A construção das memórias

 

Se recordar é viver, de uma coisa podemos ter a certeza: as nossas lembranças raramente são estáticas, como que gravadas na pedra, inalteráveis e perfeitamente objetivas. Pelo contrário, a forma como olhamos para trás e encaramos a nossa história de vida, as nossas vivências e experiências depende muito do ponto em que nos encontramos atualmente. Estarmos num bom ou mau momento vai influenciar inevitavelmente a nossa ótica relativamente ao passado, a narrativa que construímos do que vivemos e estamos a viver. E nada, é mais importante do que as histórias que contamos a nós mesmos.Read more

Entrevista a Nuno Queiroz: Correr para sensibilizar para as doenças raras

 

Nuno Queiroz, também conhecido por Nuno Mara, tem 45 anos, é natural de Oliveira do Bairro (Bairrada) e residente em Viseu nos últimos anos “Saí para uma experiência no estrangeiro (1996), regressei em 2016 (experiencia duradoura) e estabeleci como residência Viseu, uma cidade que me cativou pela qualidade de vida e pela forma como me receberam. Tenho orgulho em todos os meus amigos viseenses!”.

Atleta amador, foi recentemente notícia por ter corrido 220 quilómetros, pela Estrada Nacional 16, com o intuito de sensibilizar para as doenças raras. A corrida solidária, que se realizou de 22 a 25 de Abril, entre a fronteira de Vilar Formoso e Aveiro, teve ainda como objetivo angariar fundos para a Associação “Ajudar a Amparar Os Príncipes de África”, fundada por Hamilton Costa, que visa enviar bens essenciais para São Tomé e Príncipe. Read more

A saudade

 

Dizem que a saudade é a palavra mais portuguesa de todas e é certamente difícil de definir este sentimento de falta de alguém ou de algo. Uma pessoa querida, um momento especial, até as coisas que não vivemos: tudo isso nos pode causar uma sensação de aperto no peito, como se não houvesse ar suficiente para respirar e toda a nossa vida fosse cheia de vazio.

Dentro deste quesito queria falar especificamente do luto pois acredito que é um processo que apesar de ser íntimo e pessoal, ainda está rodeado de muitos tabus e receios infundados. Quando alguém que amamos deixa de fazer parte da nossa vida, a sensação é incrivelmente dolorosa. Por mais que essa pessoa já não se encontre connosco, é impossível matar as memórias e o facto é que continua a viver dentro de nós. Read more

Como desatar os nós emocionais

 

Emoção pressupõe movimento. Como disse o psiquiatra e psicanalista Carl Gustav Jung “Não há mudança da escuridão para a luz e da inércia ao movimento sem emoção”. É, portanto, primordial para o ser humano ter a capacidade de sentir, de dar um qualquer tipo de ordem às suas emoções e de encontrar sentido para as mesmas. De fazer da sua paisagem mental um caos controlado.

No entanto, nem sempre é assim. Há alturas em que nos sentimos totalmente estagnados, como se não conseguíssemos mais absorver e organizar o que está à nossa volta, como se a vida tivesse parado. Um conjunto de emoções assola-nos e sentimo-nos desconectados do que possam sequer significar, como se a nossa essência nos fosse totalmente estranha e estivéssemos a olhar para nós do lado de fora. Read more

Vamos falar sobre Educação Sexual?

 

Educação Sexual: um tema cada vez mais falado, mas que ainda é um tabu para muita gente nos dias de hoje, mas porquê? Muitas pessoas ainda pensam, erroneamente, que introduzir Educação Sexual nas escolas é ensinar as crianças e os jovens a fazerem sexo e destruir a sua “inocência”.

Por haver um estigma tão grande em torno do assunto acaba por não se fornecer informações suficientes nem o devido apoio às crianças e aos jovens em cada etapa da sua vida.

