Entrevista My dress is not an invitation

 

“Temos de usar a nossa voz para mudar as coisas que nós achamos erradas”

 

“My dress is not an invitation” é um movimento feminista de Viseu, que luta pelos direitos das mulheres. É formado por um grupo de dez ativistas (Ana, Andreia, Clara, Carol, Érika, Lara, Maria, Sara, Sofia e outra Clara) de idades entre os 13 e os 14 anos. Depois de testemunharem uma situação que consideraram injusta, ao ver uma colega ser repreendida por uma professora devido à forma como estava vestida na escola, decidiram criar a página de instagram @dressnotayes e apelaram ao público para que, sempre que encontrasse um poster feito por elas na rua, marcarem com o seu hashtag.

Se um vestido não é um convite, foi certamente o mote para uma longa conversa sobre feminismo, igualdade de direitos, assédio sexual, entre muitos outros assuntos, com a revista Humanamente.

 

1_ Em primeiro lugar, pedia-vos que explicassem o que significa para vocês o nome My dress is not an invitation e My dress is not a yes.

 

Clara: Nós resolvemos criá-lo depois de uma colega nossa ser mandada cobrir-se por causa da roupa que ela estava a usar na escola, que era suposto ser um espaço seguro, e a professora mandou-a cobrir-se e começou a dizer que era por causa dos riscos, mas passou muito mais para o lado pessoal do que para o lado de ajudar então nós resolvemos criar esse nome e passar essa mensagem.

 

2) O que vos levou a criar a My dress is not an invitation em Viseu?

 

Érika: Eu criei o primeiro poster com a intenção de sensibilizar a escola do que tinha acontecido com a nossa colega porque comecei a dar-me conta que havia outros casos que aconteciam muito frequentemente, então pedi ajuda às minhas amigas e começámos apenas por colocar na escola. Criei um primeiro poster inicialmente e depois desenhei outros dois posters depois deste ter sido recusado pela escola porque eles não apoiaram a causa.

Clara: Tinha sido apoiada mas depois uma professora, a mesma professora que mandou a minha colega cobrir-se, simplesmente removeu os posters e disse que não era apropriado e começou a inventar desculpas para justificar essa ação. Então, já que não podíamos pendurar na escola revolvemos pendurar noutros lugares.

Érika: Depois a Clara teve a ideia de criar o Instagram (@dressnotayes) para alcançar mais gente e não ficarmos só por Viseu porque como nós ainda somos menores é um pouco difícil levar os nossos posters para outras cidades.

 

“Nós queremos ser alguém em que as pessoas possam confiar para os ajudar”.

 

3) Em que medida consideram ser importante o ativismo nas questões feministas e direitos humanos?

 

Clara: Eu acho que aqui em Viseu ainda não se fala muito nisso e as pessoas têm uma mente muito fechada, tanto que é uma cidade com pessoas mais idosas, mas nós temos de usar a nossa voz para falar de questões que interessam. No outro dia apresentei um trabalho a perguntar quantas das meninas tinham sido assediadas e a maior parte delas respondeu que já tinha sido assediada. Não devia ser assim, nós somos menores de idade e nem maiores de idade deviam ser.

 

Erika: Eu acho que é extremamente importante porque é como ela diz, nós precisamos de usar a nossa voz para mudar as coisas que nós achamos erradas. Nós temos de ter a nossa liberdade e a mulher sempre foi subjugada, se nós ficarmos caladas nada vai mudar. Temos de fazer algo.

 

4) No vosso Instagram falam dos mitos, estereótipos e preconceitos mais frequentemente associados à causa feminista. Podiam elaborar esses conceitos?

Clara: Nós fizemos esse post, eu coloquei alguns que já tinha ouvido, porque há muita coisa ridícula como: mulheres feministas não se depilam, são todas gordas e feias, odeiam homens, o que é algo ridículo porque nós queremos apenas direitos iguais e não superioridade. Muita gente ouve isso sobre as feministas e isso acaba por prejudicar a nossa causa porque as pessoas ouvem mentiras e acreditam nessas mentiras.

Érika: Exatamente. Há muitas pessoas que se intitulam feministas, mas querem poderes superiores. Nós costumamos falar de direitos iguais pois é o que nós mais precisamos, sobre os salários e tantas outras coisas. Obviamente com os direitos virão associados deveres, é claro que não somos as únicas a ter problemas, os homens também têm outros problemas. Porém, nós estamos a lutar pelos nossos e eles, relativamente à igualdade em certos parâmetros, também deveriam lutar por isso e não tentar diminuir a nossa causa.

 

 

Nós não podemos estar à espera que os outros façam por nós”

 

5) Que objetivos pretendem alcançar com este movimento a curto ou médio prazo?

