Cinco dicas para retomar o controlo da sua vida
12 de março de 2021 · 5 min de leitura

Sabemos o que é estar em casa confinados dias a fio. Porém, será que nos sentimos realmente em casa? Não falo de um espaço físico entre quatro paredes, falo daquele lugar que é mais que o invólucro perecível do nosso corpo, que é um estado de espírito em que nos sentimos sintonizados numa qualquer frequência harmoniosa, em que estamos tranquilos, confortáveis na nossa pele e nos nossos pensamentos.
Para muitas pessoas pode parecer impossível ter uma sensação de acalmia em tempos tão incertos, que exigem tanto de nós. É mais fácil ficar permanentemente em alerta, com o stress e ansiedade a disparar para níveis altíssimos, como se tivessem de ser sempre o nosso estado por defeito. Contudo, não tem nem deve ser assim.
Há uma imensidão de fatores que não podemos controlar mas o que está sob a nossa alçada pode e deve ser explorado, para nos dar um sentido de autonomia, de que temos sempre uma voz ativa e uma palavra a dizer nas nossas vidas, mesmo quando achamos que não somos importantes o suficiente nem capazes de o fazer.
Deixo aqui algumas dicas para retomar a sensação de controle sobre a sua vida:
1) Entenda os seus mecanismos biológicos e procure enfrentar o medo que se revele ser disfuncional na sua vida
Quando entramos numa situação de luta ou fuga, as hormonas adrenalina e cortisol sobem, o corpo prepara-se para uma ameaça que pode materializar-se para pôr em risco a nossa sobrevivência, dando origem a um profundo mal-estar que pode ter sintomas tão angustiantes como dificuldades em respirar, ritmo cardíaco acelerado ou palpitações, tremores, suores frios, entre outros. Num cenário mundial de pandemia em que estamos a lidar com uma ameaça real mas invisível, é normal sentirmos medo de sermos infetados ou que familiares e pessoas próximas o sejam, é normal preocuparmos-mos com os nossos meios de subsistência, com a economia mundial, com mil e uma questões que nos podem roubar o sono à noite. Mas chega a um ponto em que esta preocupação crónica e sistémica não nos traz mais nada de favorável. Pelo contrário: ao ruminarmos excessivamente os problemas, por vezes ficamos como que de olhos vedados e não conseguimos ver possíveis soluções. As insónias tornam-nos irritáveis, de mau humor ou simplesmente exaustos e não são de todo benéficas, pelo que terá de tentar cuidar melhor de si evitando, por exemplo ver ou ver demasiadas notícias e ter rituais apaziguantes na altura de se preparar para ir dormir.
2) Assuma as suas vulnerabilidades e procure a comunicação assertiva e empática com os outros
Não devemos esconder a nossa fragilidade e quando nos sentimos sem esperança, só ao partilhar com outras pessoas o que estamos a sentir é que podemos encontrar pontos comuns, permitir que elas se identifiquem connosco e nos estendam uma mão amiga. Não ficar fechados hermeticamente na nossa dor e ter um sentido de comunidade, de que existe um mundo inteiro para além das nossas lutas interiores a precisar de nós, vai contribuir que nos tornemos menos auto absorvidos e que aos poucos consigamos sentir alguma gratidão, por mais escura que possa ser a nossa paisagem mental. Vai possibilitar que expandamos os nossos horizontes e a nossa consciência e possamos sentir que fazemos a diferença na vida de alguém, podendo levar a que vivamos um estado conhecido como euforia altruísta, em que o nosso cérebro liberta oxitocina, serotonina e dopamina, que diminuem o efeito do cortisol, a hormona do stress e melhoram a nossa disposição. Não se esquive, portanto, de todas as ramificações maravilhosas que advém de poder ajudar e de ser ajudado.
3) Desenvolva a atenção plena e foque-se naquilo que pode concretizar por si mesmo(a) sem intervenção de fatores externos
Tenha consciência de tudo o que depende de si desde poder inspirar e expirar com atenção plena, meditar, ser fiel às suas rotinas, cultivar nossos interesses, experimentar um novo passatempo. Esteja ciente de tudo desde a comida que coloca no seu corpo ao modo como se movimenta ao descanso que lhe dá. Se se concentrar em tudo o que pode diretamente influenciar, logo detetará onde tem lacunas ou áreas em que pode melhorar e deixará de se focar tanto naquilo que acontece independentemente da sua vontade. Poder fazer uma mudança no imediato, sem esperar por nada nem ninguém, é demasiado poderoso para ignorar todas as suas vantagens. Porquê esperar e adiar algo que possa alavancar o seu bem-estar?
4) Se se sentir sobrecarregado(a) de emoções, sentimentos ou pensamentos que não consegue compreender e lhe estão a causar dano, não existe a procurar ajudar profissional
A terapia é uma ferramenta da Psicologia extremamente valiosa que lhe permitirá conhecer-se melhor, chegar a conclusões importantes, ao mesmo tempo que aguça a sua perceção, compreensão, capacidade de discernimento, de relativizar e de ter perspetiva. Quando estamos em sofrimento ou angústia profundas, é como se tudo em nós estivesse a arder e não soubéssemos ao que acudir primeiro. Um profissional qualificado irá guiá-lo neste processo para que identifique prioridades, pontos em que está a ter dificuldade e gatilhos emocionais, permitindo que se liberte desta forma de pelo menos algum do fardo que carrega. Vai conseguir identificar, por exemplo, as alturas em que está a ser demasiado pessimista, a distorcer a realidade ou a encetar uma conversa interior demasiado punitiva. Perceberá também melhor o que gosta e não gosta, o que lhe dá motivação, o que ainda ambiciona alcançar e como pode preparar-se devidamente para atingir esses objetivos e metas e tornar-se uma pessoa melhor.
5) Não temos de ter todas as respostas, especialmente não neste exato momento. Não precisamos de tê-las para conseguir avançar com confiança e fé.
O autoconhecimento e o conhecimento dos outros é uma tarefa que passaremos a vida inteira a aperfeiçoar e nunca estará acabada, só quando dermos o nosso último suspiro. Não tenhamos pressa pois há um tempo certo para tudo na vida, para semear e para colher flores e frutos. Que esta pandemia que nos roubou tanto nos ensine a viver o presente, a estar agradecidos pelo ar que respiramos, pelas pessoas boas que nos rodeiam, que nos traga a consciência de que é bonito fazer listas e planos, mas que há alturas em que o maior sonho que podemos ter é o de simplesmente viver.
Paula Gouveia
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