Daniela Sá nasceu a 6 de julho de 1989, sendo que um parto prolongado lhe causou paralisia cerebral espástica, resultando em deficiência motora progressiva e mobilidade condicionada.
Na sua rede social Instagram compartilha observações não só sobre a deficiência, mas também sobre o estado do mundo, a sua fé, o seu sentido de humor, opiniões políticas e até comentários recheados de ironia.
Fomos conhecer a Daniela um pouco melhor:
1. Descreves a escrita como uma “terapia, para habitar lugares de fronteira, de inquietação e de descoberta”. Tens uma frase muito bonita que é “Somos presidentes da nossa consciência, somos gerentes do nosso banco de afetos. Afinal temos um poder imenso”. Queres falar um bocadinho sobre quem é a Daniela a partir daí?
Para mim, a escrita é muito uma forma de me organizar por dentro. Há momentos em que nem sei bem o que estou a sentir, e escrever ajuda-me a perceber, a dar nome às coisas. É um espaço muito meu, quase como um refúgio, onde posso ser mesmo honesta.
Essa frase fala muito disso… de perceber que, mesmo no meio da confusão, há uma parte de mim que pode escolher. Posso não controlar tudo o que me acontece, mas tenho sempre alguma responsabilidade sobre o que faço com isso, sobre o que guardo e sobre o que dou aos outros.
A Daniela é alguém que sente muito, que pensa muito também, e que está em constante construção. Nem sempre é fácil, mas há uma grande vontade de ser verdadeira, de não fugir ao que sinto. E a escrita é esse lugar onde me encontro, às vezes também me confronto, mas, no fundo, onde volto sempre a mim.
2. Tens um fascínio genuíno pela Natureza (nascer e pôr do sol, mar, desenhos dos aviões no céu, a lua, a sensação de liberdade ao planares sobre uma piscina, o teu profundo respeito pelos animais, plantas, planeta, universo, bactérias e átomos). Acreditas que ver o mundo por esta perspetiva mais alargada te ajuda a relativizar os teus problemas diários?
Sim, sem dúvida… e ajuda-me muito, logo eu que sofro tantas vezes por antecipação. A Natureza tem esse efeito em mim, lembra-me constantemente que há algo muito maior do que eu e do que aquilo que estou a sentir no momento. Quando olho para o mar, para o céu, para a lua, ou até para coisas mais pequenas, sinto-me mais leve, como se tudo ganhasse outra perspetiva.
Não é que os problemas desapareçam, mas deixam de ocupar tanto espaço dentro de mim. Ficam mais… no seu lugar. Percebo que tudo é passageiro, que faço parte de algo muito maior, e isso acalma-me.
Acho que esse fascínio vem de um respeito profundo pela vida, em todas as formas. E, no meio disso tudo, consigo recentrar-me, volto a mim, mas com mais calma e mais consciência.
3.“Resiliência não é ter pressa. Ser resiliente é seguir em diante. Seja na velocidade que for” é outra das tuas citações. Nos teus dias mais difíceis e tristes, consegues lembrar-te que continuas a evoluir e a ir em frente, apesar de qualquer contratempo?
Nem sempre… há dias em que me esqueço completamente disso. Há dias em que custa mais, em que só apetece parar e ficar ali. Mas, mesmo nesses dias, há qualquer coisa em mim que não desiste totalmente.
Essa frase nasce muito dessa consciência, de que resiliência não é andar sempre bem nem seguir em frente com força o tempo todo. Às vezes é só continuar, mesmo devagarinho, mesmo sem certezas.
Vou-me lembrando, aos poucos, de que continuar já é muito. De que, mesmo quando parece que não estou a evoluir, há sempre alguma coisa a mexer cá dentro. E isso ajuda-me a ter mais paciência comigo… a respeitar o meu ritmo e a acreditar que, de uma forma ou de outra, estou sempre a ir em frente.
“Quando me trato com mais gentileza, tudo fica um bocadinho mais leve”.
4. Tens uma deficiência que é visível, que te causa rigidez muscular, dores e te leva a andar de canadianas e ocasionalmente de cadeiras de rodas. Quando o corpo não coopera da melhor maneira isso pode causar frustração, desilusão e até episódios de depressão. Queres falar como procuras entrelaçar da melhor forma a tua saúde física com a saúde mental?
É um caminho… não é uma coisa que eu tenha resolvida. Há dias em que o meu corpo não acompanha aquilo que eu gostava, e isso traz frustração, cansaço, às vezes até tristeza mais profunda. Não vale a pena romantizar isso.
E, muito sinceramente, ainda há em mim alguma revolta… sobretudo porque a minha deficiência não é linear. Há dias em que consigo fazer mais, outros em que o corpo simplesmente não colabora, e essa imprevisibilidade mexe muito comigo.
O que vou aprendendo é a escutar-me mais. A perceber os meus limites sem me castigar por eles. Durante muito tempo lutei contra o meu próprio corpo, e isso só me deixava mais em baixo. Hoje tento fazer diferente tento cuidar de mim como cuidaria de alguém de quem gosto muito.
