Entrevista a Daniela Sá “Vou aprendendo a escutar-me mais”

 

Daniela Sá nasceu a 6 de julho de 1989, sendo que um parto prolongado lhe causou paralisia cerebral espástica, resultando em deficiência motora progressiva e mobilidade condicionada.

Na sua rede social Instagram compartilha observações não só sobre a deficiência, mas também sobre o estado do mundo, a sua fé, o seu sentido de humor, opiniões políticas e até comentários recheados de ironia.

Fomos conhecer a Daniela um pouco melhor:

 

1. Descreves a escrita como uma “terapia, para habitar lugares de fronteira, de inquietação e de descoberta”. Tens uma frase muito bonita que é “Somos presidentes da nossa consciência, somos gerentes do nosso banco de afetos. Afinal temos um poder imenso”. Queres falar um bocadinho sobre quem é a Daniela a partir daí? 

 

Para mim, a escrita é muito uma forma de me organizar por dentro. Há momentos em que nem sei bem o que estou a sentir, e escrever ajuda-me a perceber, a dar nome às coisas. É um espaço muito meu, quase como um refúgio, onde posso ser mesmo honesta.

Essa frase fala muito disso… de perceber que, mesmo no meio da confusão, há uma parte de mim que pode escolher. Posso não controlar tudo o que me acontece, mas tenho sempre alguma responsabilidade sobre o que faço com isso, sobre o que guardo e sobre o que dou aos outros.

A Daniela é alguém que sente muito, que pensa muito também, e que está em constante construção. Nem sempre é fácil, mas há uma grande vontade de ser verdadeira, de não fugir ao que sinto. E a escrita é esse lugar onde me encontro, às vezes também me confronto, mas, no fundo, onde volto sempre a mim.

 

2. Tens um fascínio genuíno pela Natureza (nascer e pôr do sol, mar, desenhos dos aviões no céu, a lua, a sensação de liberdade ao planares sobre uma piscina, o teu profundo respeito pelos animais, plantas, planeta, universo, bactérias e átomos). Acreditas que ver o mundo por esta perspetiva mais alargada te ajuda a relativizar os teus problemas diários?

 

Sim, sem dúvida… e ajuda-me muito, logo eu que sofro tantas vezes por antecipação. A Natureza tem esse efeito em mim, lembra-me constantemente que há algo muito maior do que eu e do que aquilo que estou a sentir no momento. Quando olho para o mar, para o céu, para a lua, ou até para coisas mais pequenas, sinto-me mais leve, como se tudo ganhasse outra perspetiva.

Não é que os problemas desapareçam, mas deixam de ocupar tanto espaço dentro de mim. Ficam mais… no seu lugar. Percebo que tudo é passageiro, que faço parte de algo muito maior, e isso acalma-me.

Acho que esse fascínio vem de um respeito profundo pela vida, em todas as formas. E, no meio disso tudo, consigo recentrar-me, volto a mim, mas com mais calma e mais consciência.

 

3.“Resiliência não é ter pressa. Ser resiliente é seguir em diante. Seja na velocidade que for” é outra das tuas citações. Nos teus dias mais difíceis e tristes, consegues lembrar-te que continuas a evoluir e a ir em frente, apesar de qualquer contratempo?

 

Nem sempre… há dias em que me esqueço completamente disso. Há dias em que custa mais, em que só apetece parar e ficar ali. Mas, mesmo nesses dias, há qualquer coisa em mim que não desiste totalmente.

Essa frase nasce muito dessa consciência, de que resiliência não é andar sempre bem nem seguir em frente com força o tempo todo. Às vezes é só continuar, mesmo devagarinho, mesmo sem certezas.

Vou-me lembrando, aos poucos, de que continuar já é muito. De que, mesmo quando parece que não estou a evoluir, há sempre alguma coisa a mexer cá dentro. E isso ajuda-me a ter mais paciência comigo… a respeitar o meu ritmo e a acreditar que, de uma forma ou de outra, estou sempre a ir em frente.

 

“Quando me trato com mais gentileza, tudo fica um bocadinho mais leve”.

 

4. Tens uma deficiência que é visível, que te causa rigidez muscular, dores e te leva a andar de canadianas e ocasionalmente de cadeiras de rodas. Quando o corpo não coopera da melhor maneira isso pode causar frustração, desilusão e até episódios de depressão. Queres falar como procuras entrelaçar da melhor forma a tua saúde física com a saúde mental?

 

É um caminho… não é uma coisa que eu tenha resolvida. Há dias em que o meu corpo não acompanha aquilo que eu gostava, e isso traz frustração, cansaço, às vezes até tristeza mais profunda. Não vale a pena romantizar isso.

E, muito sinceramente, ainda há em mim alguma revolta… sobretudo porque a minha deficiência não é linear. Há dias em que consigo fazer mais, outros em que o corpo simplesmente não colabora, e essa imprevisibilidade mexe muito comigo.

O que vou aprendendo é a escutar-me mais. A perceber os meus limites sem me castigar por eles. Durante muito tempo lutei contra o meu próprio corpo, e isso só me deixava mais em baixo. Hoje tento fazer diferente tento cuidar de mim como cuidaria de alguém de quem gosto muito.

A saúde física e a saúde mental estão completamente ligadas, pelo menos para mim. Quando uma falha, a outra sente. Então vou procurando pequenos equilíbrios: respeitar o meu ritmo, dar-me pausas, não exigir de mim o que não consigo dar naquele dia.

E depois há também o lado de aceitar… não no sentido de desistir, mas de fazer as pazes com o que é. Ainda estou nesse processo, todos os dias. Mas acredito que, quando me trato com mais gentileza, tudo fica um bocadinho mais leve.

 

“Acredito que Deus também me acompanha assim, na minha fragilidade e no meu caminho, mesmo quando eu própria não me sinto capaz”.

 

5. Uma das componentes que é um bálsamo para quem acredita é a fé e tu descreves-te como católica e citas o falecido Papa Francisco (1936-2025) quando ele disse “Somos o milagre uns dos outros” e “Não tenham medo”. Acreditas que podemos mudar o mundo? E que mesmo que este nos peça a perfeição das máquinas o nosso maior valor enquanto seres humanos é a vulnerabilidade e a coragem?

Sim, acredito que podemos mudar o mundo, mas não no sentido de coisas grandiosas ou perfeitas. Acho que mudamos o mundo sobretudo nas pequenas coisas, na forma como tratamos os outros e como estamos presentes.

A fé, para mim, é algo muito importante, mas também muito complexo. O meu caminho pela fé é muito complicado, cheio de curvas e obstáculos, e muitas vezes confesso que acabo por virar costas a esse chamamento que sinto que Deus me faz no dia a dia.

Eu também tenho dificuldades de aprendizagem e fiz parte do apoio previsto no Decreto-Lei n.º 54/2018. E isso marcou muito o meu percurso, inclusive na catequese, que foi sempre difícil para mim, só fui até ao 3.º ano.

Tenho muita dificuldade em decorar orações e ainda hoje isso me custa. E admito, com alguma vergonha, que não as sei de cor. Muitas vezes, quando estou em grupo, sigo os outros… porque sozinha baralho-me, troco tudo, e isso faz-me sentir insegura.

Eu fecho-me muito no meu mundo, sou muito caseira e, às vezes, sou mesmo difícil de lidar. Muitas vezes nem eu me aturo, e reconheço também que já tratei mal algumas pessoas. Não me orgulho disso, mas faz parte da minha história e estou a aprender com isso.

Mas apesar de tudo, a fé continua a estar presente em mim de outra forma. Talvez não perfeita, nem organizada, mas verdadeira. E acredito que Deus também me acompanha assim, na minha fragilidade e no meu caminho, mesmo quando eu própria não me sinto capaz.

 

6. Citas o Beato Luigi Novarese “A pessoa doente pode tornar-se luz para outras pessoas, transformando assim o ambiente em que vivem”. De forma análoga falar abertamente sobre viver com deficiência a todos os níveis é para ti uma forma de romper com rótulos, preconceitos e a infantilização dos deficientes?

 

Sim, acho que sim. Falar abertamente sobre viver com deficiência é uma forma de quebrar rótulos e muitas ideias feitas que ainda existem. Ainda há muito preconceito e também alguma infantilização, e isso não ajuda ninguém.

