Relações abusivas

 

Falamos no crime da violência doméstica nos jornais, na rádio, na televisão… Mas será que estamos sensibilizados e consciencializados o suficiente enquanto sociedade para o que este fenómeno implica? A minha resposta é um rotundo não. Enquanto houver mulheres mortas por alguém que as diz amar, por situações de ciúme doentio (que a justiça descreve como crimes passionais), por violência em estado puro e de completo descontrolo, temos nas mãos  um problema ainda bem complexo e de contornos bem escuros por resolver.

Quando era muito pequena fui vítima de bullying, muito antes desse conceito ter sido introduzido em massa no nosso léxico gramatical. Agressões físicas e verbais tornaram-se a minha realidade quotidiana e eu não sabia como reagir porque tudo o que aprendia na catequese era “Jesus Cristo deu a outra face”, ou seja tudo o que ouvia apelava a que eu não me defendesse e tentasse a todo o custo ser pacifista dentro do meu próprio problema. A minha família finalmente descobriu o que se estava a passar comigo e o meu pai foi à escola pedir para a pessoa em questão que parasse de me bater.

Isto teve consequências muito profundas na minha autoestima e autorreferenciação. Nunca me sentia boa o suficiente, apesar de os resultados escolares serem no geral muito satisfatórios. Fiz uma grande amiga, lutava por ter notas máximas, mas mo meu interior sentia-me sempre a intrusa porque era como se não fosse nunca bem acolhida no seio do grupo. Nas aulas de Educação Física, em que tinha dificuldades motoras (chegava a chamar-me de “deficiente” era a última a ser escolhida para formar grupos de jogo. Para trabalhos de ciências sociais e humanas era sempre a primeira, porque eu sabia como os fazer. Conto isto sem qualquer mágoa, no fundo todos estamos apenas a tentar simplificar a nossa vida e a trabalhar fazendo o melhor que sabemos.

Cheguei a uma fase em que tanto a nível corporal quer como nível mental me sentia em ruínas como Pártenon. Se em criança era “deficiente”, agora em jovem adulta era taxativamente diagnosticada como doente mental. Como se enfrenta a vida com um prognóstico tão cinzento como este? Eu respondo: vivendo um dia de cada vez, tentar não pensar demasiado nem sofrer por antecipação e escutar bem o que nosso corpo tem para nos dizer. A nossa fisiologia, se estivermos bem conectadas a ela, é muito sábia e diz-nos quando devemos comer, quando nos devemos mexer e quando é a hora de dormir. É só quando há uma desregulação no fluxo vital e nos ritmos circadianos, na minha opinião, que surgem as chamadas doenças mentais e o “bailado da alma” como refere J.L. Pio Abreu anda desequilibrado, fora do compasso.

Que posso eu dizer sobre relações abusivas que já não esteja explícito por toda a Internet? O abuso é uma forma de crueldade que não tem explicação, que deixa feridas na alma bem mais profundas do que as feridas carnais. Ao ouvir a canção de Abby Anderson ( nascida a a 10 de Março de 1997, de Southlake, Texas) identifiquei-me bastante. Chama-se “Bad posture” e acho que todas as mulheres se podem rever nela. Quem nunca se encolheu fisicamente ao ser vítima de assédio indesejável, quem nunca diminui o seu brilho para não intimidar uma outra pessoa, quem nunca sofreu na pele e na alma por se querer libertar e ouvir apenas em resposta que nunca será ninguém, que essa pessoa é que é o seu dono e sabe o que é melhor para ela? Esta tentativa de manipulação mental tem em inglês o nome de gaslighting,  é uma forma de abuso emocional em que o agressor dá informações ilusórias ao alvo, cria uma falsa narrativa  e faz-lho questionar os seus juízos de valor, raciocínios e mesmo até a sua própria realidade.

Ao deixarmos que nos pisem desta maneira, não veremos que as grades da nossa gaiola dourada já estão abertas de par em parte e só temos de sair do nosso próprio caminho para voar da relação para fora, como tanto queremos e merecemos. Podemos levar connosco traumas e cicatrizes mas abdicamos do estatuto de vítimas, passamos a ser sobreviventes, saímos vitoriosas.

Paula Gouveia

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