A vida continua
30 de setembro de 2020 · 3 min de leitura

Faltam sensivelmente três meses para o final do ano e 2020 não foi nada do que estávamos à espera. Foi preocupante, desafiante e toda uma mistura de emoções que nem sequer sabemos definir. Fez-nos ver que não podemos tomar nada como garantido na vida, nem a saúde, o afeto de alguém, um trabalho ou a realização dos nossos sonhos mais profundos. Mas, se há alguma lição que devemos mesmo interiorizar é que não adianta darmos chicotadas a nós próprios, isso não levará a lado nenhum. Temos de praticar o amor próprio, o perdão e a auto compaixão porque no meio de circunstâncias adversas ainda aqui estamos, a viver, a pôr um pé a seguir ao outro, a lutar e a seguir em frente.
A vida continua, não acaba mesmo quando cancelamos planos, terminamos amizades ou relações amoras. Cada capítulo que se fecha é outro que se pode começar a escrever de seguida. Neste mês de Setembro Amarelo, penso que é plausível dizer que a pandemia acentuou muitos dos problemas que já tínhamos: carências de diversa ordem, precariedade, solidão, dependência emocional. E por vezes, quando mais queremos fugir deles mais parece que apenas andamos em círculos sem sair do mesmo sítio.
A vida continua mesmo quando duvidamos que tudo vai melhorar e não sabemos o nosso amanhã, porque no final de contas mesmo quando o chão não parece ser firme debaixo dos nossos pés, há ainda coisas em que podemos acreditar. Não adianta lamentar o que nos escapa, temos de valorizar o que podemos agarrar, o que é bom para nós, cheio de virtudes e potencialidades.
Muitas vezes não nos respeitamos o suficiente, não cuidamos de nós, não nos olhamos com carinho. Estamos à espera que outra pessoa nos dê o amor e atenção que não sabemos dirigir a nós mesmos. É aí que se geram padrões destrutivos que se podem repetir vezes sem conta até aprendermos a lição de que não devemos buscar no exterior a paz que só podemos encontrar no nosso interior.
Passamos noites sem dormir, dando voltas na cama sem conseguir conciliar o sono com as inquietações que assolam a nossa mente, com a tristeza, com o vazio. A incerteza devora-nos sem conseguirmos oferecer resistência. No entanto, tudo o que alguma vez podemos fazer é dar o nosso melhor e ter em conta de tudo aquilo que alimentamos, cresce e o que pomos de lado, se contrai. Como tal, podemos escolher ter uma mentalidade positiva, uma mentalidade forte, que expanda a nossa consciência para nossas possibilidades e uma maneira de viver mais íntegra e saudável.
Nem tudo na vida serão rosas mas nem tudo é um labirinto. Nada é permanente e imutável pelo que só temos de prosseguir o nosso caminho individual e único, evitando comparações desnecessárias com os outros. Só temos de abraçar os nossos dias e de saber dar colo à criança perdida e assustada que habita dentro de nós. Aquela que não sabe bem o que fazer, que tem medo do mundo e das pessoas, que acima de tudo quer ser apreciada e não magoada.
A vida continua mesmo quando não sabemos bem como será e é isso em que nos temos de concentrar, nas dádivas que possuímos, em preencher as novas páginas com histórias inesquecíveis porque cada dia pode ser isso mesmo: lindo e memorável.
Paula Gouveia
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