XX Torneio Internacional de Basquetebol em Cadeira de Rodas

 

O XX Torneio Internacional de Baquetebol em Cadeira de Rodas realiza-se no dia 9 Outubro, das 8h15 às 18h15  e no dia 10 de Outubro das 8h15 às 14h00, no Pavilhão Municipal Casal Vistoso, localizado na Rua João da Silva, 20, em Lisboa.

Nele participam a equipa organizadora, a APD Lisboa, o Campeão Nacional- APD Braga e mais duas equipas nacionais, APD Sintra e APD Alcoitão. O torneio conta ainda com a participação especial da equipa de Odivelas BC-SIMEQ.

Em comunicado oficial, a Associação Portuguesa dos Deficientes afirma “É intenção da APD que este Torneio, venha mais uma vez a constituir um acontecimento desportivo e a sensibilizar a população para as potencialidades do desporto praticado pelas pessoas com deficiência”.

 

Petição para alargar o período de luto parental: “Luto de uma vida não cabe em 5 dias”

 

A dor da perda de um filho é esmagadora, totalmente contra natura. Na lei está estabelecido que os pais têm cinco dias consecutivos para voltar ao trabalho após este acontecimento tão traumático. A associação Acreditar- Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro, lançou uma petição que propõe um período de alargamento de luto pela perda de um filho para vinte dias.

Nos documentos da petição enviados ao Presidente da Assembleia da República, a Acreditar, representada por João de Bragança afirma:

“Nenhum luto é igual a outro luto, porque cada um de nós é diferente do outro: há a fé, o sentido que damos às coisas, a rede social ou familiar, as circunstâncias do drama. Mas do que estou certo é que cinco dias – o tempo que o Estado nos dá para regressarmos ao trabalho após a morte de um filho – será manifestamente pouco. Em cinco dias faz-se o imediato, o urgente, tantas vezes o burocraticamente inadiável. Damos uma camada de tinta à alma e ao corpo, não lhe damos novas fundações. Não nos preparamos para o futuro, por absoluta falta de tempo”.

Bragança acrescenta: “O luto pela morte de um filho, cujos contornos estão referidos no texto da petição, não pode tornar-se num exercício repentista excessivamente condicionado pelo prazo. Há 20 anos tive cinco dias para regressar ao trabalho após a morte da minha filha de 7 anos. Serviram para pouco, para quase nada”.

  A perda de um filho é considerada uma das experiências mais dolorosas que o ser humano pode viver, pela sua natureza incompreensível e devastadora. O luto por um filho pode ser mais prolongado de que outros lutos e durar toda uma vida, associando-se a sintomas de depressão, stress pós-traumático, risco elevado de suicídio e necessidade de hospitalização psiquiátrica. Os sintomas estão mais presentes nos primeiros meses mas podem manifestar-se vários anos após a perda. Os pais enlutados apresentam ainda taxas de mortalidade tendencialmente superiores, quer devido à redução de saúde física quer da saúde mental.

O Código de Trabalho não pode contemplar a universidade das situações nem abranger um tempo indeterminado de faltas por motivo de falecimento de um filho. No entanto, revela-se evidente, segundo os psicólogos Mauro Paulino e Sofia Gabriel, que “o prazo de cinco dias é manifestamente insuficiente para a intensidade do trauma de perder um filho. Inclusivamente, a morte de um filho é acompanhada de inúmeras outras perdas, como a perda das expectativas para o futuro”.

Os pais nesta situação ficam profundamente fragilizados, emocionalmente destruídos e à luz da ciência, está comprovado, na generalidade, que não têm condições de assumir capazmente em tão curto período de tempo os seus deveres laborais.

É importante que os pais recuperem um sentido de identidade, que lidem com possíveis sentimentos de frustração, revolta e impotência, como a sensação de que falharam ao cuidar dos seus filhos. Numa dor que não se pode descrever por palavras, cabe aos pais encontrar novos significados e envolverem-se em rituais que possibilitem uma maior sensação de proximidade emocional e simbólica ao filho perdido.

É fundamental haver mais empatia, mais compreensão, para que possamos salvaguardar o bem-estar destas pessoas e apoiá-las nesta fase tão delicada das suas vidas.

 

Crédito da imagem: https://unsplash.com/photos/cQ-66Evaf5g

A contaminação das ciências sociais num “mundo aos quadradinhos”

 

Vítor Sérgio Ferreira

 

Não sei se o meu corpo está contaminado por COVID-19 quando escrevo este artigo. Mas sei que, inevitavelmente, este vírus veio contaminar os mundos de vida de tod@s @s cientistas sociais, desde as formas de organização do trabalho científico e de conciliação entre trabalho e família, até à forma como moldam os objetos de estudo e se relacionam com @s interlocutores nos respetivos terrenos. Não há tema nem pessoa que não experimente alguma forma de contaminação social e simbólica pelo COVID-19, esteja ou não biologicamente infetada.