Quando falamos de forma mais natural sobre isto, mostra-se que não somos só a deficiência. Somos pessoas, com dias bons e maus, com dificuldades, com sonhos, com tudo o que qualquer pessoa tem.

Essa ideia do Beato Luigi Novarese faz-me sentido, no sentido em que a nossa realidade, mesmo com tudo o que traz de difícil, também pode ter impacto nos outros. Não por obrigação de sermos exemplo, mas porque pode ajudar a mudar a forma como as pessoas olham.

Para mim, falar disto também é uma forma de ser mais verdadeira comigo própria e de tentar contribuir, um bocadinho que seja, para menos rótulos e mais respeito.

 

7. Sofreste bullying durante a tua infância e juventude. Como se fica em paz com estas cicatrizes interiores? Fizeram-te crescer e renascer para as transformares em algo belo?

 

Sim… sofri muito na escola, mas isso tornou-se mais acentuado e sério no meu 10.º ano, em 2016, com raparigas mais velhas do que eu.

Também sempre tive dificuldades em me relacionar e nunca me encaixava bem em grupos. Até em trabalhos de grupo, muitas vezes preferia fazê-los sozinha, porque assim sentia-me mais segura e com mais controlo da situação.

Ainda hoje tenho essa dificuldade de relacionamento. Nunca fui muito de ter amigos, e muitas vezes afastava as pessoas, até quando queriam ajudar-me. Cheguei mesmo a tratá-las mal. Acho que havia em mim muita revolta e não sabia bem como lidar com isso, então acabava por reagir assim.

Mas hoje é diferente… hoje gosto que os outros gostem de mim e isso mexe comigo, às vezes até sofro com isso, porque dou muita importância à forma como me veem.

Hoje ainda tenho muita dificuldade em pedir e aceitar ajuda, mas estou a tentar trabalhar isso, aos poucos.

Ficar em paz com estas cicatrizes não é algo imediato. Não é esquecer nem fingir que não aconteceu. Para mim, é um processo. É aprender a olhar para isso sem deixar que isso defina quem eu sou hoje.

Houve momentos em que me fez muito mal e em que me fez duvidar de mim própria. Mas, com o tempo, também me obrigou a crescer de outra forma, a perceber melhor os outros, a ser mais sensível e a valorizar mais quem sou hoje.

Hoje estou nesse caminho de paz com essas memórias. Não está tudo resolvido, mas já não me definem como antes.

 

8. Escreveste sobre o Centro Francisco e Jacinta Marto em Fátima “Naquele lugar, deixo de ser o que o mundo espera de mim e volto a ser quem realmente sou. Sem máscaras. Sem pressas. Sem títulos. Só o essencial: o amor, entrega e fé. As viagens religiosas têm o condão de te religar a ti própria e fazer descobrir em ti coisas que desconhecias?

 

Sim, acredito que sim. Para mim, as viagens religiosas têm mesmo esse efeito de me religar a mim própria. Saio um pouco do ritmo do dia a dia, das expectativas, das pressas… e isso permite-me estar mais em silêncio comigo mesma.

No Centro Francisco e Jacinta Marto, em Fátima, sinto muito isso. É como se, naquele espaço, eu deixasse de ser o que o mundo espera de mim e voltasse a ser apenas eu, sem máscaras, sem pressas, sem pressões. Só o essencial: o amor, a entrega e a fé.

Essas experiências ajudam-me a descobrir coisas em mim que, no dia a dia, acabam por ficar escondidas. E também me ajudam a recentrar, a perceber melhor o que sinto e o que realmente importa.

E também me ajudam a aceitar-me com tudo o que sou, com as minhas fragilidades e as minhas forças.

No fundo, são momentos que me trazem mais paz interior e uma forma diferente de olhar para mim e para a vida.

 

“Nem sempre tenho de estar bem para estar a evoluir”.

 

9. Elogias muito a tua mãe que te criou sozinha, mas não escondes que também passaste por períodos de revolta, de infelicidade, de comparações e de “e se?”. O facto de não ser uma jornada linear e de teres uma deficiência degenerativa, com a dose de incerteza que isso implica, piora a tua regulação emocional?

Sim acho que piora, de certa forma. O facto de a minha jornada não ser linear e de viver com uma deficiência degenerativa traz muita incerteza, e isso mexe bastante comigo a nível emocional.

Há dias em que estou melhor e outros em que não sei o que esperar do meu corpo, e essa imprevisibilidade faz-me sentir mais vulnerável, mais ansiosa e, às vezes, mais em baixo. Não é fácil gerir isso.

Também houve períodos de revolta, de infelicidade, de comparações e muito aquele pensamento do ‘e se…”. ‘E se a minha vida fosse diferente?, ‘E se não tivesse de passar por isto?’. E isso também pesa.

Mas ao mesmo tempo, a minha mãe tem sido sempre a minha base. Ela criou-me sozinha, trabalha muitíssimo na cozinha e é o meu maior apoio. Mesmo com todas as nossas diferenças, porque somos muito diferentes, ela é o meu motor. Eu sou mais emocional, ela é mais prática, e isso às vezes choca, mas também nos completa.

Somos muito ligadas, às vezes até em excesso. Tenho uma dependência emocional grande dela e fico muito em casa quando ela trabalha. E isso também influencia muito a forma como eu lido com tudo, porque o meu mundo acaba por ser mais fechado. E já não sei viver de outra forma.

Hoje continuo a aprender a lidar com tudo isto. Não é linear, não é perfeito, mas estou num processo de tentar aceitar melhor os dias difíceis, ser mais gentil comigo própria e perceber que nem sempre tenho de estar bem para estar a evoluir.

 

Daniela e a sua mãe

 

10. Tens duas frases muito emblemáticas referentes a transformar caos em ouro “Vou fazer o meu melhor e chega” e “Evolução não é fazer mais, é ser mais”. O passar do tempo ajuda a sentirmo-nos suficientes e a aprofundar o autoconhecimento, a nossa interioridade?

Sim, acho que sim. O passar do tempo ajuda-nos a olhar para nós próprios de forma diferente. Pelo menos comigo tem sido assim.

Durante muito tempo eu exigia muito de mim, queria fazer mais, ser mais, estar sempre bem… e isso muitas vezes só me deixava mais cansada e frustrada. Hoje estou a aprender que ‘vou fazer o meu melhor e chega’ já é suficiente. Nem sempre é fácil pôr isso em prática, mas estou nesse caminho.

E também acredito muito que evolução não é fazer mais, é ser mais. Ser mais consciente, mais presente comigo própria, mais verdadeira com o que sinto. Isso não tem tanto a ver com quantidade, mas com profundidade.

Com o tempo, vou-me conhecendo melhor. Vou percebendo mais as minhas emoções, os meus limites, as minhas fragilidades… e isso também me ajuda a aceitar-me mais. Não no sentido de desistir de mim, mas de me tratar com mais calma.

Acho que ainda estou nesse processo de me sentir suficiente. Há dias em que consigo e outros em que não, mas já não me exijo como antes. E isso, para mim, já é uma forma de evolução.

E isso deixa-me mais em paz comigo própria.

 

 

Paula Cristina Gouveia

“Renascer” exposição de pintura na Biblioteca Municipal de Nelas António Lobo Antunes

 

 

Recentemente está patente uma exposição de extraordinária beleza na Biblioteca Muncipal de Nelas, António Lobo Antunes, da autoria de Celeste Martins. Nascida em 1964, numa localidade do concelho de Mangualde, viveu durante 36 anos em Lisboa. Há nove anos regressou à terra natal para cuidar “de uma das pessoas mais importantes da sua vida, a sua mãe”.

Numa fase marcada pela fragilidade física e emocional, pelas complexidades e exigências do que implica prestar cuidados à mulher que lhe deu a vida, Celeste encontrou na pintura uma forma de expressão que lhe porporcionou uma profunda reconstrução exterior. Na arte descobriu um espaço de refúgio, expressão e superação que hoje se reflete nas suas obras.

Cada obra reflete experiências e sentimentos profundos da autora transportados para a tela em forma de emoções intensas, numa viagem que a própria descreve como um processo de “reconstrução interior e recomeço pessoal”.

Pessoalmente o que mais me impressionou nos trabalhados de Celeste Martins foi a sua extrema sensibilidade aliada a uma variedade de estilos e técnicas inspiradoras que mostram a procura intensa da artista por se encontrar e expressar o que lhe vai na alma.