Clara: Não podemos ter objetivos muito ambiciosos como acabar com o assédio de vez, mas o máximo que for possível. Por enquanto só estamos a tentar aumentar a causa e usamos o nosso instagram para divulgar esses mitos, falámos também do dia LGBTQIA+ …. Queremos ajudar as mulheres e os homens, porque igualdade de género não diz respeito só a mulheres, também envolve os homens, envolve toda a gente. Nós criámos um Tellonym que permite que as pessoas possam falar connosco anonimamente e fizemos o nosso perfil para as pessoas que quiserem, possam tirar dúvidas, desfazer mitos ou desabafar porque só desabafar já pode ajudar muitas pessoas. Então, nós queremos ser alguém em que as pessoas possam confiar para os ajudar.

 

6) De que forma foram influenciadas por movimentos como o Me too e denúncias de assédio sexual feitas recentemente em Portugal?

 

Érika: Eu acho que é claro que isso também nos influencia porque dá-nos mais força por um lado, mas na minha opinião, esses movimentos ainda não chegaram tanto a Portugal. Aqui como as mentes são mais fechadas, penso que nos devíamos inspirar nesses movimentos maiores, para abrir mais os nossos horizontes.

Clara: Nós não podemos estar à espera que os outros façam por nós. Se nós achamos que conseguimos e temos força para isso, não devemos estar à espera dos outros porque em Portugal não se vêm muitos movimentos destes, é mais em Lisboa ou no Porto. De Viseu, sigo no instagram a plataforma “Já marchavas” e pouco mais. Creio que em Viseu, neste tema, somos das primeiras.

 

“Propagar a ideia de que as mulheres também conseguem fazer as coisas é importante”

 

7) Na vossa opinião, o que falta para as mulheres terem na prática direitos iguais aos homens e serem valorizadas da mesma maneira?

 

Clara: Mais mulheres no poder, principalmente, e a mostrar intenção de ascender a esses lugares. Que possamos ter mais mulheres que contem como exemplo, como nos Estados Unidos, temos a vice-presidente Kamala Harris, e ver mais mulheres como ela a ocupar o poder e a mostrar a outras mulheres que também podem realizar os seus sonhos. Muitas mulheres vieram falar connosco a dizer que viram o nosso poster na rua e partilharam com os amigos e ficaram muito incentivadas. Então, propagar essa ideia de que as mulheres também conseguem fazer as coisas é importante para alcançarmos esse poder.

 

8) O que significa para vocês serem ativistas por uma causa social e como estão a tentar construir a vossa plataforma?

 

Clara: Nós começámos pelo instagram porque como tudo teve início na escola queríamos alcançar pessoas mais jovens porque havia muita gente aí que nos incentivava. Mas também queremos falar com os mais velhos. Tínhamos professores que nos ajudavam e outros que criticavam os nossos posters. O que significa para mim é saber que posso ajudar alguém porque ainda não tivemos muitos desabafos, mas espero que um dia consiga mudar alguma coisa. E mesmo que salve só uma pessoa, já vai ser uma conquista enorme.

 

Érika: Vou fazer mais posters como este, fui eu que os fiz e distribui aos meus colegas e já tenho outras ideias. Nós não vamos parar por aqui.

Clara: Eu não tenciono desistir tão cedo desta causa porque só de saber que está a mudar algumas pessoas e a responder a dúvidas sobre o feminismo e é gratificante. Quanto mais gente quiser aderir ao nosso movimento, seja desabafar ou tirar foto e partilhar no instagram, já ajuda imenso. É essa a nossa mensagem.

Érika: Isso faz-nos ter mais motivação. Eu já sabia que mulheres eram assediadas todos os dias, mas até isso acontecer de perto com as minhas colegas, não me atingia tanto e depois quando me atingiu, eu quis falar. Talvez as preocupações do dia-a-dia não sejam tão importantes como lutar por uma causa maior e tentar mudar o mundo, a maneira de pensar das pessoas e construir uma sociedade melhor para os nossos filhos, se os tivermos. É isso que vamos tentar fazer. É claro que ainda somos uma conta muito pequena, não podemos pensar que vamos chegar a tudo e mais alguma coisa, mas também não é por isso que vamos desistir. Nós vamos continuar a lutar por estas causas.

Clara: Conseguimos cem seguidores em dois dias. Ver que temos cem pessoas, que se enchêssemos esta sala com cem seguidores ia ser uma sala lotada e ver essas pessoas a seguir a nossas coisas deixa-me muito feliz, ver tudo o que já conquistámos e continuar a querer mais.

Érika: Acho que é muito importante falarmos destes assuntos nas escolas desde cedo pois é mais fácil construir uma mentalidade saudável desde jovem do que das pessoas mais velhas (é claro que não vamos desistir delas também). Mas é normal que seja mais difícil porque viveram a sua inteira a achar que as coisas tinham de ser de uma certa forma, a achar que a mulher tinha de ficar em casa e cozinhar e o homem sustentar a família. Sabemos que não vamos conseguir mudar isso logo à partida, mas não vamos deixar de tentar.

Paula Gouveia