Quando não está tudo bem

 

É normal iniciar-se uma conversa com conhecidos ou amigos a perguntar “está tudo bem?”. A resposta que costumamos ouvir do outro lado é “sim, está” ou “vai-se andando”. Por vezes somos capazes de detetar um sorriso forçado, mas raramente temos coragem de nos alongar, afinal já cumprimos os padrões aceitáveis de sociabilidade e é um facto assente que toda a gente tem problemas. Mas o que fazer quando não está tudo bem? Quando nos sentimos desprovidos de razão de viver e o nosso mundo está em ruínas? É para essas pessoas que vou escrever as linhas seguintes.

Primeiro que tudo, é preciso ter em mente que todos temos tendência a escamotear o sofrimento, a não expressar o que realmente nos preocupa em determinados momentos da nossa vida. Temos uma reação evitativa e não encaramos a realidade. Todos somos culpados disso em maior ou menor grau. Com isto quero dizer que nos tornamos desconfiados, temos vergonha ou pudor, medo da perceção dos outros, de parecer frágeis e vulneráveis. Assim, atamos o nosso melhor sorriso com fita cola e tentamos ir em frente porque a vida é um espetáculo que tem de continuar.

Mas, a qualidade de vida importa. A forma como nos sentimos (se bem ou mal) importa. Nós importamos. E por vezes o mundo pode parecer um lugar demasiado cruel, frio e indiferente à nossa dor ou então inundado de positividade que nos é tóxica porque não a sentimos como verdadeira. As gargalhadas soam a falso, as frases motivacionais parecem autênticos chavões e a sensação de desorientação é aguda e paralisante.

Em segundo lugar, é preciso entender que não estamos sozinhos. As mortes por suicídio têm vindo a disparar ao redor do globo por um motivo e cada um sofre à sua maneira. Podemos sentir que nunca ninguém vai compreender o que estamos a passar, mas em termos práticos é muito provável encontrarmos quem não só compreenda perfeitamente como já tenha vivido na pele ou testemunhado de perto situações bem piores. A intensidade da nossa dor pode ser esmagadora mas temos de pensar que se há quem dê a volta possível às situações mais inimagináveis (como abuso sexual, violência doméstica, morte de um filho) também nós somos capazes de o fazer.

Nesse sentido, quero introduzir a necessidade de procurar ajuda. Por um lado temos a Psiquiatria, que com a prescrição de medicamentos procura aliviar sintomas e trazer algum conforto para ajudar a pessoa a se reerguer. Mas por vezes a medicação por si só pode não ser suficiente e torna-se necessário apoio psicológico para ir à raiz dos problemas. Ainda há infelizmente preconceito contra a terapia mas temos de perceber que tem uma base científica. Se é socialmente aceite irmos a um nutricionista para aprender a comer melhor e fazer uma reeducação alimentar, porquê ir a um psicólogo tem de ser sinónimo de se ser maluquinho(a)? A psicoterapia dá ferramentas essenciais de autoconhecimento, ensina a pensar em nosso benefício, a construir a nossa vida com confiança, maior autoestima e esperança no futuro. Pode ser complementar a sessões com um coach que vai orientar de forma muito acionável para os objetivos imediatos da pessoa. 

Pessoalmente, apesar de sempre ter tido muita vontade de viver e muito medo de morrer, consigo entender através da minha empatia e compaixão o que passa pela cabeça das pessoas que pensam que a morte é a única saída possível. Já me senti muitas vezes em encruzilhadas na vida, numa angústia profunda sobre que passo dar a seguir, sem conseguir lidar com traumas do meu passado e incapaz de lidar com sentimentos de ansiedade e pânico. Como tal, tenho afinidades com todos aqueles que se sentem no fim da linha porque acredito que nada do que é humano nos é realmente estranho.

Por mais cliché que pareça, devemos escutar a nossa voz interior e manter um viés otimista porque é algo que nos irá sempre favorecer a curto, médio e longo prazo. Simplificar a vida pode não ser tarefa fácil mas é a melhor maneira de sair da nossa própria cabeça e vale mesmo muito a pena. Rodear-nos de natureza, ir à praia, ao campo, à floresta, são formas de recuperar alguma serenidade, de bloquear os ruídos do mundo e observarmos a vida grandiosa diante dos nossos olhos.

Estar alerta, consciente e sensibilizado, cuidar de nós, dos nossos e da nossa comunidade é a melhor forma de tratar condições como a depressão e de derrubar estigmas, ao acreditar que tudo pode ser relativizado e tratado.  Dá trabalho mudar paradigmas mas é tão gratificante quando podemos ajudar alguém, a começar por nós mesmos! E depois vem aquela sensação maravilhosa, indescritível, de estar exatamente onde devemos, onde é suposto estar.

Paula Gouveia

 

Imagem retirada de:  https://unsplash.com/photos/LhNcIFse95A