 

 

Prémio TÁGIDES 2025 Anúncio dos Nomes Selecionados e a Composição do Júri

 

Associação All4Integrity comunicou recentemente os nomes selecionados para o Prémio Tágides 2025: pessoas que inspiram no combate à corrupção, bem como o respetivo painel de jurad@s das várias categorias. Da lista atual, serão identificados pelo júri até cinco nomes finalistas em cada categoria, cujo anúncio será feito no dia 9 de fevereiro de 2026.

Encerrado o período de nomeações e candidaturas, e terminado o processo de validação, a Associação All4Integrity anuncia os nomes selecionados nas seguintes categorias: Iniciativa Empresarial, Iniciativa Jovem, Iniciativa Política, Iniciativa Portugal no Mundo, Projeto de Investigação e Projeto da Sociedade Civil. Está também fechado o painel de jurad@s que, segundo o Regulamento, será chamado a pronunciar-se sobre o mérito dos trabalhos apresentados e a apurar os/as finalistas. Do total das 81 nomeações e candidaturas recebidas foram selecionados 34 nomes.

O júri vai agora proceder à avaliação dos trabalhos desenvolvidos pelos nomes selecionados, sendo que a divulgação dos 5 ou, em alguns casos, 3nomes finalistas de cada categoria será feita no dia 9 de fevereiro.

A cerimónia de entrega do Prémio Tágides 2025, terá lugar no dia 12 de março, no Centro Cultural de Belém, às 17h30.

Os nomes selecionados são:

INICIATIVA EMPRESARIAL

Nomes Selecionados: by ThFGrupo Pinto BastoLisbon PojectEuropean Observatory of Whistleblowing in Academia , Sónia Mota.

Júri: Frederico Fezas Vital (Presidente), Bruno Mateus PadinhaCarla Mendes HenriquesCátia Sá GuerreiroFilipe PereiraJoão LeiteSusana Barros.

 

INICIATIVA JOVEM

Nomes Selecionados: Alexandre Poço, Catarina MarinhoDiogo Santana LopesInês Bichão, José d’Assis Cordeiro.

Júri: Francisco Cordeiro de Araújo (Presidente), Catarina BarreirosHenrique Pinto de MesquitaJoão MalhadeiroJúlia SeixasPedro dos SantosTomás Burns.

INICIATIVA POLÍTICA

Nomes Selecionados: Ana Sofia AntunesAntónio Henrique CruzAntónio José SeguroCatarina MarinhoFernando PintoLuís Guimarães de CarvalhoMiguel MorgadoPedro Caldeira SantosRicardo Mexia.

JúriAlexandra Jorge (Presidente), Bruno MagalhãesCristina Neto de CarvalhoFilipa Alves RaimundoPedro BarbeitosPedro Sousa, Vítor Neves.

INICIATIVA PORTUGAL NO MUNDO

Nomes Selecionados: Américo RodriguesFrancesco MarconiMariana van Zeller.

Júri: António Delicado (Presidente), Maria João Costa, Mariana de Sousa e Alvim, ⁠Patrícia BorgesRicardo Bayão Horta, Rita Madeira, Vítor Gaspar.

PROJETO DE INVESTIGAÇÃO

Nomes Selecionados: António MaiaDaniela Marques FariaGustavo Gouvêa MacielInês BichãoJoão SimãoLuís Guimarães de CarvalhoLuís NevesOlívio Mota Amador, Patrick de Pitta Simões.

Júri: João Ribeiro-Bidaoui (Presidente), Ana GuerreiroBárbara Ferraz da SilvaEdgar PimentaJulia GraciaMiguel Lucas PiresSónia Lima.

PROJETO DA SOCIEDADE CIVIL 

Nomes Selecionados: Bercina Pereira CalçadaCarlos AlexandreJorge RosadoMiguel CarvalhoSérgio MendonçaSusana Garrett Pinto.

Júri: António Garcia PereiraAgostinho Pereira de MirandaAna Rita MoreiraAntónio Batista LopesAntónio Carlos CortezInez Correa de SáMaria d’Oliveira Martins.

Para saber mais sobre o Prémio Tágides consulte os seguintes links

https://www.all4integrity.org/

https://www.all4integrity.org/premio-tagides/  

https://www.all4integrity.org/premio-tagides/nomes-selecionados/

https://www.all4integrity.org/premio-tagides/juri/

Entrevista a Sergi March “As identidades apareceram para que eu pudesse continuar a viver”

 

Sergi March é um homem espanhol com 41 anos de idade diagnosticado com TID (Transtorno Dissociativo de Identidade), antigo Transtorno de Personalidade Múltipla, que tenta alertar os outros para esta condição e faz ativismo pela saúde mental em todas as suas dimensões.

 

“Não foi uma loucura nem uma falha, foi uma reação lógica a algo que nenhum menino deveria viver”

 

1. Sergi, a sua infância foi marcada por abuso sexual, maus tratos continuados e violência familiar. Desenvolveu as múltiplas identidades (alters) como uma forma de compartimentar acontecimentos com os quais não sabia lidar e poder sobreviver, não só física, mas também emocionalmente. Sente que isso o protegeu de alguma forma de tanto sofrimento e impotência pelo qual estava a passar?

 

Sim… sem dúvida nenhuma. Se a minha cabeça não tivesse feito isso, eu não poderia ter continuado. Não foi algo consciente, claro, foi uma resposta automática de proteger-me quando não havia ninguém mais que pudesse fazê-lo.

As identidades apareceram para que eu pudesse continuar a viver enquanto outras partes ficavam com o que doía, com o que dava medo. E visto em perspetiva, foi a única maneira que teve a minha mente de salvar-me.

Hoje tenho de trabalhar com as consequências de tudo, mas também tenho muito claro que não foi uma loucura nem uma falha, foi uma reação lógica a algo que nenhum menino deveria viver. Assim que sim, protegeu-me… e provavelmente salvou-me a vida.

 

2. Depois de diagnósticos errados, como doença bipolar, teve finalmente o diagnóstico correto e descobriu que tinha 14 identidades adultas e 3 infantis. O que é que isto significou para si e para os seus entes queridos?

 

Senti muito medo, mas também pensei que por fim muita gente que me atacava ia entender o que me acontecia. Acreditei que o diagnóstico ia trazer compreensão e infelizmente, para certas pessoas, não foi assim.

Além do mais, no meu caso há amnesia dissociativa e isso faz que não recorde nada antes de 12 de junho de 2024, salvo alguns factos traumáticos muito concretos. Entender isto também me ajudou a compreender porquê não me lembrava de muitas coisas que me diziam ou inclusive certos espaços horários de dias inteiros. Foi como dar sentido a lacunas que antes me desconcertavam.

E para as pessoas próximas foi um processo de aprendizagem, de adaptar-se e de entender que isto não é sobre mentiras nem inventar nada ou chamar a atenção, é sobre uma pessoa que teve de dividir-se para poder sobreviver e agora tenta recompor-se como pode.

 

3. O Sergi diz que a dissociação pode começar com dores de cabeça e durar horas ou um dia inteiro, provocada por ruídos ou outros estímulos. Também falou de ter flashbacks horríveis durante o sono, em que o cérebro e o corpo estão desconectados. As experiências dolorosas têm a sua maneira de persistir?

 

Sim, as experiências dolorosas têm a sua maneira de persistir. A dissociação pode começar de formas que parecem pequenas como uma dor de cabeça e logo estender-se durante horas ou inclusivamente todo o dia, sobretudo se há ruídos ou estímulos que me sobrecarregam.

Durante o sono, os flashbacks também são horríveis: o cérebro e o corpo desconectam-se e mesmo que não estejas “consciente” no momento, o corpo recorda e sofre.

Tudo isto deixa marcas, mas também me ensinou muito sobre como funciona a minha mente e os meus limites. Não é algo que se possa apagar, mas pode-se sim aprender a viver com isso, entendê-lo e trabalhar para que não controle todo o meu dia-a-dia.

 

“Ter múltiplas identidades ou confusão sobre memórias não tem nada a ver com fazer mal. É apenas um mecanismo de sobrevivência”.

 

4. Ver a vida como um espetador, como na despersonalização ou distanciamento de um ambiente externo (desrealização) são experiências que lhe acontecem. Estão associadas com a dissociação? Em que medida crê que o TID está retratado de forma estereotipada nos filmes de Hollywood? (pessoa que pode ter várias identidades, lapsos de memória e confusão sobre eventos pessoais entre estas, mas sempre com um laivo de maldade, de querer prejudicar alguém).

