Metamorfose: A minha jornada de transformação pessoal

 

Escrevo este texto no dia 5 de Agosto de 2021. É o meu aniversário de 34 anos. Entre o meu prato favorito (bacalhau à brás), o bolo de chocolate a que soprei as velas, o tempo passado em família e telefonemas/mensagens de amigos, aproveito para refletir. Não estou onde imaginaria estar neste ponto da minha vida. Imaginava um futuro diferente quando era uma criança de 10 anos a dar os primeiros passos na escrita. Não tenho estabilidade profissional, não encontrei (pelo menos ainda) o amor da minha vida, não tenho ainda filhos (para desgosto da minha mãe).

Enquanto preparo a 6ª edição da revista Humanamente, subordinada ao tema “Dores de crescimento”,  sobre a adolescência, desafio-me a mais uma vez superar as minhas próprias expetativas e para substituir o medo pela coragem e auto analisar-me com uma honestidade profunda. Nos últimos tempos assisti a palestras sobre mergulhar dentro de nós, fluir e deixar de ser prisioneiros da própria mente, mas sei de que nada adiantará se não aplicar na prática o que aprendi na teoria. E se queremos mudar os resultados, temos de mudar os processos.

O que significa para mim dores de crescimento? Para começar, é necessário e inevitável falar de desenvolvimento físico, na formação dos ossos, que implica um esforço adicional do organismo, um certo desconforto. À laia deste tema, quero falar das minhas dores, não físicas porque medindo 1,62 não me lembro de as ter tido, mas das interiores. A adolescência, ou melhor, o final dela é para mim sinónimo de doença. Foi aos 19 anos que tive o meu primeiro esgotamento nervoso, provocado por uma atividade frenética que me fez negligenciar as minhas necessidades básicas de sono e alimentação, até desenvolver sintomas indicadores de doença mental, com uma recaída, menos considerável mas igualmente preocupante no ano seguinte.

Com 21 anos, sou diagnosticada com doença bipolar (anteriormente designada doença maníaco-depressiva) e é-me explicado que é uma doença crónica, que vou tê-la para toda a vida e não tem cura, podendo haver períodos de melhoria ou agravamento dos sintomas. Foi uma consulta psiquiátrica dura de aceitar. Na altura não queria ver-me como uma pessoa doente (continuo a não querer), prefiro a definição ligeiramente mais poética de ter uma condição, que pode ser alternadamente uma espécie de bênção e de maldição.

A doença bipolar, em termos genéricos, caracteriza-se por oscilações de humor mais frequentes que o dito normal, que podem levar a estados de depressão ou  de euforia (chamados de mania). Claro que não há um modelo uniforme e existem também estados intermédios.

Na altura do diagnóstico, ignorei os conselhos médicos e não tive mais ajuda de tipo algum, nem consultas de Psicologia nem de Psiquiatria para continuar a terapêutica de comprimidos prescrita. Como tinha sido sobremedicada antes, olhava com desconfiança e medo os medicamentos sugeridos e segui com a minha vida o melhor que pude. Alguns períodos bons, outros francamente maus, mas sempre funcional. Até que aos 26 anos, depois de uma crise de mania, com características similares à primeira, sou internada num hospital psiquiátrico. O perigo na altura advinha sobretudo dos meus pensamentos e comportamentos. Quando estamos em estado de mania (organismo acelerado, sem comer ou descansar devidamente), podemos desenvolver pensamentos delirantes, isto é, que fogem à realidade, e aí instalam-se quadros de psicose em que agimos de forma errática baseada em crenças e eventos que muitas vezes só aconteceram realmente na nossa cabeça.

Estar hospitalizada três semanas foi uma lição de humildade. Abdiquei do controle e deixei que cuidassem de mim, mas ao mesmo tempo a minha autoestima e noção de valor pessoal e de merecimento sofreram um abalo muito grande. Conviver com outras realidades, outros doentes, foi um exercício de diálogo, compreensão e empatia. Quando recebi alta, ainda entorpecida por toda esta experiência e a tentar separar o trigo do joio mental, estava decidida a dar a volta por cima. Afinal, depois de bater no fundo, o único caminho é subir, não é verdade? Tinha perdido amizades importantes, o meu orgulho próprio, oportunidades na vida. Alguns danos irreparáveis, outros que não se recuperam do dia para a noite. Terminei o meu mestrado, fiz formações, tive um trabalho em contexto empresarial durante alguns meses e finalmente percebi: nós somos a nossa principal riqueza. A saúde é o nosso bem mais precioso, quer seja nas suas dimensões física, mental ou espiritual.

Aos 28 anos tive um sonho, que foi como que uma epifania, uma visão para o meu futuro. Porque não aproveitar a minha formação superior em Jornalismo e criar uma revista que retirasse o estigma da saúde mental, que desse a mão aquela menina-mulher saída da adolescência que um dia fui e a quem é dito que tem uma doença mental incurável, que tem dúvidas, que tem medo de si mesma e questiona o seu mais ínfimo pensamento?

Pensei em vários nomes até chegar ao trocadilho entre a nossa condição humana e a mente. Tive a certeza ao olhar para o exame médico ao meu cérebro e ver os dizeres “Diagnosticamos afectivamente”, uma fusão entre a precisão clínica, científica, com uma dose de uma qualidade inefável que achei tão… humana.

Gostava de dizer que a minha jornada tem sido sempre ascendente rumo ao pôr do sol do meu final feliz como nos contos de fadas, mas a verdade é que a vida não é emocionalmente linear, é feita de altos e baixos, como o bater do próprio coração humano.

Hoje em dia reconheço que há transformações dolorosas, que implicam sair da zona de conforto, como larva para se tornar borboleta. Aprendi também a identificar os meus gatilhos, quando me sinto interiormente mais frágil e preciso de cuidar mais de mim. Sei que podemos transformar vulnerabilidades em fortalezas se nos ajudarmos a nós próprios e nos permitirmos ser ajudados. Se nos permitirmos partilhar alegria, tristeza e tantas outras coisas. É essa a beleza e a abundância presentes em tudo o que existe. A superação é apenas uma consequência  natural e orgânica da alma quando nos damos amorosamente em corpo, mente e espírito ao momento presente. Inteiramente. Amorosamente. Humanamente.

 

Paula Gouveia

 

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