As situações de confinamento físico e de suspensão de uma vida quotidiana naturalizada e rotineira com que a pandemia nos defronta, constituem novos desafios na vida pessoal e social que impulsionam novas linhas de investigação, não apenas em termos de objetos de estudo, mas também de aproximações teóricas e de desenhos de pesquisa.

O COVID-19 contamina a vida social e, por esta via, as ciências sociais, nas suas teorias e métodos. Preparemo-nos conceptualmente para ele, pois a sua presença, senão física certamente no nosso imaginário, contaminará falas e gestos, formas de pensar e de proceder dos nossos interlocutores, sejam eles individuais ou coletivos. O COVID-19 é já uma realidade vivida por tod@s, de forma diversa e desigual, e continuará a ser durante um longo tempo.

Viveremos uma época pós-COVID? Talvez. Talvez venha a constituir aquele marcador geracional que virá a coligir as várias letras (Y, X, Z…) e categorias que se têm multiplicado para qualificar os jovens e crianças de hoje como geração distinta das suas predecessoras. Talvez venha a constituir um acontecimento condensador das diversas “crises” que têm atravessado recentemente as sociedades neoliberais, um evento estrutural e globalmente disruptivo, cujos impactos serão sentidos como um ponto de viragem nas formas de experienciar os percursos de vida dos que, daqui para a frente, mais tempo terão para sentir os seus efeitos. Dependerá da intensidade que virá a atingir, e das resistências das várias economias e democracias.

Apanhados desprevenidos, neste momento há que pensar como reformular as nossas questões de partida, como readaptar as nossas abordagens e hipóteses teóricas, como continuar os nossos caminhos de pesquisa por forma a acolher a inevitável contaminação simbólica e social dos nossos objetos de estudo pelo COVID-19, e integrá-la nos nossos dispositivos de compreensão, explicação e observação do mundo.

Não há que parar a pesquisa quando parece que o objeto de estudo deixou de fazer sentido, quando o terreno aparenta ter desaparecido. Dei conta disso quando uma investigadora que trabalha num projeto de pesquisa sobre formas de existência e de resistência dos jovens perante o intenso processo de turistificação de Lisboa e de Goa, me mostrava o seu desalento perante o eventual desaparecimento do seu objeto e terreno. O que fazer?

Não vale a pena parar, a não ser para pensar. Urge acompanhar como os nossos objetos de estudo e questões de pesquisa se vão configurando durante a pandemia. Urge olhar para o momento presente e ver como podemos continuar a observar os nossos terrenos, criando e acionando dispositivos metodológicos que nos permitam observar a partir de casa.

Dei comigo a olhar pela janela e a pensar se poderíamos recuperar esse dispositivo de observação tão treinado por vizinhas e vizinhos, de ficar à janela a ver quem passa e o que se passa. Pode ser. Mas seria um foco muito limitado e limitante no alcance que poderia proporcionar. Como comentava uma amiga a quem dei a ler uma versão deste texto, à janela vemos apenas as sombras de quem passa no nosso ângulo de visão. Podemos descobrir o olhar inquieto, o corpo que segue numa atitude contida, como que procurando proteger-se do inimigo invisível, omnipresente, mas não temos acesso àquele que é, nesta fase, o contexto mais significativo da sua experiência social: a casa, onde nos obrigamos a permanecer confinados.

Todavia, temos hoje muitas outras janelas de oportunidade que atravessam as paredes de nossas casas sem ter de sair, janelas que também nos permitem ver de perto, escutar ativamente, perscrutar realidades além do nosso campo de visão doméstico e imediato. É hora de respeitar também metodologicamente a necessária distância proxémica, e de sermos criativos nas formas de aproximação aos objetos e sujeitos de estudo.

Hoje, mais do que nunca, os cientistas sociais estão a viver um mundo aos quadradinhos através das várias janelas que os fazem comunicar com o mundo exterior, familiares, estudantes, colegas de trabalho, etc. Então, e por que não também comunicar com os nossos interlocutores? Desde o Windows ao Zoom, do Skype ao WhatsApp, dos vários canais de TV às várias redes sociais, dos websites e às diversas plataformas digitais, estes são alguns dos dispositivos tecnológicos que temos à disposição para comunicar, para aceder a informação importante para as nossas pesquisas, e para acompanhar a contaminação dos nossos temas por efeito da pandemia.

