Evolução

Photo by Mahdi Bafande on Unsplash

 

Em Agosto do ano passado, escrevi um artigo muito pessoal em que contei a minha história de vida, partilhei experiências e tentei descrever o melhor possível como é viver com o diagnóstico de doença bipolar. Podem ler essas minhas palavras em: https://humanamente.pt/metamorfose-a-minha-jornada-de-transformacao-pessoal/

Os meus leitores poderão estar a perguntar-se: o que mudou na minha vida em sete meses e é nesse sentido que quero fazer esta atualização mais pessoal sobre a minha vida. À primeira vista, tudo parece estar igual: continuo sem estabilidade laboral ou amorosa. Fui internada pela segunda vez num hospital psiquiátrico. Mas, a vida continua a ensinar-me lições muito preciosas que quero partilhar aqui:

1) Não penses nunca que és o único com problemas, com ansiedades, com dores, com ataques de pânico, com impulsos incontroláveis, com vergonha, arrependimentos, baixa auto estima, síndrome do impostor e medos diversos. Esta foi a minha realidade até há bem pouco tempo, ainda o é até certo ponto, mas a verdade é que não podemos olhar apenas para o nosso umbigo, temos um mundo à nossa volta que se agita e pode ser extremamente exigente. Mas para além da pressão (auto imposta ou imposta pelos outros) existem as outras pessoas que também se afligem, também se alegram, também choram. Não podemos estar cegos ao sofrimento dos outros por estar demasiado focados no nosso.

2) Não escolhemos os acontecimentos externos do mundo. Quem poderia adivinhar que viria aí a pandemia Covid 19 seguida da Guerra da Ucrânia que todos os dias nos deixa desanimados e de estômago revolto com a tentativa de quebrar a resistência de um país soberano e de tomá-lo de supetão? Uma das últimas notícias  que vi este fim de semana foi que um hospital pediátrico ucraniano foi bombardeado. Como digerir uma notícia destas, em que sabe que bebés e crianças estão entre os escombros? É tão duro viver num mundo em que esta ainda seja uma realidade. Desumano, mesmo. No entanto, podemos sempre escolher o caminho do bem, da simpatia, da empatia, de manter os corações abertos e a esperança num futuro melhor, em que a sede de poder não leve à cega destruição.

3) Devemos estar mais atentos a quem está do nosso lado. Aos nossos vizinhos, colegas de escola, de trabalho, companheiros de autocarro. Nunca sabemos quem podemos conhecer e ajudar. Passamos demasiado tempo nos telemóveis, concentrados a olhar para ecrãs em vez de prestar atenção plena aos momentos que estamos a viver e a olhar nos olhos uns dos outros. Como tudo na vida, a tecnologia tem pontos altamente positivos mas também um lado insidioso. É fundamental saber exercer autocontrole suficiente para encontrar o justo meio termo.

4) A solidão e a carência podem desviar-nos na nossa rota e fazer-nos tomar decisões erradas. Queremos a solução mais rápida para um problema e não a que poderia ser demorada mas seria efetivamente a melhor. O tempo é um bom conselheiro e não é por acaso que a paciência é uma virtude. Manter o trabalho interior e a fé acima de tudo, são essenciais para voltar a atingir um estado de equilíbrio, em que estamos de novo recetivos para a beleza e a abundância da vida.

5) É fundamental nunca esquecer de seguir a intuição, aquele instinto primário e visceral que nos diz o que devemos fazer, se é melhor seguir pela direita ou pela esquerda, quando é preciso nos dispersarmos e quando devemos retornar à terra-mãe e focar toda a nossa energia numa coisa só. É preciso ouvir essa voz, para entender quando podemos ter mil e um projetos e morder mais do que conseguimos mastigar, como se costuma dizer, ou fazer renúncias e agarrarmos-mos a menos coisas. Tudo isto é um balanço delicado a aprender, mas o que faz a vida senão ensinar?

6) Escuta o teu corpo porque ele dialoga contigo o tempo todo, mesmo quando o negligencias ou finges não escutar. Nele vive um autêntico templo de sabedoria, um portal sagrado na medida em que pode trazer dor ou prazer, como um instrumentos com cujas cordas tens de aprender a manobrar para produzir som. Se quiseres levar as tuas águas a bom porto por vezes terás de fazer cedências, terás de aprender a arte de negociar, como uma raposa matreira. Mas vale a pena ser um pouco faceira e estratégica no pensamento se a emoção for pura e a intenção for imaculadamente boa.

7) Costuma-se dizer que quando temos todas as respostas, a vida muda todas as perguntas. No entanto há uma que nunca vai mudar nem perder o seu significado, mesmo quando é repetida até à exaustão: o amor. O amor da família, dos amigos, de um companheiro(a), a um animal, a uma causa; o amor universal, que nos preenche desde a raiz e nos faz vibrar com uma energia bem luminosa e plena, é tudo o que precisamos para sentir que temos um propósito e uma razão de existir. Viver deixa de pesar como chumbo e torna-nos leves como  uma pena, com paz no coração. Sem sequer percebermos é assim que passamos de um ponto ao outro, é assim que evoluímos. É isso que eu desejo que aconteça sempre em mim e nos outros.

Paula Gouveia