O valor da vida e a importância de falar sobre suicídio

 

Como se define uma vida humana? Quanto pesa? Quanto custa? Creio que não há respostas claras para estas perguntas que nos apoquentam com frequência, que nos tiram o sono e nos fazem colocar em causa o sentido de tudo.

Ontem tentava desesperadamente encontrar uma sandália desaparecida, quando uma amiga me contou que uma pessoa conhecida dela, que sempre a tinha tratado com muita gentileza e simpatia, tinha acabado com a própria vida. De súbito, quando recebemos a notícia de uma morte, é como se o mundo parasse por uns segundos. Nada mais importa, os problemas relativizam-se de imediato.

Percebemos o quão insana é a velocidade incessante com que vivemos, como nos deixamos preocupar pelas coisas mais significantes e também percebemos, infelizmente, o quanto podemos ser impotentes perante o sofrimento do outro. Que afinal conhecemos tão pouco quem está ao nosso lado, que nem sempre sabemos reconhecer um pedido de ajuda.

Não podemos presumir que conhecemos os motivos pelos quais alguém decide optar pelo suicídio. Não podemos julgar pois não somos moralmente superiores a ninguém.  Podemos apenas sentir. Perdoem-me se as minhas palavras tocarem nalgum ponto sensível dentro de vocês  e despertarem algum gatilho de autodestruição, é essa a última das minhas intenções.

Creio que há maneiras mais apropriadas de falar sobre as coisas, mas o medo de não dizer as palavras certas não nos deve impedir de falar porque só o diálogo aberto, em comunidade, pode retirar o estigma à doença mental em geral e ao suicídio em particular. É por isso que importa dizer o que nos vai na alma porque a sociedade, na minha opinião, falha de alguma maneira a quem decide partir, num derradeiro abandono que nos priva da sua presença, da luz de uma vida.

Como tal não se deve falar do suicídio apenas no mês do Setembro Amarelo pois as pessoas suicidam-se todos os dias, não deve ser um assunto sazonal, deve ser uma reflexão diária. Como podemos melhorar a nível global e pessoal para darmos a mão a essas pessoas?

É um facto que justamente quando mais precisamos, é quando se torna mais difícil apaziguar a dor que nos consume. É quando ninguém parece disponível, não sentimos mais prazer nem bem-estar até ficarmos meio que entorpecidos, sem esperança, sem sonhos. Os medos apoderam-se da nossa mente e cegam-nos com crenças que não nos deixam ver uma forma de continuar.

Muitas pessoas que já tentaram acabar com a vida referem um ponto em comum: não queriam efetivamente deixar de viver, queriam deixar de sofrer. Infelizmente, as feridas profundas não saram num piscar de olhos ou bater de palmas. Exigem muitas vezes um trabalho interior profundo, arrancar pensos rápidos e deixar que o desconforto se vá diluindo aos poucos, até que não haja mais dor.

Quando estamos em modo piloto automático tomamos comportamentos evitativos: não queremos encarar as raízes da nossa infelicidade, fazemos os possíveis para tratar sintomas e ignorar as causas. Mas somos seres que precisam de se sentir plenos e integrar todas as experiências que vivem num todo maior, sob pena de sentirmos sempre um vazio de quem tem muitas peças em falta.

Temos em primeiro lugar de aceitar que não somos perfeitos e que apesar de todos sermos iguais, também todos somos diferentes. Diferentes até da própria versão que sonhamos para nós mesmos. Conceitos como fé, força ou coragem podem parecer abstratos e sem significado a quem considera encontrar-se no fim da linha. Mas são a única coisa a que nos podemos agarrar para mudar a nossa realidade para melhor.

Se está com pensamentos suicidas, há várias linhas de crise e apoio psicológico ao seu dispor bem como do serviço nacional de saúde, cujos links colocarei em baixo:

 

Contactos de Saúde Mental – Infância e Adolescência

Linhas de Crise

 

Aconselhamento psicológico no SNS 24

 

Comecei este artigo interrogando-me quanto custa uma vida humana. Viver é o maior privilégio de que temos conhecimento. Viver bem, não só fisicamente mas mentalmente, é o maior dos luxos. A qualidade de vida não tem preço. Não abra mão da sua.

 

Imagem retirada de: https://unsplash.com/photos/_AdUs32i0jc

Paula Gouveia