Enfim, a partir de casa temos todo um manancial de janelas e de dispositivos que nos permitem acompanhar, observar e interagir longitudinalmente com uma realidade que se alastra por todas as esferas da vida das pessoas e do planeta. Fazer entrevistas ou grupos focais online, num período onde talvez as pessoas estejam com mais tempo e disponibilidade de falar de si e do que estão a viver. Observar como falam e se organizam no Facebook, como aparecem visualmente no Instagram, como os temas são designados através de hashtags, como são abordados nos meios de comunicação social e nas redes sociais…

Todo um mundo aos quadradinhos que, a partir de casa, nos possibilita compreender as atuais cosmogonias e agonias, testemunhar experiências e vivências, acompanhar as mudanças em que as pessoas se veem conjunturalmente implicadas, mas que, mais à frente, poderão resultar em transformações estruturais dos seus padrões de atitudes, valores, representações e comportamentos sociais quotidianos.

Estamos perante um acontecimento histórico sem par, o qual é nossa responsabilidade, enquanto cientistas sociais, acompanhar e integrar nos projetos que presentemente temos em mãos, pois estes com certeza não serão os mesmos que havíamos previsto quando os construímos, depois do momento que o mundo está a passar.

Mas estamos também perante um excelente laboratório para a captação de tendências sociais emergentes em várias dimensões da vida quotidiana. Trata-se de uma experiência onde cada um de nós pode ser, simultaneamente, sujeito e objeto, e que nos deve desafiar, enquanto cientistas sociais, quer de um ponto teórico – estimulando a criação de novos conceitos para a compreensão e explicação de novas realidades – quer de um ponto de vista metodológico – ativando a necessidade de criar novos instrumentos (ou reequacionar os mais ortodoxos) e técnicas de captação, sistematização e análise dessas mesmas realidades. Há que deixar, portanto, contaminar a nossa prática científica atual pelo COVID-19. Mas só aí. Por mais que nos custe, por enquanto, também devemos manter tanto quanto possível o nosso mundo aos quadradinhos.

Vitor Sérgio Ferreira é sociólogo, investigador auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e coordenador do grupo de investigação LIFE – Percursos de Vida, Desigualdades e Solidariedades: Práticas e Políticas

 

 

 

 

 

 

 

Este texto insere-se no âmbito do Projecto “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa”, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

 

Uma história de maus fígados

 

Que há em comum entre uma vida sedentária com muita cadeira e sofá e pouco exercício, uma alimentação rica em gordura e açúcar, e a barriga grande daquele Tio que bebe demais e estraga as festas de Natal? Nada mais, nada menos, que uma história de maus fígados.

É do conhecimento geral que o excesso de álcool faz mal ao fígado. Toda a gente ouviu falar de cirroses causadas pelo excesso de consumo de álcool. Mas menos gente sabe que, mesmo em pessoas com um reduzido (ou nulo) consumo de álcool, o fígado pode ficar afetado de uma maneira muito semelhante ao de alguém com um consumo exagerado de álcool. E porquê?

Já antes da pandemia da covid-19, sabíamos que tínhamos outra pandemia em mãos. Os maus estilos de vida nos países industrializados, com vidas sedentárias, muitas vezes agarradas a ecrãs e com pouco ou nenhum exercício físico, associados a dietas deficientes, ricas em açucares e gorduras, levaram a um aumento crescente de perturbações metabólicas, incluindo o chamado síndroma metabólico, que se faz acompanhar de condições graves. Uma dessas condições é o chamado fígado gordo não-alcoólico, isto é, uma acumulação excessiva de gordura no fígado, que ocorre em situações de nulo ou reduzido consumo de álcool.

Convém abrir aqui um parêntesis e dizer que a noção de “reduzido consumo de álcool” pode ter várias definições de acordo com a pessoa que conta a história. Uma garrafa de vinho tinto diariamente para algumas pessoas pode ser uma definição clássica de reduzido consumo de álcool (não é!), daí que o termo “não-alcoólico” possa ter uma conotação dúbia em alguns círculos.

Voltando à nossa história, o que leva o fígado a acumular gordura de forma excessiva? A resposta não é linear, mas inclui a referida “vida malvada”, como diriam os Xutos e Pontapés. Em condições normais, numa vida ativa, o nosso fígado acumula apenas as reservas de gordura mínimas necessárias para o seu funcionamento diário. As principais células do fígado, chamadas hepatócitos, queimam essa gordura para gerar a energia que aquele órgão necessita. Quando temos uma alimentação muito rica em gordura e não a queimamos com atividade física, o nosso corpo guarda o excesso num tecido especializado chamado tecido adiposo. Quanto este atinge a capacidade máxima, a gordura começa a acumular-se noutros locais, incluindo o fígado. Vamos agora juntar a esta mistura uma alimentação rica naqueles doces maravilhosos das montras das pastelarias, em refrigerantes, e muitos outros alimentos ricos em açúcar. Este acrescento extra de açúcar (sacarose, no termo mais científico) leva a um aumento exagerado de gordura no fígado. E porquê? Porque a sacarose tem na sua composição frutose (exatamente, o açúcar da fruta), que, em excesso tem consequências muito graves para o nosso organismo. O excesso de frutose é rapidamente armazenado no fígado sob a forma de gordura e pode alterar igualmente a nossa flora intestinal, levando os simpáticos microrganismos que usam o nosso intestino para seu condomínio privado, a produzir toxinas que depois viajam até ao fígado e podem causar mais dano.