A saúde física e a saúde mental estão completamente ligadas, pelo menos para mim. Quando uma falha, a outra sente. Então vou procurando pequenos equilíbrios: respeitar o meu ritmo, dar-me pausas, não exigir de mim o que não consigo dar naquele dia.
E depois há também o lado de aceitar… não no sentido de desistir, mas de fazer as pazes com o que é. Ainda estou nesse processo, todos os dias. Mas acredito que, quando me trato com mais gentileza, tudo fica um bocadinho mais leve.
“Acredito que Deus também me acompanha assim, na minha fragilidade e no meu caminho, mesmo quando eu própria não me sinto capaz”.
5. Uma das componentes que é um bálsamo para quem acredita é a fé e tu descreves-te como católica e citas o falecido Papa Francisco (1936-2025) quando ele disse “Somos o milagre uns dos outros” e “Não tenham medo”. Acreditas que podemos mudar o mundo? E que mesmo que este nos peça a perfeição das máquinas o nosso maior valor enquanto seres humanos é a vulnerabilidade e a coragem?
Sim, acredito que podemos mudar o mundo, mas não no sentido de coisas grandiosas ou perfeitas. Acho que mudamos o mundo sobretudo nas pequenas coisas, na forma como tratamos os outros e como estamos presentes.
A fé, para mim, é algo muito importante, mas também muito complexo. O meu caminho pela fé é muito complicado, cheio de curvas e obstáculos, e muitas vezes confesso que acabo por virar costas a esse chamamento que sinto que Deus me faz no dia a dia.
Eu também tenho dificuldades de aprendizagem e fiz parte do apoio previsto no Decreto-Lei n.º 54/2018. E isso marcou muito o meu percurso, inclusive na catequese, que foi sempre difícil para mim, só fui até ao 3.º ano.
Tenho muita dificuldade em decorar orações e ainda hoje isso me custa. E admito, com alguma vergonha, que não as sei de cor. Muitas vezes, quando estou em grupo, sigo os outros… porque sozinha baralho-me, troco tudo, e isso faz-me sentir insegura.
Eu fecho-me muito no meu mundo, sou muito caseira e, às vezes, sou mesmo difícil de lidar. Muitas vezes nem eu me aturo, e reconheço também que já tratei mal algumas pessoas. Não me orgulho disso, mas faz parte da minha história e estou a aprender com isso.
Mas apesar de tudo, a fé continua a estar presente em mim de outra forma. Talvez não perfeita, nem organizada, mas verdadeira. E acredito que Deus também me acompanha assim, na minha fragilidade e no meu caminho, mesmo quando eu própria não me sinto capaz.
6. Citas o Beato Luigi Novarese “A pessoa doente pode tornar-se luz para outras pessoas, transformando assim o ambiente em que vivem”. De forma análoga falar abertamente sobre viver com deficiência a todos os níveis é para ti uma forma de romper com rótulos, preconceitos e a infantilização dos deficientes?
Sim, acho que sim. Falar abertamente sobre viver com deficiência é uma forma de quebrar rótulos e muitas ideias feitas que ainda existem. Ainda há muito preconceito e também alguma infantilização, e isso não ajuda ninguém.
Quando falamos de forma mais natural sobre isto, mostra-se que não somos só a deficiência. Somos pessoas, com dias bons e maus, com dificuldades, com sonhos, com tudo o que qualquer pessoa tem.
Essa ideia do Beato Luigi Novarese faz-me sentido, no sentido em que a nossa realidade, mesmo com tudo o que traz de difícil, também pode ter impacto nos outros. Não por obrigação de sermos exemplo, mas porque pode ajudar a mudar a forma como as pessoas olham.
Para mim, falar disto também é uma forma de ser mais verdadeira comigo própria e de tentar contribuir, um bocadinho que seja, para menos rótulos e mais respeito.
7. Sofreste bullying durante a tua infância e juventude. Como se fica em paz com estas cicatrizes interiores? Fizeram-te crescer e renascer para as transformares em algo belo?
Sim… sofri muito na escola, mas isso tornou-se mais acentuado e sério no meu 10.º ano, em 2016, com raparigas mais velhas do que eu.
Também sempre tive dificuldades em me relacionar e nunca me encaixava bem em grupos. Até em trabalhos de grupo, muitas vezes preferia fazê-los sozinha, porque assim sentia-me mais segura e com mais controlo da situação.
Ainda hoje tenho essa dificuldade de relacionamento. Nunca fui muito de ter amigos, e muitas vezes afastava as pessoas, até quando queriam ajudar-me. Cheguei mesmo a tratá-las mal. Acho que havia em mim muita revolta e não sabia bem como lidar com isso, então acabava por reagir assim.
Mas hoje é diferente… hoje gosto que os outros gostem de mim e isso mexe comigo, às vezes até sofro com isso, porque dou muita importância à forma como me veem.
Hoje ainda tenho muita dificuldade em pedir e aceitar ajuda, mas estou a tentar trabalhar isso, aos poucos.
Ficar em paz com estas cicatrizes não é algo imediato. Não é esquecer nem fingir que não aconteceu. Para mim, é um processo. É aprender a olhar para isso sem deixar que isso defina quem eu sou hoje.
