansiedade intensa Guilherme transmitiria o seguinte:
Diria para não tentar resolver tudo sozinho e para não sentir que precisa de compreender tudo imediatamente. Quando estamos no meio da ansiedade, é muito fácil interpretar cada sensação como uma ameaça e acreditar que aquele estado vai durar para sempre. Procurar ajuda, falar com alguém e começar a observar o que sentimos com alguma distância pode fazer diferença. A minha experiência foi precisamente perceber que existe caminho, mesmo quando, no início, não conseguimos vê-lo.
O que significaria para si a CONFIA ajudar apenas uma pessoa?
Seria suficiente para justificar todo o esforço. A aplicação nasceu de algo difícil da minha vida. Se essa experiência puder ser transformada em algo que ajude uma pessoa a sentir-se mais compreendida, a reconhecer um padrão ou a procurar ajuda mais cedo, isso já é uma vitória pessoal para mim.

A aplicação está atualmente disponível para Android na Google Play:
https://play.google.com/store/apps/details?id=com.confiaolhaparadentro&hl=pt_PT
"Continuo a desenvolver e a melhorar a CONFIA, mas aquilo que mais me importa é a possibilidade de a minha experiência poder ajudar alguém a compreender melhor aquilo que sente, ou simplesmente fazê-lo sentir-se menos sozinho" remata Guilherme Mendes.
A minha experiência com a CONFIA:
Instalei a aplicação CONFIA há poucos dias e estou a ter uma excelente experiência. No início notei que me queixei duas vezes seguidas da sensação de "cabeça cheia" advinda da tendência de pensar demais sobre tudo e na funcionalidade abraço da mente foi prazeroso poder ouvir o som da chuva enquanto rabiscava à minha vontade no espaço destinado para o efeito.
O bonequinho amigo também está muito bem conseguido a nível de design. Também me tranquilizou registar um objetivo pequeno para me orientar esta semana e saber que posso tentar organizar a mente em qualquer altura. Adoro igualmente descobrir a constelação do meu momento, apesar de nunca ter percebido muito de astrologia; saber que de acordo com a minha pontuação em diversos items (como motivação, tristeza irritação, sobrecarregada) um céu se pode desenhar e ter algum significado é muito curioso e interessante.
Há muito a explorar ainda para mim na CONFIA mas para já tem sido uma ferramenta que me tem ajudado e acho uma iniciativa louvável em termos de bem-estar e saúde mental.

Paula Cristina Gouveia