Antes de falarmos dos benefícios da Educação Sexual é essencial entendermos o porquê de ser tão importante, principalmente no contexto escolar, para isso pesquisei na internet sobre crimes relacionados com a sexualidade das crianças e dos adolescentes no nosso país e no mundo.Read more

A depressão na primeira pessoa: Entrevista a Catarina Syder Fontinha de “O Sentido do Ser”

Caracool.Fotografia

 

Olá leitores da Humanamente.

Vivemos tempos difíceis que certamente irão deixar muitas marcas e traumas em todos nós, de forma mais ou menos profunda. Avizinham-se ainda tempos duros de mais incerteza, de uma crise que já não temos como negar e que vai causar ainda mais danos a somar aos que já acumulamos. Como é que nos preparamos emocionalmente para isto?

A saúde mental, embora hoje em dia mais falada do que antes, permanece ainda um mistério e um tabu para a grande maioria das pessoas. Muitas continuam mesmo a querer negar o impacto das emoções no dia-a-dia de alguém e a estereotipar e julgar quem se vê negativamente afetado por elas, ou, mais propriamente, pela incapacidade de as gerir e controlar mediante padrões culturais e sociais que nos são impostos, que nos limitam e que em nada nos servem. Por outro lado, os próprios sistemas públicos de saúde e de ensino continuam a estar aquém nas medidas de prevenção, proteção e cuidado que poderiam (e deveriam) assumir, criando graves lacunas e facilitando as práticas de remedeio que só ampliam os problemas, o que está agora claro que já chegou ao ponto de insustentabilidade. Mas o que é que nós, comuns cidadãos, podemos fazer quanto a isso?Read more

Cinco dicas para retomar o controlo da sua vida

 

Sabemos o que é estar em casa confinados dias a fio. Porém, será que nos sentimos realmente em casa? Não falo de um espaço físico entre quatro paredes, falo daquele lugar que é mais que o invólucro perecível do nosso corpo, que é um estado de espírito em que nos sentimos sintonizados numa qualquer frequência harmoniosa, em que estamos tranquilos, confortáveis na nossa pele e nos nossos pensamentos.

Para muitas pessoas pode parecer impossível ter uma sensação de acalmia em tempos tão incertos, que exigem tanto de nós. É mais fácil ficar permanentemente em alerta, com o stress e ansiedade a disparar para níveis altíssimos, como se tivessem de ser sempre o nosso estado por defeito. Contudo, não tem nem deve ser assim.Read more

Combater a obesidade e o excesso de peso com a ajuda do telemóvel

                                                     José Pinto Gouveia

Uma equipa de investigadores do Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC) da Universidade de Coimbra (UC), liderada por José Pinto Gouveia, desenvolveu uma aplicação móvel (app) para ajudar no combate à obesidade e excesso de peso.

A app foi desenvolvida no âmbito do projeto eBEfree, que tem como grande objetivo fornecer ferramentas e estratégias de regulação emocional que permitam às pessoas com obesidade ou excesso de peso eliminar, reduzir significativamente os episódios de ingestão alimentar compulsiva, e aumentar a sua saúde mental e qualidade de vida.

No atual contexto da pandemia Covid-19, «especialmente com o confinamento geral no nosso país, vários estudos sugerem que o isolamento vem acompanhado de uma redução na saúde mental das pessoas. Neste sentido, o projeto eBEfree, nomeadamente pelo seu formato digital, pretende ser um contributo especialmente apropriado à situação atual», explica a equipa do projeto, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

A app eBEfree é constituída por 12 módulos, disponibilizado um por semana, que abordam diversas perspetivas do problema. «Os conteúdos para o tratamento da ingestão alimentar compulsiva, como estratégias de regulação emocional através de exercícios comportamentais e de meditação, foram desenvolvidos com recurso a vídeos de animação explicativos, exercícios áudio e vídeos de psicólogos/as da nossa equipa a abordar os temas relevantes», detalha José Pinto Gouveia, acrescentando que a aplicação inclui também um fórum de discussão, «onde os utilizadores podem colocar questões aos terapeutas (haverá sempre um terapeuta a acompanhar o funcionamento da app)».

