A saudade
30 de abril de 2021 · 4 min de leitura

Dizem que a saudade é a palavra mais portuguesa de todas e é certamente difícil de definir este sentimento de falta de alguém ou de algo. Uma pessoa querida, um momento especial, até as coisas que não vivemos: tudo isso nos pode causar uma sensação de aperto no peito, como se não houvesse ar suficiente para respirar e toda a nossa vida fosse cheia de vazio.
Dentro deste quesito queria falar especificamente do luto pois acredito que é um processo que apesar de ser íntimo e pessoal, ainda está rodeado de muitos tabus e receios infundados. Quando alguém que amamos deixa de fazer parte da nossa vida, a sensação é incrivelmente dolorosa. Por mais que essa pessoa já não se encontre connosco, é impossível matar as memórias e o facto é que continua a viver dentro de nós.
No Verão passado passei pela experiência de perder o meu cão de 15 anos, Romeu. Não houve uma despedida, um fechar de ciclo formal. Ele simplesmente desapareceu de minha casa quando já se encontrava muito doente, ao que tudo indica para morrer, nas suas próprias condições e termos. Um dia estava junto a mim e no outro dia, já não estava. Não sei explicar a sensação de angústia que me invadiu quanto à incerteza do seu paradeiro: onde ele estaria e em que estado. Procurei por toda a vila desesperada, sem qualquer sucesso. Lancei apelos nas redes sociais mas não tive vez qualquer rastro ou sinais dele. Foi como se se tivesse eclipsado, engolido por uma qualquer dimensão alternativa, um Universo a que eu ainda não posso chegar. A dor foi imensa, parecia partir-me ao meio.
Podem dizer que é um exagero sofrer desta forma por um animal mas quem vive muito tempo com outro ser vivo e se apega profundamente a ele, sabe exatamente do que estou a falar. Para mim o Romeu não era um mero cão: era o meu melhor amigo, praticamente uma pessoa, como o meu braço direito. Perdê-lo foi como ferir um membro do meu corpo. Durante dias chorava muito, dormia no sofá onde ele passou as últimas noites, por já não ter força nas patas para subir para o segundo andar, sonhava com ele, sentia-o próximo apesar de ele estar ausente. Creio que a saudade seja isso: uma presença ausente, que fica sempre, quer queiramos, quer não.
Procurei ajuda psiquiátrica e psicológica para que o meu luto não se tornasse patológico, ou seja, para que não gerasse uma instabilidade emocional tal que me impedisse de funcionar no meu dia-a-dia. Fiz duas sessões de cada, o que foi o suficiente para perceber que ainda era tudo muito recente, a ferida estava bem fresca e em carne viva ainda. Foi-me dito que as emoções que me invadiam eram naturais, que eu me encontrava bem, apesar de não me sentir dessa forma.
Da minha relativa experiência de vida posso dizer que todas as perdas são vividas de forma diferente. Até agora perdi os meus avós (tanto do lado materno como do paterno), duas gatas e um cão e não considero, no geral, que tenha vivido muitas provações. Tive uma boa educação e sou feliz na medida do possível, sei que me devo considerar uma pessoa abençoada e com sorte, pois há pessoas com uma vida bem mais difícil que a minha, seguramente. Mas, assim como não há duas pessoas iguais: a dor é singular e cada pessoa vive o luto à sua maneira.
Queria terminar este texto, de cunho mais pessoal, apenas dizendo que vivemos numa sociedade com muita pressa, com o síndrome de pensamento acelerado, como diz o psiquiatra brasileiro Augusto Cury. Todos querem felicidade sem o mínimo esforço, soluções rápidas literalmente da noite para o dia e quando sofremos uma perda devastadora limitam-se a dar-nos uma palmadinha no ombro e a dizer-nos que a vida continua e há muito trabalho para fazer. Aprendemos a compartimentalizar-nos como se houvesse uma pessoa que é capaz de sentir tudo e outra que segue em frente, dormente e entorpecida, como que envolvida por um plástico protetor, uma espécie de cápsula.
É importante que reflitamos sobre esta questão e entendamos que não há milagres à base de fórmulas feitas e que é preciso sentir a dor da perda, chorar quando tivermos essa necessidade, até que a nossa saudade se torne uma saudade lavada, como disse muito bem a nossa Simone de Oliveira. Há que tentar fazer uma catarse, uma interpretação dos factos para lhes tentar dar algum sentido e nos podermos reinventar e encontrar novamente quem somos. Há que arrancar os pensos rápidos porque as feridas curam-se melhor ao ar livre.
Paula Gouveia