Sim… a despersonalização faz parte da dissociação. Há momentos em que sinto que estou a viver a vida como um espectador. Como se tudo estivesse a acontecer através de uma tela e eu não estivesse completamente dentro do meu corpo.

Não significa que eu seja louco nem que queira fazer dano a ninguém. É a minha mente a buscar a forma de sobreviver ao stress e ao trauma. Isso é tudo.

E Hollywood… uff, Hollywoood faz tudo mal. Mostra-nos sempre pessoas perigosas. Com lapsos de memória que levam ao crime, que manipulam os outros… Isso não é a realidade.

 

Ter múltiplas identidades ou confusão sobre memórias não tem nada a ver com fazer mal. É apenas um mecanismo de sobrevivência.

O que importa de verdade é mostrar como alguém com TID vive, luta e se reconstrói a cada dia, sem morbilidade, sem dramatização. É isso que realmente acontece.

 

5. O que significam regulação emocional e segurança para si hoje e para a sua criança interior?

 

Hoje tento controlar as minhas emoções e não me deixar que elas me dominem, embora nem sempre consiga. A segurança, para mim, significa sentir-me um pouco mais tranquilo comigo mesmo, apesar de, todavia haver momentos em que não o consigo de todo.

Estou aprendendo, passo a passo, e alguns dias são mais fáceis do que outros. Não é uma jornada concluída, nem tenho todas as respostas, mas cada pequeno passo adiante me ajuda a sentir que posso continuar.

 

6. Tem tentado de alguma maneira falar a essa criança e dizer-lhe que está tudo bem, que ela caminhou sobre o fogo e completou a travessia até ao outro lado?

 

Sim, estou a começar a aprender a fazer isso com a ajuda da minha psicóloga, a reconhecer tudo o que passei e a dizer-me que estou bem, que sobrevivi a coisas muito difíceis e que posso seguir em frente.

Mas, sendo honesto, não sei fazer como fazê-lo completamente, não é algo que tenha controlado. É um processo e cada pequeno avanço me lembra que posso seguir caminhando, passo a passo, até sentir-me um pouco mais tranquilo comigo mesmo.

 

É um caminho lento, mas estou decidido a caminhá-lo e a fazê-lo meu”.

 

7. O Sergi lamentava-se do tempo perdido até ter o diagnostico certo, pois só se lembra de forma consistente da sua vida no último ano e meio. Vê os 41 anos como correr atrás do prejuízo ou como uma espécie de Renascimento?

Tenho 41 anos e ao viver com amnesia dissociativa às vezes sinto que estou a viver a vida de outros no lugar da minha. Há lacunas, memórias que não tenho, e isso as vezes dá-me uma sensação estranha de desconexão.

Mas ao mesmo tempo sei que quero construir a minha própria vida, passo a passo, aprender a estar comigo mesmo e aproveitar cada momento que posso recordar. É um caminho lento, mas estou decidido a caminhá-lo e a fazê-lo meu.

 

8. O Sergi teve uma vida mentalmente fragmentada e que pode ter sido muito confusa em determinados momentos, mas que não deixa de ser grande, rica e interessante. Sente que as suas diferentes entidades vão continuar a existir independentemente da sua vontade, ou podem tornar-se mais uniformes com um trabalho de integração, nomeadamente psicoterapia?

 

Não procuro que as identidades se integrem nem desapareçam: o que quero é ser funcional, viver com ordem e poder gerir o meu dia-a-dia sem que nada me bloqueie.

Com a ajuda da psicoterapia estou a aprender a coordenar-me comigo mesmo e com as minhas distintas partes, e a minha psicóloga disse-me que temos que ser como um exército, e eu ser o de maior patente. Isto significa que eu decido, traço o rumo e todos os outros cooperam para que tudo funcione.

Não se trata de excluir nada, mas de fazer que tudo funcione para mim, passo a passo, com controlo e ordem.

“A minha experiência é real e legítima”

 

9. Uma rede de apoio e afeto é essencial para manter a saúde mental e melhorar e isso o Sergi já tem. A ignorância da sociedade que põe preconceitos e rótulos sem conhecer é o mais difícil de mudar. Quais são as alturas em que se sente mais compreendido, escutado com empatia e validado no mundo?

Sinto-me mais compreendido, escutado e validado quando estou com a Xandra, que é a minha companheira e o meu apoio mais próximo na vida diária. Ela conhece as minhas outras identidades muito melhor que eu e isso dá-me tranquilidade e força porque posso confiar que não estou sozinho e que alguém realmente me entende.

Também me sinto validado quando posso falar de TID e amnésia dissociativa com pessoas que escutam de verdade, que querem entender e não julgam. Esses momentos lembram-me que a minha experiência é real e legítima.

O mais difícil continua a ser a ignorância da sociedade e os preconceitos que existem à minha volta. Há gente demasiado próxima que me invalida, que nega a minha experiência ou quer dar a impressão como se não existisse, e isso doi e complica as coisas.

Ter a Xandra e àqueles que realmente me escutam permite-me seguir em frente, resistir e construir a minha vida segundo as minhas próprias regras, passo a passo, pese a ignorância e os preconceitos dos outros.

 

10. Quais são os seus maiores desejos para 2026?

 

Para 2026 o meu maior desejo é seguir ganhando estabilidade e ordem na minha vida, poder gerir o meu dia-a-dia com mais calma e funcionalidade.

Também quero seguir avançando na terapia, aprendendo a cuidar-me e a entender-me melhor, embora eu saiba que é um processo longo.

E sobretudo, desejo poder continuar a construir a minha vida com a Xandra e, ao mesmo tempo, ajudar as pessoas a compreender o TID e a amnesia dissociativa para que saibam que a nossa experiência é real e que se pode viver com ela, passo a passo.

 

Paula Cristina Gouveia

Tradução do espanhol pela própria

A liberdade escondida nas rugas

Há uns meses, ao organizar o escritório da Ineditar, encontrei uma fotografia minha dos anos oitenta. Cabelo escuro, postura ereta, aquele brilho nos olhos de quem acredita que o tempo é infinito. Sorri ao reconhecer aquele jovem editor cheio de certezas. Depois, olhei-me ao espelho – cabelos brancos, rugas que contam histórias, uma certa lentidão nos gestos – e surpreendi-me com a ausência de melancolia. Algo em mim tem vindo a mudar, gradualmente, e não se trata apenas do corpo.

A nossa cultura ocidental vendeu-nos uma narrativa poderosa: envelhecer é perder. Perdemos vigor, beleza, relevância, velocidade. Os anúncios prometem-nos cremes “anti-idade”, como se a idade fosse uma doença a combater. Os eufemismos multiplicam-se – “terceira idade”, “anos dourados”, “melhor idade”, todos eles tentando disfarçar o que consideram uma tragédia: deixamos de ser jovens.

Mas e se esta narrativa estiver completamente errada? E se aquilo a que chamamos “envelhecer” for, na verdade, um convite ao amadurecimento mais profundo que a vida nos oferece?

No budismo, há um conceito que me tem acompanhado nestes anos de transição: tudo está em constante transformação, e resistir a essa transformação é a raiz do sofrimento. A questão não é se vamos mudar – isso é inevitável como o nascer do sol. A questão é se conseguimos dançar com a mudança ou se passaremos os nossos últimos anos numa luta exaustiva contra o inevitável.

Tenho vindo a descobrir algo paradoxal: quanto mais aceito as limitações do corpo que envelhece, mais livre me sinto. Já não preciso de impressionar ninguém com a minha produtividade. Já não tenho de provar o meu valor através de conquistas externas. Esta libertação não é resignação, é sabedoria que vai chegando aos poucos. É compreender, lentamente, que o nosso valor enquanto seres humanos nunca dependeu da nossa capacidade de produzir, de seduzir ou de competir.

Há capacidades que só se desenvolvem com a idade, e tenho-as visto florescer em mim quase sem dar por isso. A perspectiva, por exemplo. Aos vinte anos, cada desilusão parecia o fim do mundo. Aos sessenta, começo a reconhecer padrões, vejo como as crises se transformam, compreendo que “isto também passará”. Não é cinismo, é discernimento nascido da experiência repetida de atravessar tempestades e descobrir que o céu sempre volta a clarear.

