A Páscoa e a gratidão
12 de abril de 2020 · 2 min de leitura

"Celebrar a vida" foi o tema da segunda edição da revista Humanamente, que pode ler na íntegra aqui.
Ignoramos quando a vida vai voltar ao normal com esta doença infecciosa respiratória que assola o globo. Mas mais do que nunca, precisamos de motivos para sorrir e de acreditar que uma Páscoa diferente não tem de ser necessariamente pior que as anteriores.
Não é possível celebrar com alegria, se não sentirmos no nosso coração uma profunda gratidão. Em vez de contarmos tudo o que está mal e de reclamarmos por causa do que o isolamento social não nos permite fazer, porque não contar todas as nossas bênçãos? Temos a tendência para ver o copo meio vazio em vez de meio cheio, para nos focarmos no negativo, no que não é suficiente, no que não temos. Deveríamos fazer o oposto. É certo que não podemos melhorar como pessoas se não estivermos conscientes dos nossos defeitos e falhas, mas se não soubermos olhar em frente vamos existir num tempo que não existe mais: no passado.
Porquê carregar uma bagagem pesagem quando podemos ser leves como uma pluma? Porquê guardar mágoas, amarguras e rancor dentro de nós quando podemos libertar-nos com o perdão, o entendimento e a empatia? Nunca é tarde demais para recomeçar, para romper padrões tóxicos e ter comportamentos mais saudáveis e auto-benevolentes, centrados na auto-estima e segurança interior. A verdade é que se não construirmos o nosso mundo e definirmos claramente os nossos limites, alguém o vai construir por nós, as nossas fronteiras vão ser ultrapassadas sem dó nem piedade e vamos ter de lutar para nos reinventar-nos e traçar o nosso caminho uma vez mais de forma digna e clara.
O que é a reinvenção senão uma das características do período pascal? A capacidade de passar pelas maiores provações e sofrimentos e ainda assim, ressurgir, com uma fé inabalável? Talvez não vejamos esse espírito inquebrável, em, nós ainda. Afinal, é normal errar e sentirmos-nos perdidos, especialmente em tempos tão estranhos e asfixiantes como estes. É normal não sabermos o que dizer para expressar tudo o que nos vai dentro. É normal cair. Mas é sempre possível fazermos-nos à estrada mais uma vez e lembrar que não é valioso quem nunca cai mas quem, se é derrubado duas vezes, se levanta uma terceira, as vezes que forem necessárias para mostrar que está aqui de pedra e cal, para ser feliz e fazer felizes os outros: em família, no trabalho, em todas as esferas da sociedade.
Paula Gouveia
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