O aumento de gordura no fígado citado em cima será maior quanto menos ativos formos, justamente porque não temos como queimar essa fonte de energia. Temos aqui uma condição chamada esteatose, que, no seu início, é a fase benigna do chamado síndroma do fígado gordo. E nesta fase temos ainda a escolha de melhorar a nossa dieta e aumentar o exercício físico para reverter o processo. Podemos claro pensar que isto tudo dá muito trabalho e continuar a nossa vida menos saudável. O nosso fígado, com muita gordura e ainda por cima a receber toxinas de outros locais, como o intestino, pode ficar inflamado, levando à chamada esteatohepatite, uma condição bem mais severa e ainda sem tratamento eficaz. Podemos continuar a ignorar o problema, a ter os mesmos (maus) hábitos de vida, e lentamente o nosso fígado pode sofrer uma cirrose. Repare-se, falamos de fígado gordo não-alcoólico, já não é só o Tio que falámos acima que pode ter uma cirrose porque abusa do “copo”. Podemos sofrer de fígado cirrótico sem beber álcool, por estranho que pareça. Se mesmo assim, não houver juízo, uma consequência é um hepatocarcinoma (um tumor no fígado), cujo tratamento pode passar pela remoção de parte do fígado ou mesmo por um transplante. Pois, espero que tenham percebido o problema agora; ainda para mais, métodos de diagnóstico que possam ajudar o médico a identificar o problema numa fase precoce não existem.

Para aqueles ainda mais incrédulos, notem que cerca de 30% da população Portuguesa pode sofrer de fígado gordo não-alcoólico (um valor semelhante ao da União Europeia). Mais preocupante ainda, cerca de 10% (!!) das crianças até aos 12 anos podem sofrer desta condição. Imaginem o que vai acontecer quando chegaram a adultos se continuarem com um estilo de vida menos saudável.

Imaginem agora: uma pandemia que obriga todos a estarem mais tempo em casa, que tira as crianças das escolas, das suas atividades físicas e desportivas, das brincadeiras com os amigos até ao por do sol, e as cola a ecrãs de computador ou televisão o dia todo. Imaginem que os adultos saem menos de casa e fazem (ainda) menos atividade física. Isto só tende a piorar e a uma epidemia transmissível vai seguir-se uma não-transmissível ainda pior.

Para os curiosos: o projeto Europeu FOIE GRAS, coordenado pelo Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra e com vários parceiros internacionais, explora o porquê desta condição, identifica biomarcadores que permitam diagnosticar com mais exatidão a mesma, e desenvolve novos tratamentos. Para além disso produz conteúdos fantásticos para a Sociedade, incluindo duas bandas desenhadas: uma mais recente com o título “Um Fígado Equilibrado é Meio Caminho Andado!” (http://monographs.uc.pt/iuc/catalog/view/80/205/324-1)  e outra publicada no âmbito dos Jogos Europeus Universitários, que se realizaram em Coimbra em 2018 (http://www.cnbc.pt/pdf/Prancha_EUG_BD_PT_01.pdf).

Para mais informações sobre o fígado gordo ver o projecto FOIE GRAS: http://www.projectfoiegras.eu/

Paulo J. Oliveira (Bioquímico)

 

 

 

 

 

 

 

 

Este texto insere-se no âmbito do Projecto “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa”, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

 

 

A Transição Digital, a Saúde e o Covid19

Se existe um facto que esta pandemia veio trazer para a ordem do dia de todos os especialistas, seja na área da saúde ou em qualquer outra área, é o modo como os portugueses se relacionam com a internet, como pesquisam e o que pesquisam. Com a pandemia do SARS-COV-2, os portugueses passaram a pesquisar muito mais sobre questões de saúde, sejam estas ou não relacionadas com a pandemia. A saúde e o bem-estar passaram a ser o cerne das nossas preocupações quotidianas.

A utilização da internet, mais que um elemento necessário à emancipação e empowerment dos cidadãos, tornou-se num meio tecnológico vital para a procura de informação por parte da generalidade das pessoas, para além de ser atualmente um instrumento de trabalho de educação e de relação interpessoal. Sobretudo em questões relacionadas com a saúde e o bem-estar, este recurso digital tem permitido a reconfiguração de diversas aprendizagens em saúde, assim como, de rápidas alterações nos modos de relação com os clínicos, sejam eles enfermeiros ou médicos.