A paciência é outra. Não a paciência forçada de quem se controla, mas aquela serenidade que vai chegando naturalmente quando já não temos tanto a provar. Posso escutar verdadeiramente porque já não estou tão ansioso por falar. Posso estar presente porque já não estou constantemente a projectar-me no futuro.

E há a compaixão – essa capacidade de ver o sofrimento alheio sem julgamento, que se vai desenvolvendo à medida que nos vemos suficientemente imperfeitos, já falhámos suficientemente, já fomos suficientemente humilhados pela vida para perdermos a arrogância da juventude. Descobrimos, com alívio, que todos estamos a fazer o melhor que conseguimos com as ferramentas imperfeitas que temos.

Claro que há perdas reais. Seria desonesto negá-las. O corpo dói mais, cansa-se mais depressa, esquece nomes que deveria lembrar. Amigos partem. Sonhos que não realizámos já não vão realizar-se. Há luto legítimo nisto tudo, e há dias mais difíceis que outros.

Mas até no luto há amadurecimento possível. Tenho aprendido, ainda estou a aprender, que posso sentir tristeza sem ser destruído por ela. Posso reconhecer a perda sem me definir pela perda. Esta capacidade de conter emoções difíceis sem fugir delas nem ser consumido por elas vai-se desenvolvendo com os anos, ainda que nem sempre de forma linear.

A liberdade escondida nos anos dourados, descobri, é a liberdade de ser cada vez mais autêntico. Já não preciso tanto de usar máscaras sociais. Se algo não me interessa, começo a conseguir dizer “não” com menos culpa. Se alguém me decepciona, posso distanciar-me com menos drama. Se quero passar a tarde a contemplar as árvores pela janela, faço-o sentindo cada vez menos que estou a “desperdiçar tempo”.

Porque vou compreendendo: nunca houve tempo a desperdiçar. O tempo simplesmente é. E cada momento vivido com presença plena, mesmo que seja “apenas” a observar o pôr do sol, é um momento de vida autêntica.

Pergunto-me frequentemente: que conselho daria ao jovem envolvido em projetos editoriais? Provavelmente diria: “Aproveita a tua força, mas não te apegues a ela. Celebra a tua beleza, mas não construas a tua identidade sobre ela. E prepara-te, o melhor ainda está por vir, ainda que de formas que não consegues imaginar.”

Porque a verdade surpreendente que tem emergido neste processo é esta: cada fase oferece possibilidades únicas de crescimento, de descoberta, de libertação. Não porque tudo seja fácil ou agradável, mas porque há uma qualidade diferente de profundidade disponível quando paramos de lutar contra o que somos e começamos a habitar plenamente onde estamos.

Envelhecer é inevitável. Amadurecer é um processo, por vezes desafiante, muitas vezes surpreendente, mas profundamente gratificante. E entre estas duas palavras reside toda a diferença entre viver os últimos anos em amargura ou em plenitude.

A escolha, como sempre, é nossa. E o caminho, felizmente, pode ser percorrido com leveza.

 

Alberto Melo

Gestor de Projetos Editoriais | Ineditar

alberto@ineditar.pt

 

Entrevista a Maria Vegas “Reconectarmo-nos connosco próprios não se faz num salto, mas sim em vários”

 

Maria Vegas é uma cantora e compositora portuguesa que lançou no ano passado o disco de estreia em inglês, “Reconnecting”, que já tem uma versão ao vivo “Reconnecting LIVE”. Bem disposta, sagaz, criativa e a mostrar que não há nada a temer para as mulheres acima dos quarenta, fomos falar com a Maria sobre o processo de criação deste disco, sobre os maiores desafios que já enfrentou e, no fundo, sobre a sua filosofia de vida.

 

“Tenho uma ligação com o mar de deslumbramento e medo, um pouco como tenho com o desconhecido”

 

1. O seu disco de estreia “Reconnecting” abre com a canção “Ocean”. Como é a sua ligação ao mar e porque decidiu abrir o trabalho com esse conceito?

MV – Procuro sempre no mar a paz à minha inquietude. Neste meu primeiro “mergulho” oficial no mundo da música onde me reconecto com o meu ser e conto histórias muito pessoais não fazia sentido não abrir a porta no lugar onde me sinto mais conectada, longe de todas as distrações. Tenho uma ligação com o mar de deslumbramento e medo, um pouco como tenho com o desconhecido (e todos os seres humanos acho eu). E às vezes a mudança é isso mesmo, saltar para o abismo mesmo sem sabermos o que vamos encontrar. “Ocean” foi também o primeiro tema que o Paulo Furtado (The Legendary Tigerman), o produtor deste álbum, me entregou para escutar. Foi uma das melhores sensações do mundo ouvir uma das minhas canções, que escrevo e componho na minha guitarra, pintada pela estética cinematográfica e sonhadora que o Paulo leu em mim.

 

2. É uma pessoa muito versátil: desde ser solista nos Pequenos Cantores da Maia, à pintura, Design de Moda a criar uma marca de calçado (MyPitangas) e agora um álbum musical. Diria que criar é um verbo que a define?

MV – Como dizia a Coco Chanel “para mim criar é uma necessidade tão básica como respirar”. E é isso mesmo que sinto, se tenho momentos na minha vida em que deixo de criar por algum razão, fico sem ar, passo mal 🙂 Então, é muito difícil passar pela vida sem o fazer. Vejo estética e construção em tudo à vinha volta, é um exercício espontâneo que me faz passar pelos dias com mais propósito e sentido.

 

3. Classifica a sua música de retro indie cinematográfica. Há quem veja influências de David Lynch na estética e de Nancy Sinatra ou Lana del Rey na sua voz. Era sua intenção criar uma atmosfera sonora onírica em que sua interpretação soa como uma verdade tão sincera, quase trovadoresca?

MV – Isso é uma maneira muito bonita de descrever a minha forma de estar na música, diria também que quase trovadora 🙂 Sim, eu também vejo essas influências e muitas outras. Somos feitos de histórias e de memórias que colecionamos ao longo da vida e elas naturalmente refletem-se na nossa obra. Essa “classificação” retro-indie-cinematográfica nasceu de uma brincadeira quando conversava sobre a comunicação do meu álbum e alguém no grupo de trabalho me disse que incontornavelmente me iriam questionar em que género que encaixo. Ora, indie assumidamente que sou porque este projeto é uma produção independente, fui apoiada pelo Fundo Cultural da SPA ao qual me candidatei, mas sou dona dos meus desígnios porque não tenho editora e fiz com que este sonho acontecesse pelas minhas próprias mãos; retro porque me considero antiga, pelos anos de histórias boas que tenho para contar e das influências que guardo; cinematográfica porque a estética da produção levou-nos para esse lugar das bandas sonoras onde o Paulo navega com mestria. Mas para ser muito sincera, quem tem a ousadia de lançar o seu primeiro álbum aos 43 anos pode catalogá-lo como quiser!

 

“Não descuido a minha saúde mental e levo muito a sério os desafios mentais. Faço psicoterapia “de manutenção” e às vezes em modo “gestão de crise.”

 

4. A Maria tem um negócio de venda de porco preto alentejano (Laborela) e chegou a fazer mil quilómetros por dia para ir ao encontro de todos os clientes. Alguma vez se sentiu em burnout ou num chamado ponto de rutura?

MV – Se acrescentarmos a isso, que sou mãe de dois, logo não durmo descansada desde 2011, temos o cenário perfeito para estar sempre perto do ponto de rotura! Sem dúvida que hoje em dia acumulamos esforços e funções numa corrida desenfreada para não sei bem o quê. O mundo tem nos provado nos últimos tempos que é cada vez mais urgente repensarmos a nossa forma de estar sempre que nos obriga a parar e ficamos reféns de não saber estar sem o barulho da humanidade. Tenho feito isso com muito respeito, mas a verdade é que faço aquilo que gosto e pelo facto de ter sido (quase) sempre patroa de mim próprio obrigou-me a desenvolver uma auto-disciplina de saber quando devo parar, ou abrandar, para que tudo valha a pena. No entanto, não descuido a minha saúde mental e levo muito a sério os desafios mentais, tenho sempre muitas coisas a acontecer, muitas responsabilidades, e preciso estar bem e às vezes não estou. Faço psicoterapia “de manutenção” e às vezes em modo “gestão de crise”. Os dias seriam mais difíceis sem este apoio.