Houve momentos em que me fez muito mal e em que me fez duvidar de mim própria. Mas, com o tempo, também me obrigou a crescer de outra forma, a perceber melhor os outros, a ser mais sensível e a valorizar mais quem sou hoje.
Hoje estou nesse caminho de paz com essas memórias. Não está tudo resolvido, mas já não me definem como antes.
8. Escreveste sobre o Centro Francisco e Jacinta Marto em Fátima “Naquele lugar, deixo de ser o que o mundo espera de mim e volto a ser quem realmente sou. Sem máscaras. Sem pressas. Sem títulos. Só o essencial: o amor, entrega e fé. As viagens religiosas têm o condão de te religar a ti própria e fazer descobrir em ti coisas que desconhecias?
Sim, acredito que sim. Para mim, as viagens religiosas têm mesmo esse efeito de me religar a mim própria. Saio um pouco do ritmo do dia a dia, das expectativas, das pressas… e isso permite-me estar mais em silêncio comigo mesma.
No Centro Francisco e Jacinta Marto, em Fátima, sinto muito isso. É como se, naquele espaço, eu deixasse de ser o que o mundo espera de mim e voltasse a ser apenas eu, sem máscaras, sem pressas, sem pressões. Só o essencial: o amor, a entrega e a fé.
Essas experiências ajudam-me a descobrir coisas em mim que, no dia a dia, acabam por ficar escondidas. E também me ajudam a recentrar, a perceber melhor o que sinto e o que realmente importa.
E também me ajudam a aceitar-me com tudo o que sou, com as minhas fragilidades e as minhas forças.
No fundo, são momentos que me trazem mais paz interior e uma forma diferente de olhar para mim e para a vida.
“Nem sempre tenho de estar bem para estar a evoluir”.
9. Elogias muito a tua mãe que te criou sozinha, mas não escondes que também passaste por períodos de revolta, de infelicidade, de comparações e de “e se?”. O facto de não ser uma jornada linear e de teres uma deficiência degenerativa, com a dose de incerteza que isso implica, piora a tua regulação emocional?
Sim acho que piora, de certa forma. O facto de a minha jornada não ser linear e de viver com uma deficiência degenerativa traz muita incerteza, e isso mexe bastante comigo a nível emocional.
Há dias em que estou melhor e outros em que não sei o que esperar do meu corpo, e essa imprevisibilidade faz-me sentir mais vulnerável, mais ansiosa e, às vezes, mais em baixo. Não é fácil gerir isso.
Também houve períodos de revolta, de infelicidade, de comparações e muito aquele pensamento do ‘e se…”. ‘E se a minha vida fosse diferente?, ‘E se não tivesse de passar por isto?’. E isso também pesa.
Mas ao mesmo tempo, a minha mãe tem sido sempre a minha base. Ela criou-me sozinha, trabalha muitíssimo na cozinha e é o meu maior apoio. Mesmo com todas as nossas diferenças, porque somos muito diferentes, ela é o meu motor. Eu sou mais emocional, ela é mais prática, e isso às vezes choca, mas também nos completa.
Somos muito ligadas, às vezes até em excesso. Tenho uma dependência emocional grande dela e fico muito em casa quando ela trabalha. E isso também influencia muito a forma como eu lido com tudo, porque o meu mundo acaba por ser mais fechado. E já não sei viver de outra forma.
Hoje continuo a aprender a lidar com tudo isto. Não é linear, não é perfeito, mas estou num processo de tentar aceitar melhor os dias difíceis, ser mais gentil comigo própria e perceber que nem sempre tenho de estar bem para estar a evoluir.
10. Tens duas frases muito emblemáticas referentes a transformar caos em ouro “Vou fazer o meu melhor e chega” e “Evolução não é fazer mais, é ser mais”. O passar do tempo ajuda a sentirmo-nos suficientes e a aprofundar o autoconhecimento, a nossa interioridade?
Sim, acho que sim. O passar do tempo ajuda-nos a olhar para nós próprios de forma diferente. Pelo menos comigo tem sido assim.
Durante muito tempo eu exigia muito de mim, queria fazer mais, ser mais, estar sempre bem… e isso muitas vezes só me deixava mais cansada e frustrada. Hoje estou a aprender que ‘vou fazer o meu melhor e chega’ já é suficiente. Nem sempre é fácil pôr isso em prática, mas estou nesse caminho.
E também acredito muito que evolução não é fazer mais, é ser mais. Ser mais consciente, mais presente comigo própria, mais verdadeira com o que sinto. Isso não tem tanto a ver com quantidade, mas com profundidade.
Com o tempo, vou-me conhecendo melhor. Vou percebendo mais as minhas emoções, os meus limites, as minhas fragilidades… e isso também me ajuda a aceitar-me mais. Não no sentido de desistir de mim, mas de me tratar com mais calma.
Acho que ainda estou nesse processo de me sentir suficiente. Há dias em que consigo e outros em que não, mas já não me exijo como antes. E isso, para mim, já é uma forma de evolução.
E isso deixa-me mais em paz comigo própria.
Paula Cristina Gouveia




