Para testar e validar a eficácia da aplicação, a equipa está a solicitar a colaboração de pessoas de todo o país, com idades compreendidas entre os 18 e 55 anos, com excesso de peso e ingestão alimentar compulsiva, e que possuam um smartphone ou tablet com acesso à internet. Os voluntários que pretendam participar no estudo devem contactar a equipa de investigação através do endereço eletrónico: ebefree@uc.pt.

A participação no estudo envolverá uma entrevista inicial, via zoom, para avaliar os critérios de elegibilidade, o preenchimento de uma bateria de questionários online e a utilização da aplicação móvel.

O eBEfree resulta de um estudo anterior cujos resultados evidenciaram que «estas ferramentas de regulação emocional e promoção de saúde mental são eficazes quando implementadas presencialmente em formato grupal. O que pretendemos com o eBEfree é alargar esse estudo para chegar a todo o território nacional, com todas as vantagens de uma aplicação móvel», conclui José Pinto Gouveia.

Mais informação sobre o projeto está disponível em: https://ebefree.uc.pt/.

 

Cristina Pinto

 Assessoria de Imprensa – Universidade de Coimbra – Comunicação de Ciência

 

 

 

Este texto insere-se no âmbito do Projecto “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa”, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

 

O corpo das mulheres nunca será uma arma

                  Cláudia Ferreira (Historiadora de Arte)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Resumo

Existe, indubitavelmente, uma diferença entre os corpos masculinos e os corpos femininos: obstá-la não ajuda a conceber superações porque insiste numa confusão de planos que, ao invés, deverão permanecer distintos.

Texto

O corpo das mulheres será uma causa e um abrigo, mas nunca terá a configuração de uma arma: causa – pela reivindicação colectiva de direitos que repõem uma justiça pública que durante muito tempo permaneceu nas mãos de decisores masculinos; abrigo – porque é contentor por excelência. Qualquer tentativa de igualar o corpo feminino e o corpo masculino, no que diz respeito à ferocidade intrínseca, esbarra na evidência: aquele é redondo, o outro é flecha. Vem esta imagem a propósito de se denunciar actualmente a posição de secundariedade a que as mulheres foram historicamente votadas, pela aparente inacção do seu corpo, envelopado por excelência, lugar de esconderijo, velado, com a grande circunscrição a ser tecida em torno da casa, mais de todas as domesticidades ditas amansadas. Irrompem depois as vozes de amazonas imemoriais, que desenterram linhagens obscurecidas pelas luzes de todas as épocas, amazonas através das quais se reclamam latitudes de expansionismo territorial: sair do corpo, sair da casa, sair do buraco, sair da sombra, sair da secundariedade, sair, simplesmente, de todas as prisões secularmente tecidas em torno das mulheres.

Paradoxalmente, agora, pedem-nos para ficar em casa. Mas que casa construímos? Ou, diferentemente: será que temos ainda uma casa a onde regressar? Ou, ainda diferentemente: será que não nos caberá construir a “casa”? Porque uma casa só pode ser construída a quatro mãos: femininas e masculinas. Porque a casa que herdámos do século XIX, e que recobriu dialecticamente o século XX, pois foi contra ela que as mulheres lutaram, tinha paredes bem transparentes: de vidro. Ou seja, as mulheres, não nos enganemos, sempre estiveram expostas publicamente desde o século XIX, mesmo se encerradas, como se denuncia, no privado, porque esse privado foi recoberto pelo público. Será imprescindível ter a noção exacta dessa exposição para que o corpo das mulheres não se torne numa autêntica chaga civilizacional. Perguntemos a quem tem uma ferida se a esgravata constantemente, ou se, numa perspectiva terapêutica, não a vai tentar sarar?

