Parar e cheirar as rosas

 

O tempo escasseia e estamos sempre a queixar-nos de não o termos em quantidade suficiente para fazer tudo aquilo que precisamos e gostamos. Avançamos quase como em piloto automático, desdobrando-nos em vários projetos pois foi-nos incutido desde cedo que o tempo é dinheiro e o recurso mais valioso que temos. Muitas vezes pesamos sob o peso da fadiga e ficamos como que entontecidos pelo ritmo incessante da vida que levamos, como moscas encadeadas pela luz.

O nosso recurso mais valioso não está nas posses materiais mas sim na nossa saúde, no direito inalienável que temos de viver e tentar ser felizes. Como diz um ditado muito conhecido, se algo nos custa a nossa paz interior, então o preço a pagar é caro demais. Todos temos diferentes capacidades e dons que podemos usar não só para melhorar a nossa condição de vida mas também para servir os outros. A vida ganha uma dimensão mais profunda quando sentimos que tem um propósito nobre, que ultrapassa as nossas angústias e dilemas individuais e é maior do que nós.

Podemos ter todo o conforto financeiro que o mundo possa oferecer mas se não contamos com uma rede de afetos sólida e estável, rapidamente chegamos à conclusão que algo está em falta. Um vazio que não se preenche com nada que um cartão de crédito possa comprar, algo que nos atormenta e não nos deixa sentir realizadas. Somos pessoas que precisam de outras para se sentirem preenchidas, compreendidas e amadas.

É desoladora a sensação de não ter nada, apesar de aparentemente termos tudo. Somos como hamsters a pedalar continuamente numa roda, a fazer tudo o que é suposto e que esperam de nós, mas a plenitude e a felicidade permanecem conceitos elusivos, com que apenas podemos sonhar.

Habituámos-mos a pensar que o que move os outros tem de ser também o nosso combustível na vida, vivemos com pânico de ser ultrapassados ou ainda pior que isso, ficar para trás numa corrida que ninguém sabe muito bem aonde vai desembocar.

Habituámo-nos a depender de fatores externos para nos sentirmos validados: a nossa aparência física, os nossos feitos e conquistas profissionais, a aura de sucesso que nos envolve. Queremos ser vistos de forma favorável pelos outros mas muitas vezes esquecemo-nos de olhar para nós mesmos com olhos de ver e escrutinar a nossa própria alma. Negligenciamos ou silenciamos lados de nós que gritam por ser ouvidos e só quando perdemos a saúde é que percebemos que o nosso corpo, a nossa mente e o nosso espírito têm limites que temos de aprender a respeitar.

A felicidade vem da clareza de objetivos, do entendimento de quem somos e da confiança que temos em nós, na Humanidade e na vida em si. Confiança, que etimologicamente deriva do latim “condifere” e remete para acreditarmos em algo com firmeza. A sua componente “fidere” significa acreditar, crer ,e deriva da palavra fé. Avancemos então com fé rumo a um novo amanhã e quando o mundo nos pedir demasiado, que tenhamos a coragem de abrandar. De parar para cheirar as rosas que encontramos no nosso caminho porque se o foco da nossa jornada for apenas a meta final, não saberemos apreciar todas as benesses que nos rodeiam. De parar para cuidar do nosso jardim porque o nosso corpo é precioso, é o templo da nosso espírito e não é possível que flores bonitas cresçam num terreno desmazelado, com ervas daninhas. De parar para agradecer por cada dia que nos é dada a possibilidade de viver e honrar essa oportunidade, independentemente de seguirmos ou não uma religião organizada.

A felicidade vem dos dias simples, junto daqueles que amamos, a aproveitar cada momento com o coração leve e tranquilo. De trautear uma melodia no duche, de tentar fazer pão de banana ou ajudar uma pessoa invisual a atravessar a rua, por exemplo. De sonhar, ter esperança e voltar a levantar-se mesmo quando a vida nos derruba. De sacudir a poeira e ousar fazer as coisas de forma diferente e  tentar novamente.

A felicidade vem de querer mais, não de uma maneira que nos faça sofrer por antecipação ou durante os nossos processos de crescimento, mas de acreditar que não nos temos de conformar com uma realidade que é injusta, que podemos e devemos lutar por um mundo melhor, em que vivamos para facilitar o dia-a-dia dos outros e para os fazer sorrir e não o contrário. É perceber que a vida não é uma competição, que às vezes vamos ganhar, outras vezes perder, que haverá muitos altos e baixos, mas que tudo deverá ser aceite com naturalidade.

Se pararmos para pensar, para estarmos connosco mesmos, para tentar encontrar sentido para os nossos passos, os dias começam a ser mais luminosos. O sol volta a brilhar para nós. Fazer aquilo que nos dá alegria, como tocar no rosto de um ser querido ou abraçá-lo, é o que realmente não tem preço, especialmente em tempos tão estranhos e incertos como estes que vivemos atualmente. Por isso, pare um bocadinho hoje e cheire as rosas que estão no seu caminho, reconheça e valorize-as. É aí que está a nossa verdadeira riqueza.

 

Paula Gouveia

 

Crédito da foto: https://unsplash.com/photos/PRrpqfh-5U0