O século XXI é o século da transição digital. Naturalmente que quando falamos de transição digital estamos também a falar de retirar da invisibilidade social um conjunto de desigualdades sociais. Desde logo, sabemos que os mais escolarizados e os mais jovens têm uma maior apetência para a utilização dos meios de comunicação e informação digitais, assim como, para conseguir discernir melhor a informação validada cientificamente, daquela que é apenas produto do sensacionalismo e da reprodução menos correta de temas relacionados com saúde e bem-estar. Com os confinamentos decretados como modo de contenção da pandemia, emergiram do anonimato grupos de excluídos sociais. É claro que me refiro aos mais velhos, cuja relação com os meios digitais é mais limitada e aos mais pobres que apesar de poderem ter competências informáticas, a sua condição social e económica não lhes permite ter acesso aos equipamentos informáticos ou de comunicação necessários, nem o acesso às redes de comunicação considerando os custos associados aos serviços de fornecimento de internet. Milhares de pessoas excluídas tecnologicamente tornaram-se visíveis, colocando em causa princípios como o da igualdade do acesso ao ensino ou ao trabalho, em parte por incapacidade governamental em dotar estes cidadãos desses meios, tal como tinha prometido em março de 2020.

Se foi um problema de saúde global que acelerou esta transição digital que afetará todas ou quase todas as dimensões das nossas vidas, direta ou indiretamente, naturalmente que a nossa relação com a saúde e as questões de saúde não são imunes a esta transição. A transição digital chegou para ficar, exigindo de cada cidadão uma postura mais ativa.

Com esta pandemia, esta complexidade de saberes tecnológicos e relações com a informação sobre saúde, passaram a estar na ordem do dia convocando o Governo a tomar medidas mais ativas no sentido da inclusão digital e literacia digital, pois sabemos ser inquestionável o papel das tecnologias de informação e comunicação na produção e acesso à informação. Atualmente, mais que sempre a teorização de Castells sobre a Sociedade em Rede faz sentido, estando nós a ser participantes e espetadores desta revolução digital, que será também, económica, social, laboral, ambiental, de mobilidade, de ensino e aprendizagem, ou seja, uma revolução que terá ramificações e impactos em todas as dimensões das nossas vidas. Também na saúde esta mudança gerará novos modos de relação entre os cidadãos e os profissionais de saúde, alterando a relação de poderes dos papéis tradicionalmente atribuídos ao paciente e ao médico.

Vivemos tempos de mudança acelerada de paradigma que serão portadores de grandes vantagens sociais para os cidadãos, consoante a sua posição social e económica. É certo que o mundo que está a emergir desta pandemia será crescentemente diferente do anterior, cabendo aos poderes públicos e aos cidadãos, reduzir desigualdades e gerar oportunidades.

 

Rui Brito Fonseca (Sociólogo)

 

 

 

Rui Brito Fonseca – Presidente e Professor Coordenador no Instituto Superior de Ciências Educativas do Douro, em Penafiel (desde 2019). Professor adjunto no Instituto Superior de Ciências Educativas, em Odivelas (desde 2010). Doutorado em Sociologia e Mestre em Ciências do Trabalho, pelo ISCTE-IUL. É também licenciado em Ciência Política com especialização em Relações Internacionais, pela Universidade Lusófona. É desde 2000 investigador, tendo vindo a desenvolver trabalho sobre comunicação, media e compreensão pública da ciência, sobre tecnologias da informação e comunicação em saúde e sobre toxicodependências, em diversos projetos de investigação.

 

 

Este texto insere-se no âmbito do Projecto “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa”, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

 

Entrevista a Carina Romano, autora de “Valentina: “Se há amor no mundo, há esperança”

 

Carina Romano é uma jovem escritora portuguesa, que lançou a sua primeira obra “Valentina”, no final do ano passado. Com uma componente assumidamente autobiográfica, o livro fala-nos abertamente de flagelos sociais como a negligência, a dependência e os efeitos da violência doméstica, desafiando tabus e preconceitos, em situações que segundo a autora é urgente denunciar, para que as crianças e jovens possam encontrar à esperança.

Em entrevista à revista Humanamente, Carina Romano fala-nos ainda do porquê de ter escrito “Valentina”, do seu amor pelas pequenas coisas e da importância de apoiar a literatura nacional.