 

5. De que maneira ser mãe de duas crianças mudou a sua forma de ver a vida e moldou a mulher que quer ser no futuro?

MV – A forma de ver a vida não mudou. O que mudou foi o sentido de legado e responsabilidade. Enquanto antes preocupava-me em deixar uma boa marca na vida dos que estão e passam pela minha vida, agora preocupo-me em deixar bons seres humanos para o mundo. Não vou negar que ando com muito pouca fé na humanidade e temo pelos meus filhos, pelo futuro. Sei que lhes passo bons valores e que lhes nutro a força de pensarem pelas suas próprias cabeças, mas tenho muito medo dos fenómenos de massas e do quão frágil é aquilo que achamos como garantido. Principalmente a liberdade. Ser mãe não me mudou enquanto mulher, acrescentou-se. Nós já nascemos programadas mães, mesmo as que nunca serão. Está na história das nossas células parirmos a humanidade!

 

6. A Maria teve uma embolia pulmonar e uma trombose venosa profunda. Como vê agora em retrospectiva esses tempos certamente angustiantes? Cuida mais de si agora do que no passado?

MV – Não gosto de olhar para esse lugar… tive muito medo que os meus filhos ficassem sem mãe. Tive um ano a reaprender a respirar e sofri de síndrome do medo de morrer, o que não ajudou muito no processo de recuperação inicialmente. Hoje tenho de ter algumas precauções porque depois de se passar por este cenário clínico fica-se com uma predisposição muito elevado para o voltar a ter. Mas hoje vivo com tranquilidade, até porque sei que o que me aconteceu não foi obra do acaso e não tenho nenhum desafio genético, eu tive a TEP e a TVP fruto de uma contusão pulmonar. Sofri um trauma no pulmão e tive muitas semanas uma mancha de sangue no pulmão que fez posteriormente desenvolver os coágulos. Mas este, é outro lugar onde não gosto de voltar…

 

“Mas como em tudo o importante é mesmo não desistir. Não queria que outros autores escrevessem para mim nesta fase, eu tenho muitas coisas para dizer”

 

7. Na pandemia decide voltar ao amor antigo da música, depois de ser incentivada por um amigo. Compra uma viola e começa logo a dedilhar os primeiros acordes. A necessidade de se exprimir desta forma aguçou o engenho?

 

MV – Sem dúvida! E adoro esse provérbio. Aliás, adoro provérbios (sou antiga, já referi). Tinha algumas bases. Aprendi a desenrascar-me ainda miúda, com um amigo da escola, que me ensinou os primeiros acordes, hoje é um grande guitarrista e já tocou comigo. Mas a necessidade de desenvolver um pouco essa habilidade veio do formato que eu encontrei para compor. Eu só consigo ser poética a escrever canções em inglês, se as estiver a musicar dedilhando na minha guitarra! Escrevo facilmente em português, em castelhano, e sai-me poesia como pãezinhos quentes, mas escrever em inglês é uma naturalidade que desenvolvi pela vida em trabalho e nas nas crónicas e artigos que escrevo, como a coluna que tenho na Lemon Magazine. Quando cheguei à composição bloqueei! Sabia que queria escrever as minhas canções em inglês e não me saía nada de jeito. Mas como em tudo o importante é mesmo não desistir. Não queria que outros autores escrevessem para mim nesta fase, eu tenho muitas coisas para dizer, não queria escrever em português, então para encontrar o meu formato tive de sair da minha zona segura e mandar-me de cabeça para o abismo, lá está. Mas valeu a pena porque até acho que vou muito bem nisto 🙂

 

8. Sónia Tavares, dos The Gift teceu rasgados elogios à sua música bem como Tozé Brito (vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Autores-SPA). O que sente ao ter este acolhimento tão caloroso?

MV – Fico assim tipo como quem vai rebentar. O ato de criação em si é um ato egoísta. Pelo menos como eu o vivo. Crio para mim, sem pensar em como vai ser recebido pelo mundo, vem de uma necessidade de expurga muito auto-centrada. Mas depois está cá fora! E aí chega-nos o medo de que não seja bem recebido ou acarinhado pelos outros. Ficamos num estado de insegurança, mesmo os que dizem que não ficam, a querer muito que tratem bem aquilo que saiu de nós. Por isso é que eu comparo muito a criação com o parir. Temos os filhos para o mundo e o medo apodera-se de nós quando eles estão cá fora. Então é de uma dimensão esmagadora ver que as minhas canções são tão bem acolhidas, seja pela pessoa que descobre a minha música quando liga o rádio no carro seja por figuras tão relevantes na área em que mergulhei. Tenho um enorme respeito pelo Tozé Brito e uma imensa admiração pelo mulherão que é a Sónia Tavares.

 

“Reconectarmo-nos connosco próprios não se faz num salto, mas sim em vários. E neste processo, quando comecei a compor, foi realmente para mim um salto muito importante porque senti que devia ter feito isto a minha vida inteira.”

 

9. Quando começou a fazer música sentiu que nunca tinha parado. É essa reconexão que sente que fez com este primeiro trabalho?

MV – Diria que fez parte do processo. Reconectarmo-nos connosco próprios não se faz num salto, mas sim em vários. E neste processo, quando comecei a compor, foi realmente para mim um salto muito importante porque senti que devia ter feito isto a minha vida inteira. Sempre esteve lá à espera, a desenvolver habilidades até ao momento de se levantar o pano. Foi muito libertador e foi um reencontro com algo que eu senti de muito perto em menina e depois se desvaneceu no tempo. O nome do álbum vem de algo maior, vem do momento em que a vida nos obrigada a parar, olhar à volta, e perceber onde nos perdemos para nos voltarmos a encontrar. E digo “a vida nos obriga” porque normalmente é assim que acontece. O ser humano dificilmente sai de si próprio ou de uma circunstância que conhece por iniciativa própria. O crescimento precisa de um estímulo externo porque nasce da dor, e ninguém quer inflingir dor a si próprio.

 

“Não existe idade para realizar sonhos, ou para mudar, ou para perseguir o que quer que seja. Realizei um sonho de menina aos quarentas, que me trouxe uma nova vertente profissional também.

Quanto a mim, abraço os meus quarentas em grande estilo, com todos os desafios que isso implica, e nunca fui tão destemida, tão bem resolvida, tão calma, tão tranquilamente apaixonada como sou hoje.”

 

10. Muitas mulheres têm medo de fazer 40 anos. Aos 43, o que pode a Maria dizer a todas essas pessoas que receiam o envelhecimento e o relacionam com ser colocada numa prateleira?

MV – Digo o que digo aos meus filhos: que têm de pensar pelas suas próprias cabeças! Se nos sentimos bem e capazes, o resto são só dogmas e preconceitos da sociedade. Ter 40 é bom pra caraças! As mulheres são sem dúvida mais fustigadas com esta questão das idade, mas os homens também o são e sofrem outro tipo de pressões. Só nos cabe a nós contrariar esta coisa de se achar que temos de saber o que queremos fazer da vida aos 20, ter tudo resolvido aos 30, conquistado aos 40, e que aos 50 estamos tranquilos porque planeámos bem a reforma. Não existe idade para realizar sonhos, ou para mudar, ou para perseguir o que quer que seja. Realizei um sonho de menina aos quarentas, que me trouxe uma nova vertente profissional também. E apesar de me ter divorciado quando achava que era para sempre jamais abrirei mão de perseguir um amor tão lunático e inconveniente como eu, sou muito fã das histórias de amor de velhinhos que casam aos 80, pelo menos eles terão uma grande probabilidade de terem um amor para a vida toda :)))) Quanto a mim, abraço os meus quarentas em grande estilo, com todos os desafios que isso implica, e nunca fui tão destemida, tão bem resolvida, tão calma, tão tranquilamente apaixonada como sou hoje. E sim, o sexo também é melhor kkkkkkk.

 

 

 

Paula Cristina Gouveia

Entrevista a Ana Sofia Souto “As ciências cuidam do corpo, mas a linguagem e a comunicação cuidam do sentido.”

 

Face a um mundo em constante mudança, fomos falar com uma investigadora, poliglota, linguista e fascinada pela comunicação, Ana Sofia Souto, para saber a sua opinião sobre o domínio crescente de jogos versus ferramentas de linguagem, Inteligência Artificial, saúde mental e como encontrar sentido quando tudo parece tão volátil e efémero.

