Reflexões de final do ano

 

O ano de 2021 aproxima-se do fim e é altura de se começarem a fazer balanços de perdas, ganhos, o que correu bem, o que correu mal, o que nos trouxe satisfação e o que nos abalou até ao âmago. É uma fase estranha em que se, por um lado nos confrontamos com as nossas limitações, também por outro queremos ser otimistas e ter esperança. Elaborar uma lista de resoluções para o novo ano continua a ser uma prática comum e muitas delas continuam a não funcionar.

Olho para a lista de resoluções que fiz para 2021 e fico triste porque não consegui cumprir de forma resoluta nenhum item. Não me tornei mais organizada, não aprendi a tocar viola, não me tornei fluente em italiano, não traduzi os meus livros de poemas e letras de canções de inglês para português e só publiquei um livro em papel, o resto continua em formato digital. Para completar este cenário menos positivo, no último trimestre do ano os meus problemas de saúde mental agravaram-se (doença bipolar acompanhada de um quadro de ansiedade) e tive de ser internada num hospital psiquiátrico um mês.

Seria fácil fazer um balanço bastante pessimista de um ano assim, em que o mundo continuou doente, em que lutei com a minha saúde mental sem ter tréguas e acabei a sentir-me derrotada, indefesa e mesmo aniquilada perante forças tão poderosas. No entanto, mesmo no cenário mais negro há sempre uma parte do nosso cérebro que se bate por ver um pontinho de luz, que mesmo afundado em problemas, tenta focar-se o suficiente para encontrar soluções.

É fácil sentirmos frustração quando as coisas não acontecem como o planeado e não fazemos tanto como gostaríamos. É uma sensação verdadeiramente angustiante sentir que não somos o suficiente. Como tal, o meu objetivo neste artigo não é falar sobre ferramentas de organização, sobre quais planos são realistas ou outros são sonhar demasiado alto (até porque ninguém o sabe, só quando chega o final do ano e os balanços são feitos). O que verdadeiramente quero dizer é que apesar de muito do que fazemos poder estar relacionado connosco e ter uma grande parte do nosso coração, nós não somos isso. Não na nossa totalidade, pelo menos. Somos o suficiente para as pessoas que nos aceitam e nos amam justamente com a nossa personalidade que temos: virtudes, qualidades, defeitos e imperfeições (que toda a gente tem invariavelmente).

Como tal, o meu maior desafio é o de não encarar as rejeições e falhas pessoalmente, ou seja, não permitir que abalem a minha autoestima e confiança em mim mesma. Só porque não teve muito energia este mês, por exemplo, não quer dizer que se sentirá sempre assim. Tudo na vida é cíclico e a beleza do ser humano é a capacidade de se renovar como as flores.

Trace os seus objetivos, tenha ambição, seja sensível e olhe à sua volta. E lembre-se, se a vida der voltas e tiver de fazer um desvio no percurso (como me aconteceu a mim), o sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo.

Paula Gouveia