 

1. Para quem não te conhece, quem é a Carina Romano e como surgiu o teu percurso como escritora?

A escrita surgiu na minha infância. Sempre gostei de receber livros, de folheá-los, de lê-los de uma ponta à outra e de imaginar os cenários e as personagens. Gostava, especialmente, da sensação de deslocar-me para o interior do livro, como se estivesse lá. Sou uma pessoa simples, observadora, que gosta de uma boa conversa e de arranjar as palavras certas para descrever o que quer que seja. Fiquei deliciada pela ideia de poder partilhar mensagens através de um livro e decidi escrever a “Valentina”, que é, e será sempre, uma parte de mim, cujo objetivo é alertar, sensibilizar e promover a reflexão crítica.

2. Publicaste o teu primeiro livro, “Valentina”, em Dezembro de 2020 e assumes o teu desejo que os leitores reflitam sobre temas como efeitos de dependência, negligência, violência, amor e esperança.  De que forma consideras que a tua obra pode contribuir para que haja um maior debate sobre os mesmos?

O livro é baseado na minha história de vida que, de alguma forma, sinto que pode ajudar outras pessoas. A “Valentina” é real. Não há eufemismos. Nas 194 páginas do livro está espelhada a realidade de dias e noites. Sendo escrito na primeira pessoa, penso que pode alertar, sensibilizar e conscientizar! São abordadas, infelizmente, questões da atualidade: os efeitos da dependência, a negligência, a violência, o amor e a esperança. Precisamos de continuar a falar sobre isto. Há muitas crianças e muitos(as) adolescentes a passar por situações idênticas e que podem, através da “Valentina”, encontrar esperança. Há famílias que precisam de cair na realidade. Há famílias que precisam de orientação. A “Valentina” está espalhada pelo mundo. Ela está em muitas casas e faz parte de muitas famílias. É preciso que fiquemos mais atentos(as).

3. Em “Valentina” propões uma história que é baseada em factos reais, de uma criança da cidade do Porto que cresce sendo, nas tuas palavras ,”simples, humilde e resiliente”. Na tua opinião, como se cultivam estas qualidades essenciais mesmo quando a vida nos traz dificuldades, dores e desafios variados? 

Defino-me dessa forma porque me adaptava às circunstâncias. Doía-me, mas adaptava-me. Encontrava formas de abstrair-me daquilo que queria que acontecesse e aceitava a realidade para não sofrer ainda mais. É estranho, mas era aquilo que acontecia. Não julgo com facilidade. Não critico com facilidade. Gosto de ouvir as pessoas e consigo calçar-lhes os sapatos, mesmo sabendo que não me pertencem. Gosto de coisas simples e sinto-me ligada às pessoas. Reconheço o valor das pequenas coisas.

4. Chamas a atenção no teu instagram  (carinaromano.mybooks) para o problema da violência doméstica. Como vês a evolução dos números neste país e que mensagem gostarias de deixar a uma pessoa que esteja a viver ou tenha acabado de passar por este tipo de situação?

A violência doméstica não é um animal de estimação. Ela não pode fazer parte do dia-a-dia de ninguém. Façam queixa! Existem formas fáceis de denunciar. A violência, seja ela qual for, porque existem diferentes tipos de violência e nenhum é menos relevante do que outro, não é uma forma de amor. Nunca foi e nunca será. Não proporcionem momentos negativos às crianças. Elas vão crescer e não queremos que cresçam com complicações no que respeita ao desenvolvimento. Todos(as) temos o direito de ser felizes. Não deixemos que ninguém se julgue no direito de roubar-nos a felicidade.

Se conhece alguém que esteja a passar por situações de violência, denuncie! É um crime público.

Acrescento, ainda, que nas escolas é necessário haver um trabalho de sensibilização e conscientização face ao que é esperado, ou não, numa relação.

5. Voltando à escrita, lançaste uma edição de autor e incentivas os aspirantes a escritores a tirarem os seus originais da gaveta. Como vês o panorama da escrita e da cultura num sentido mais lato em Portugal e de que maneira consideras que podem ser um refúgio no período pandémico que estamos a atravessar?

Em Portugal há, ainda, uma notória desvalorização dos(as) autores(as), sobretudo daqueles(as) que escrevem um livro pela primeira vez, que são aqueles(as) que mais precisam de apoio. Há, ainda, concordando com as palavras da autora Helena Magalhães, um grande apego à literatura clássica, que não é o que a maioria dos(as) jovens quer ler. As editoras, na minha perspetiva, precisam de refletir sobre os(as) leitores(as). Julgo que a existência de uma diversidade de géneros literários é um fator muito positivo no que respeita à promoção dos hábitos de leitura. Portugal é um país que lê muito pouco, pelo que é realmente necessário refletir sobre estratégias de incentivo à leitura.