 

“É essencial promover a consciência linguística”.

 

1. Ana Sofia, é linguista, especialista em comunicação em língua portuguesa e pesquisadora da linguagem. O que a motivou a escolher este ramo de conhecimento?

 

O que me motivou a escolher este ramo do conhecimento foi, antes de mais, o meu profundo fascínio pela literatura e pelas línguas. Desde cedo, senti interesse em compreender de que forma a linguagem é capaz de construir sentido(s), emoção e identidade nas mais diversas manifestações discursivas — da literatura à comunicação quotidiana.
A Linguística surgiu, assim, como uma via natural para aprofundar essa curiosidade, permitindo-me analisar de forma mais sistemática e crítica o funcionamento da língua portuguesa e as suas múltiplas dimensões culturais, sociais e expressivas.

 

“O equilíbrio entre inovação e norma é o que garante a vitalidade e a continuidade da língua portuguesa.”

 

2. Sentiu preconceito por escolher uma vertente dentro das Humanidades em detrimento do que agora se chama a vertente Científico-Tecnológica?

 

Sim, senti algum preconceito, sobretudo no início do meu percurso académico. As Humanidades são, quase sempre, vistas como áreas menos “úteis” ou menos ligadas à inovação, o que revela uma visão limitada do que é o conhecimento. No entanto, acredito profundamente que o pensamento crítico, a reflexão sobre a linguagem e a compreensão das dimensões humanas da comunicação são essenciais em qualquer sociedade — inclusive nas áreas científicas e tecnológicas. As Humanidades não se opõem à ciência; complementam-na, oferecendo as ferramentas para pensar o mundo e comunicar o conhecimento de forma ética e significativa.

 

“É urgente devolver espaço à curiosidade, ao pensamento lento e à criatividade.”

 

3. Dizem que a língua é um organismo vivo, à semelhança dos seres humanos que a utilizam. Como vê a evolução da língua portuguesa, especialmente entre os millennials (geração y) e a z (os já chamados nativos digitais)?

De facto, a língua é um organismo vivo — e, como tal, transforma-se continuamente ao ritmo das mudanças sociais, culturais e tecnológicas. Entre os millennials e a geração Z, essa evolução é especialmente visível na escrita digital e nas novas formas de comunicação mediadas pela tecnologia.

O português, como qualquer língua, adapta-se aos novos contextos de uso: surgem neologismos, simplificações, empréstimos e novas convenções gráficas. Longe de representar uma “ameaça”, essas mudanças refletem criatividade, rapidez comunicativa e pertença geracional. No entanto, é essencial promover a consciência linguística — isto é, ajudar os falantes a perceber que cada variedade e cada registo têm o seu espaço e função. O equilíbrio entre inovação e norma é o que garante a vitalidade e a continuidade da língua portuguesa.

 

“Metam as crianças a brincar, a ler e a escrever! — porque é assim que se forma o pensamento crítico, a empatia e a capacidade de comunicar com sentido.”

 

4. Há a pressão das redes sociais e jogos para a gratificação instantânea. A vontade de escrever e ler para praticar a língua por parte das crianças fica, muitas vezes, na gaveta?

 

Sim, fica — e isso tem de ser alterado com rapidez. As redes sociais e os jogos digitais habituaram as crianças à gratificação imediata, o que diminui o interesse por atividades que exigem tempo, concentração e imaginação, como a leitura e a escrita.

É urgente devolver espaço à curiosidade, ao pensamento lento e à criatividade. A escola, as famílias e a sociedade precisam de promover práticas que despertem o prazer pela linguagem, pelo texto e pela descoberta.

Metam as crianças a brincar, a ler e a escrever! — porque é assim que se forma o pensamento crítico, a empatia e a capacidade de comunicar com sentido.

“A questão não é rejeitar a tecnologia, mas educar para um uso crítico e ético da mesma.”

 

5. Com o aprofundamento da Inteligência Artificial, nomeadamente o ChatGPT e Google Gemini, quais são os seus maiores medos e esperanças nesta conjetura?

 

O meu maior receio é que o aprofundamento da Inteligência Artificial conduza a uma perda gradual do pensamento crítico e da autonomia intelectual. Há um risco real de delegarmos em sistemas automáticos aquilo que nos define como humanos: a capacidade de questionar, interpretar e criar sentido.

No entanto, vejo também grandes possibilidades. Acredito que ferramentas como o ChatGPT ou o Google Gemini podem ser aliadas poderosas da inovação e da produtividade, desde que sejam usadas com consciência e responsabilidade. Quando bem integradas, podem libertar tempo para o pensamento criativo e apoiar processos de aprendizagem e investigação.

Em suma, a questão não é rejeitar a tecnologia, mas educar para um uso crítico e ético da mesma — de modo a que amplie, e não substitua, a nossa capacidade de pensar.

 

“Falar abertamente sobre saúde mental é, em si mesmo, um ato de prevenção.”

 

6. Como vê a crise na saúde mental em Portugal? De que forma a comunicação pode aproximar as pessoas e prevenir comportamentos de risco?

 

A crise de saúde mental em Portugal é grave e exige uma resposta urgente e estruturada. Ainda existe um estigma muito forte em torno do sofrimento psicológico e muitas pessoas continuam a ter medo ou vergonha de pedir ajuda.

O século XXI é, sem dúvida, o século da saúde mental — o momento em que precisamos de compreender que o bem-estar emocional é tão essencial quanto a saúde física. A comunicação tem aqui um papel determinante. Comunicar com empatia, clareza e escuta ativa pode aproximar as pessoas, criar redes de apoio e reduzir o isolamento. É preciso promover uma linguagem que acolha, que normalize a vulnerabilidade e que incentive a procura de ajuda profissional. Falar abertamente sobre saúde mental é, em si mesmo, um ato de prevenção.

 

“Valorizar a palavra é valorizar a própria condição humana.”

 

7. Se as ciências ditas puras são úteis na saúde física, a língua e a comunicação ajudam na socialização e na produção de cultura e arte que alimenta a alma. Porque considera não serem valorizadas da mesma maneira?

 

Acredito que as Humanidades — e, em particular, a língua e a comunicação — continuam a ser subvalorizadas porque os seus efeitos não são imediatos nem facilmente quantificáveis. É mais fácil medir o impacto de uma descoberta científica do que o impacto de uma ideia, de um texto ou de uma conversa que muda mentalidades.

No entanto, são precisamente essas dimensões simbólicas, culturais e afetivas que nos distinguem enquanto seres humanos. A linguagem estrutura o pensamento, a arte e a cultura alimentam a empatia e a imaginação — e sem isso não há progresso verdadeiramente humano.

As ciências cuidam do corpo, mas a linguagem e a comunicação cuidam do sentido: ajudam-nos a compreender o outro, a criar comunidade(s) e a dar significado à existência. Valorizar a palavra é valorizar a própria condição humana.

 

” É a reflexão crítica sobre o sentido e o impacto da linguagem que realmente transforma sociedades e permite decisões conscientes.”

 

 

8. A Ana Sofia fala português a nível nativo, alemão (C1), italiano (C2), inglês (C2) e espanhol (B2). Que conselho daria a alguém que quer começar a aprender uma língua estrangeira? Preocupa-a que com as ferramentas automatizadas, tenhamos falta de vontade e menos capacidade de memorização para o fazer?

 

O meu conselho é simples: não tenham medo de se abrir ao diferente e ao novo. Aprender uma língua estrangeira é, acima de tudo, aprender sobre nós próprios. Cada língua que aprendemos abre portas dentro de nós e, ao mesmo tempo, permite chegar aos outros de formas novas e surpreendentes.

Se usadas de modo apropriado, as ferramentas automáticas são grandes aliadas. O essencial é manter o contacto vivo com a língua, praticar, errar e, acima de tudo, continuar curiosos.

 

9. A Ana Sofia é extremamente versátil indo desde a tradução ao pensamento crítico à análise discursiva bem como ao trabalho noutros idiomas. De todos estes componentes qual vê mais potencial de fazer a diferença no futuro?

 

Apesar de valorizar todas as áreas em que trabalho — da tradução ao multilinguismo — acredito que o componente com maior potencial de fazer diferença no futuro é o pensamento crítico aliado à análise discursiva.