Pois creio que é bem tempo de percebermos colectivamente que o corpo das mulheres, efectivamente envelopado por excelência, lugar de esconderijo, velado, contém virtualidades preciosas que podem funcionar como análogos essenciais da experiência humana. Tem predominado a flecha, ou seja, o corpo masculino, mas é bem o tempo do efeito redondo dos corpos femininos, não dominar, não, mas fertilizar imaginária, e efectivamente, o Mundo. A onde é que, no limite, a flecha nos trouxe? À globalização espacial sem morada/s, ao turismo de massas, à gentrificação. A onde é que, no limite, a flecha nos pode levar? À Lua e a Marte, mas para o planeta dos marcianos apenas poderão ir alguns/algumas, e nem sequer é certo que sejam bem acolhidos pelos autóctones. Estamos no planeta Terra, até prova em contrário, e é aqui que urge inventar a/s morada/s, a viagem, as cidades.

Inventar a/s morada/s, a viagem, as cidades, implica, também e muito, perceber que existem desejos que apenas a imaginação pode solucionar através, sobretudo, da arte; existem desejos que não deverão passar da imaginação à concretização prática. Para que tal suceda será importante, parece-me: obstar a um pensamento de essencial abstracção vazia, contrapondo-lhe ideias que vão grávidas de experiência, fertilizadas por palavras habitadas em que se sinta o corpo de quem as pronuncia. Tal posicionamento sintetiza duas importantes consequências: por um lado, a experiência singular, e subjectiva, é valorizada enquanto inscrição na história comum, perfilando-se um coração comunitário; por outro lado, a partir do momento em que cada um/a é presença, e não número, as pessoas e as coisas recuperam os seus nomes próprios. Recuperar o nome próprio, ou ser mesmo baptizado/a, significa ostentar uma dignidade imprescindível. Neste horizonte, a linguagem aparece em primeiro plano: reivindique-se a palavra pelas mulheres, o que lhe foi historicamente obstado; faça-se a palavra num corpo feminino, redondo, e reserve-se a flecha para os arremessos, também necessários, claro, da vontade. Insista-se numa cooperação mútua.

Cláudia Ferreira é natural de Coimbra. Licenciada em História/var. História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo frequentado Estética e Filosofia da Arte na FLUCL, em Lisboa, sendo nessa mesma cidade que viria a concluir o mestrado em Estudos sobre a Mulher – As Mulheres na Sociedade e na Cultura, concretamente, na FCSH da Universidade Nova de Lisboa, para, em 2019, obter o doutoramento em Estudos Contemporâneos na Universidade de Coimbra com a tese intitulada O Rosto das Horas: do feminino e do masculino, com a arte. É investigadora do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX – CEIS20 e desempenha as funções de Técnica Superior na Câmara Municipal de Condeixa.

 

Este texto insere-se no âmbito do Projecto “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa”, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

 

Faz-te a ti mesmo

 

É sobejamente conhecida a expressão inscrita no Templo de Delfos “Conhece-te a ti mesmo”, atribuída a Sócrates. De facto, é crucial conhecer o mais profundamente possível quem somos porque só isso nos permitirá estabelecer objetivos e metas bem como erguer pontes para nos relacionarmos com as outras pessoas. É através da nossa subjetividade e métrica pessoal que avaliamos tudo o que acontece à nossa volta e lhe atribuímos significado.

Tal como reza o resto do aforismo acima mencionado, conhecer o Universo e os Deuses, implica autoconhecimento, que não vem se não examinarmos profundamente as nossas virtudes e defeitos, as nossas preferências e ódios de estimação, as nossas esperanças e medos, aquilo em que acreditamos de todo o coração e aquilo que nos soa a falso. Este olhar atento e profundo exige capacidade de ser audaz e corajoso pois não sabemos exatamente o que vamos encontrar e muitas coisas podem mesmo não ser agradáveis à primeira vista. No entanto, é um caminho necessário para chegarmos a uma verdade maior.Read more