A pandemia que estamos a viver deixa-nos, de alguma forma, isolados. Os livros são, sem dúvida alguma, não apenas uma companhia que nos permite aprender e exercitar a mente, mas deixar-nos mais próximos(as) de algumas realidades. O livro é um(a) amigo(a). Precisamos de ler! Não deixem os livros nas gavetas! Não deixem de escrever!

Se há amor no mundo, há esperança.

Eu rastreio, tu rastreias, ele rastreia… Porque somos todos agentes de Saúde Pública

Num mundo pré-pandemia, um nariz ranhoso seria, provavelmente, uma constipação e a febre com dores no corpo uma gripe que resolvíamos com um ou dois dias de cama. Os sintomas não mudaram muito, mas o que eles podem significar sim.

Febre ou tosse passaram a ser sintomas suspeitos de quem possa estar infetado com o coronavírus e se tiver dois ou mais sintomas combinados, como nariz entupido, dores de garganta, dores de cabeça, dores no corpo ou cansaço extremo, também, como defende a Organização Mundial de Saúde (https://www.who.int/publications/i/item/WHO-2019-nCoV-Surveillance_Case_Definition-2020.2) e os Centros para o Controlo e Prevenção da Doença norte-americanos (https://wwwn.cdc.gov/nndss/conditions/coronavirus-disease-2019-covid-19/case-definition/2020/). A estes ainda se podem juntar a perda de olfato ou a perda de paladar, dois que não deixam muitas dúvidas sobre qual será a causa.

Se dantes desvalorizávamos aquela febre que vinha num dia e passava ou as dores no corpo, mesmo que não encontrássemos motivos para as ter, agora precisamos, mais do que nunca, de ouvir o que nos diz o nosso corpo com atenção. O vírus SARS-CoV-2 pode ter arranjado maneira de nos encontrar (entenda-se, infetar) e, mesmo que não nos faça ficar doentes, vai usar-nos como meio de transporte para chegar a outras pessoas, algumas delas que poderão não aguentar tão bem a doença.

Se um vírus não é sequer um ser vivo, nós, por outro lado, temos a capacidade de fazer escolhas e contribuir para a nossa própria saúde e a saúde dos outros. Se temos sintomas que nos deixam com dúvidas, nada como isolarmo-nos em casa e contactar o SNS24. Se não for nada, seguimos a nossa vida com as devidas precauções, mas com tranquilidade. Se estivermos infetados, podemos ser mais rápidos do que as equipas de rastreio sobrelotadas de trabalho e avisar os nossos contactos mais próximos — as pessoas com quem estivemos nos dois dias antes dos primeiros sintomas e todas aquelas com quem estivemos depois disso.

 

 

E quem esteve com uma pessoa infetada, com uma pessoa que receia estar infetada ou com alguém que tem os sintomas típicos (ainda que os desvalorize)? O SNS24 ajudará a avaliar o grau de risco, mas também pode fazer a sua avaliação: quanto mais tempo, mais próximo e se tiver sido em ambiente fechado, maior a probabilidade de também ter sido infetado. Isolar-se em casa até conseguir fazer o teste é regra de ouro. E, depois, mais uma vez, se estiver infetado, não hesite em contactar as pessoas com quem esteve nos dois dias antes dos sintomas ou, se não tiver sintomas, nos dois dias antes do teste.

Sabemos que lembrar cada um destes passos no meio de toda a informação que recebemos diariamente não é fácil. Por isso, criámos um pequeno esquema (https://lnkd.in/emeCVdQ) que pretende guiá-lo nestas situações e aconselhar o que deve fazer em cada uma delas. Na dúvida, o SNS24 e os centros de saúde são o primeiro local onde pode pedir ajuda — pelo telefone, claro. Isto porque não deve andar de transportes públicos (nem contactar com outras pessoas) enquanto não souber se está infetado ou não.

Vera Novais, jornalista de ciência, presidente da Rede SciComPt

 

Vasco Ricoca Peixoto, médico interno de Saúde Pública, investigador Escola Nacional de Saúde 

Pública

 

Vera Novais é jornalista no Observador e faz trabalhos como freelancer para órgãos de comunicação internacionais. Vera escreve sobre vários temas de ciência, geralmente sobre as ciências da vida, saúde, astrofísica e política de ciência. Os trabalhos de que mais gosta de fazer estão relacionados com desmontar desinformação sobre temas de ciência, saúde ou nutrição. Vera Novais é presidente da Rede de Comunicação de Ciência e Tecnologia de Portugal – SciComPt, é membro da direção da International Science Writers Association (ISWA) e colabora frequentemente com a World Federation of Science Journalists (WFSJ). Vera Novais é formada em Biologia pela Universidade de Coimbra e mestre em Comunicação de Ciência pela Universidade Nova de Lisboa.

