A liberdade escondida nas rugas
26 de novembro de 2025 · 4 min de leitura

Há uns meses, ao organizar o escritório da Ineditar, encontrei uma fotografia minha dos anos oitenta. Cabelo escuro, postura ereta, aquele brilho nos olhos de quem acredita que o tempo é infinito. Sorri ao reconhecer aquele jovem editor cheio de certezas. Depois, olhei-me ao espelho – cabelos brancos, rugas que contam histórias, uma certa lentidão nos gestos – e surpreendi-me com a ausência de melancolia. Algo em mim tem vindo a mudar, gradualmente, e não se trata apenas do corpo.
A nossa cultura ocidental vendeu-nos uma narrativa poderosa: envelhecer é perder. Perdemos vigor, beleza, relevância, velocidade. Os anúncios prometem-nos cremes "anti-idade", como se a idade fosse uma doença a combater. Os eufemismos multiplicam-se – "terceira idade", "anos dourados", "melhor idade", todos eles tentando disfarçar o que consideram uma tragédia: deixamos de ser jovens.
Mas e se esta narrativa estiver completamente errada? E se aquilo a que chamamos "envelhecer" for, na verdade, um convite ao amadurecimento mais profundo que a vida nos oferece?
No budismo, há um conceito que me tem acompanhado nestes anos de transição: tudo está em constante transformação, e resistir a essa transformação é a raiz do sofrimento. A questão não é se vamos mudar – isso é inevitável como o nascer do sol. A questão é se conseguimos dançar com a mudança ou se passaremos os nossos últimos anos numa luta exaustiva contra o inevitável.
Tenho vindo a descobrir algo paradoxal: quanto mais aceito as limitações do corpo que envelhece, mais livre me sinto. Já não preciso de impressionar ninguém com a minha produtividade. Já não tenho de provar o meu valor através de conquistas externas. Esta libertação não é resignação, é sabedoria que vai chegando aos poucos. É compreender, lentamente, que o nosso valor enquanto seres humanos nunca dependeu da nossa capacidade de produzir, de seduzir ou de competir.
Há capacidades que só se desenvolvem com a idade, e tenho-as visto florescer em mim quase sem dar por isso. A perspectiva, por exemplo. Aos vinte anos, cada desilusão parecia o fim do mundo. Aos sessenta, começo a reconhecer padrões, vejo como as crises se transformam, compreendo que "isto também passará". Não é cinismo, é discernimento nascido da experiência repetida de atravessar tempestades e descobrir que o céu sempre volta a clarear.
A paciência é outra. Não a paciência forçada de quem se controla, mas aquela serenidade que vai chegando naturalmente quando já não temos tanto a provar. Posso escutar verdadeiramente porque já não estou tão ansioso por falar. Posso estar presente porque já não estou constantemente a projectar-me no futuro.
E há a compaixão – essa capacidade de ver o sofrimento alheio sem julgamento, que se vai desenvolvendo à medida que nos vemos suficientemente imperfeitos, já falhámos suficientemente, já fomos suficientemente humilhados pela vida para perdermos a arrogância da juventude. Descobrimos, com alívio, que todos estamos a fazer o melhor que conseguimos com as ferramentas imperfeitas que temos.
Claro que há perdas reais. Seria desonesto negá-las. O corpo dói mais, cansa-se mais depressa, esquece nomes que deveria lembrar. Amigos partem. Sonhos que não realizámos já não vão realizar-se. Há luto legítimo nisto tudo, e há dias mais difíceis que outros.
Mas até no luto há amadurecimento possível. Tenho aprendido, ainda estou a aprender, que posso sentir tristeza sem ser destruído por ela. Posso reconhecer a perda sem me definir pela perda. Esta capacidade de conter emoções difíceis sem fugir delas nem ser consumido por elas vai-se desenvolvendo com os anos, ainda que nem sempre de forma linear.
A liberdade escondida nos anos dourados, descobri, é a liberdade de ser cada vez mais autêntico. Já não preciso tanto de usar máscaras sociais. Se algo não me interessa, começo a conseguir dizer "não" com menos culpa. Se alguém me decepciona, posso distanciar-me com menos drama. Se quero passar a tarde a contemplar as árvores pela janela, faço-o sentindo cada vez menos que estou a "desperdiçar tempo".
Porque vou compreendendo: nunca houve tempo a desperdiçar. O tempo simplesmente é. E cada momento vivido com presença plena, mesmo que seja "apenas" a observar o pôr do sol, é um momento de vida autêntica.
Pergunto-me frequentemente: que conselho daria ao jovem envolvido em projetos editoriais? Provavelmente diria: "Aproveita a tua força, mas não te apegues a ela. Celebra a tua beleza, mas não construas a tua identidade sobre ela. E prepara-te, o melhor ainda está por vir, ainda que de formas que não consegues imaginar."
Porque a verdade surpreendente que tem emergido neste processo é esta: cada fase oferece possibilidades únicas de crescimento, de descoberta, de libertação. Não porque tudo seja fácil ou agradável, mas porque há uma qualidade diferente de profundidade disponível quando paramos de lutar contra o que somos e começamos a habitar plenamente onde estamos.
Envelhecer é inevitável. Amadurecer é um processo, por vezes desafiante, muitas vezes surpreendente, mas profundamente gratificante. E entre estas duas palavras reside toda a diferença entre viver os últimos anos em amargura ou em plenitude.
A escolha, como sempre, é nossa. E o caminho, felizmente, pode ser percorrido com leveza.
Alberto Melo
Gestor de Projetos Editoriais | Ineditar