 

 

 

 

          Vasco Ricoca Peixoto, Médico Interno de Saúde Pública em  Lisboa e Vale do Tejo na Unidade de Saúde Pública Norte de Lisboa (2017-). Allumnus do Programa Europeu de Epidemiologia de Intervenção (EPIET MS-Track), do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC)(2018-2020). Doutorando em Saúde Pública e membro Colaborador do Centro de Investigação em Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa (2020-). Curso de Especialização em Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública. (2019). Membro do Grupo de Trabalho do Desafio Gulbenkian – Boas escolhas, melhor saúde (2019-).  Membro da Comissão de Avaliação Externa da Agência de Avaliação  e Acreditação do Ensino Superior (A3ES) para os Mestres Integrados em Medicina (2016-2018).

 

 

Este texto insere-se no âmbito do Projecto “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa”, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

 

Projeto de ecoturismo e voluntariado “Bamu Non?” com novas datas para 2021

 

“Bamu Non?” (Vamos?), Viagens de Ecoturismo e Voluntariado em São Tomé e Príncipe”, é uma iniciativa que combina turismo na natureza com solidariedade, de que já falei aqui. Foi fundada por Hamilton Costa, nascido na Roça de Santa Catarina, em São Tomé, que explica “Desde 2006 que vou regularmente a São Tomé de férias, onde ainda reside cerca de 70% da minha família. Comecei por levar algumas ofertas nas malas, com o passar dos anos, todo o conteúdo da bagagem, eram doações. As malas deram lugar a caixotes e em 2015 os caixotes deram lugar a contentores com toneladas de bens de primeira necessidade”.

Para além dos donativos para a sua associação (Ajudar a amparar), Hamilton Costa começou a receber muitas perguntas de pessoas que tinham o sonho de fazer voluntariado em África e queriam “conhecer a famosa Ilha de chocolate”. Para colmatar esta necessidade que verificava, Hamilton criou este projeto, de forma a dar a conhecer uma ilha belíssima e ajudar o seu povo através de um programa de voluntariado orientado para fazer a diferença em famílias, comunidades e instituições. “Ficaremos hospedados numa simpática Roça Familiar (Monte Alegre), fora da cidade, rodeados pela magia da floresta. Teremos sempre comida caseira, frutas da época, peixe fresco, bolos deliciosos da Mãe Joana, legumes e chás colhidos na hora”. Read more

A solidão em tempos de pandemia

 

A Delegação Regional do Centro da Saúde em Português, organizou na passada Quinta-feira, dia 17 de Dezembro, às 21h00, um webinar gratuito subordinado ao tema “A solidão em tempos de pandemia”. A saúde mental e a solidão que todos sentimos em determinado momento, independentemente do contexto, estiveram em foco numa conversa informal, que trouxe muitos pontos de vista válidos que importa conhecer e debater.

A abertura da sessão esteve a cargo do Doutor Fidalgo de Freitas, médico psiquiatra, que nos falou que a solidão é um sentimento subjetivo, muito nosso, não é mensurável, é pessoal. Podemos sentirmo-nos sozinhos no meio da multidão, por exemplo. A solidão normalmente tem uma conotação negativa, pode ser um sintoma de depressão que distorce a realidade. A pessoa que se sente solitária pode ter certos fatores de personalidade que apontam para introversão como sofrer de timidez e baixa autoestima. A solidão é um problema social complexo, fruto de uma organização social que prima pelo individualismo, por famílias mais pequenas e com cenários de pobreza e falta de uma rede social de apoio estruturada.Read more

A história de Ariel

Ariel é uma criança, de 21 meses que sofre de uma doença genética do cérebro, encefalite epilética. Com o nome da Pequena Sereia e feições angelicais, Ariel luta para desenvolver-se em várias terapias, mas precisa de ajuda para continuar os seus tratamentos.
É a mãe, Soraia Moreira, de 25 anos, que nos conta como tudo aconteceu. Ariel é fruto de um grande amor: Soraia começou a namorar com Antero, de 31 anos, em Abril de 2014 e vão viver juntos um ano depois “Sempre idealizámos viver juntos e ter um filho, que seria o Afonso, mas tivemos a princesa Ariel, e agora não a trocávamos por nada”, afirma.
A gravidez, nas suas palavras “correu lindamente, tranquila, sem grandes desejos, apenas os normais que já era habitual ter. Era incrível sentir a Ariel a mexer, estava muito ansiosa e feliz a organizar tudo para o seu nascimento”.
Foi sempre vigiada e seguida por uma obstetra particular que lhe deteta uma gravidez de risco. Ariel não estava a crescer o esperado dentro do útero e uma vez que os bebés têm de nascer às 37 semanas, a 25 de Janeiro de 2019 Soraia é internada para induzir o parto. Ariel nasce no dia seguinte, 26 de Janeiro de 2019.Read more