Vivemos numa era de informação abundante e muitas vezes fragmentada. A capacidade de interpretar, avaliar e comunicar de forma clara e responsável será cada vez mais crucial. A tradução e o domínio de vários idiomas são ferramentas poderosas, porque permitem acesso a diferentes culturas e perspectivas, mas é a reflexão crítica sobre o sentido e o impacto da linguagem que realmente transforma sociedades e permite decisões conscientes.

 

“Num mundo competitivo, é fundamental manter a integridade e a autenticidade, procurando sempre aprender e crescer.”

 

10. Num país onde se ouve amiúde “os bons vêm sempre ao de cima”, que mensagem gostaria de passar a Ana Sofia aos jovens portugueses que estão a lutar por serem reconhecidos nas respetivas áreas?

 

Gostaria de dizer aos jovens portugueses que o talento e o esforço são importantes, mas não bastam por si só. Reconhecimento e sucesso exigem persistência, ética, curiosidade e, acima de tudo, paixão pelo que se faz.

Num mundo competitivo, é fundamental manter a integridade e a autenticidade, procurando sempre aprender e crescer, mesmo diante de obstáculos. Os bons podem não surgir imediatamente ao de cima, mas aqueles que investem em conhecimento, reflexão e colaboração constroem bases sólidas para deixar um impacto duradouro.

 

Paula Cristina Gouveia

Doença bipolar com Maria Gomes “A vida não termina com um diagnóstico”

 

Maria Gomes, de 21 anos e tem doença bipolar, anteriormente conhecida por psicose maníaco-depressiva, que se caracteriza por variações acentuadas de humor que oscila entre atividade elevada (hipomania ou mania) e quebra de energia (melancolia ou depressão).

Pode encontrar a Maria no Instagram bipolarmente_falando_ que dá também o nome a um livro que será lançado com o mesmo nome. Esta é uma entrevista muito especial para mim, Paula Cristina Gouveia, porque também sou bipolar, com primeira crise de mania aos 19 anos e diagnóstico aos 21 anos.

Para quem não conhece esta condição, que muitas vezes nos faz magoar justamente as pessoas mais próximas de nós, recomendo vivamente lerem estas linhas.

Estarão as redes sociais a ampliar os efeitos perniciosos das fases mais agudas da doença ou podem ser uma forma de reconhecer sintomas e procurar o tratamento psiquiátrico e  psicológico adequado? Para mim e para a Maria foram ambas as opções. Vamos descobrir mais sobre esta jovem extraordinária já a seguir.

 

1. A Maria diz no seu livro “Bipolarmente falando” que na adolescência se sentia inferior, diferente e esquisita. Numa altura que dizem ser os melhores anos da nossa vida e só nos queremos sentir normais e aceites pelos nossos pares, quais eram os mecanismos que utilizava para lidar com o turbilhão de emoções que a envolvia?

A minha adolescência não foi vivida da melhor forma, devido às recaídas depressivas que me acompanhavam e que, na altura, não compreendia o motivo de as ter. Contudo, desenvolvi alguns mecanismos para lidar com toda a minha confusão mental, sendo um deles, a escrita. Escrever foi, e continua a ser, um grande refúgio para mim. Considero profundamente libertador registar todos os meus pensamentos melancólicos e é também uma forma de alívio e de compreensão. À medida que escrevia, o peso da culpa, da tristeza e do desalento ia diminuindo. Era como se cada palavra escrita esvaziasse um pouco da dor que sentia.

 

2. Em março de 2023 tem o seu primeiro episódio maníaco. Para quem só conheça superficialmente a doença bipolar, o que pode dizer sobre o seu estado de mania, que culminou no seu diagnóstico com 19 anos de idade?

O meu primeiro episódio de mania ocorreu em 2023, quando tinha apenas 19 anos de idade. Até então, eu só estava familiarizada com as fases depressivas, marcadas por uma melancolia profunda e uma apatia constante, contrariamente ao estado de mania, que foi frenético e muito agitado.

Para quem não tem conhecimento desta doença, o estado maníaco pode parecer, à primeira vista, uma fase de maior energia e desinibição. Porém, é bem mais complexo. No meu caso, sentia-me invencível. Falava de forma acelerada, dormia muito pouco e tinha um grande sentimento de euforia. Os pensamentos atropelavam-se uns aos outros e também possuía uma sensação de grandiosidade. Era como tudo parecesse possível.

Este episodio foi determinante para o meu diagnóstico de transtorno bipolar. A partir desse momento, encontrei uma explicação para as minhas oscilações de humor recorrentes. E, foi sem dúvida, o início de um novo capítulo na minha vida, que me abriu portas ao autoconhecimento, à aceitação e ao tratamento.

 

3. A dualidade entre depressão e mania continua, sendo que em setembro tem o seu segundo episódio desta última. A hiperatividade, impulsividade, euforia, o stress excessivo, privação de sono e sazonalidade são fatores envolvidos em estados maníacos. Quais sintomas diria que tiveram mais peso na sua recaída?

O meu segundo episódio de mania foi mais intenso que o primeiro e a sua duração foi mais longa. Sem dúvida que o sintoma mais notório foi a falta de noção. A falta de filtro. Perdi a capacidade de distinguir aquilo que era apropriado dizer. As palavras saíam sem travão e, sobretudo, sem coração. Além disso, a privação de sono foi marcante. Ficava acordada até horas tardíssimas, dormindo muito pouco e, no dia seguinte, acordava com uma energia dúbia. Parecia que não tinha fim, era inesgotável.

Ficava horas e horas a falar sozinha ou a importunar amigos e familiares com as minhas conspirações e ideias sem nexo. Surgiam-me diversos pensamentos perniciosos que nunca pensei ter, mas que num episódio se tem. E, não só pensava, como os realizava.

Em suma, foi precisamente a soma destes sintomas que agravaram a intensidade do episódio. No entanto, foi através deste episódio que compreendi que o estado maníaco não é só uma intensificação de energia, mas sim algo que pode ser destrutivo e nocivo. E, também me auxiliou a não desvalorizar os sinais de alerta que precedem um episódio.

 

4. A culpa e a vergonha são consequências desta doença que deixam as suas marcas. Sente que esta doença tão complexa ainda é incompreendida, o que faz com que amigos que possamos ter afetado se afastem ou desistam de nós?

Sim. Considero que esta doença ainda não é, por muitos, compreendida. Muitas vezes, acreditam que as nossas atitudes ou palavras são realizadas e proferidas com intencionalidade. O que não é. De facto, durante um episódio, não conseguimos controlar aquilo que sai de nós. Está fora do nosso controlo, pois são os sintomas de uma condição mental que se apoderam da nossa mente e do nosso corpo.

Houve pessoas próximas que se afastaram de mim. Não compreenderam a doença e não souberam lidar com a mesma. E, isso fez-me perceber que nem todos terão a capacidade para tal, para entender uma doença tão complexa, e está tudo bem. O importante é valorizar aqueles que ficam, que nos apoiam e que se esforçam para compreender esta condição.

 

5. No seu livro tem uma imagem mental muito bonita de uma menina a enfrentar algo mais forte que ela. Que práticas usou para desenvolver a auto compaixão necessária para se perdoar pelos danos trazidos pela sua condição?

A imagem de uma menina a lutar com algo mais forte do que ela representava muito daquilo que eu sentia. Sentia que não era capaz de enfrentar algo tão complexo e problemático. Contudo, consegui. Fui capaz. Aos poucos, comecei a perceber que a culpa não era minha e que não fazia sentido viver agarrada à vergonha por aquilo que fiz ou disse que não correspondia ao que eu realmente sentia. Também entendi que as nossas atitudes, num episódio maníaco, não nos definem. Não fazem parte de nós, da nossa essência.

Além disso a psicoterapia teve um papel fundamental neste processo. Foi através dela que aprendi a olhar para mim com mais empatia e com mais compaixão, pois, no fundo, eu era só uma menina a lutar com algo mais forte do que eu.

 

6. Por vezes, até acertarmos na medicação e dose correta a angústia é enorme e sentimo-nos como cobaias. A vontade de não querer mais alternar de forma tão acentuada entre euforia e depressão motivou-a a continuar rumo à tão sonhada estabilidade?

Sem dúvida. O processo de encontrar a dose adequada para mim foi desafiante. Foi longo e demorado. Foi maçante estar sempre em testes, sem saber se iria resultar ou se teria que começar tudo de novo. Contudo, a ânsia de querer alcançar a estabilidade era maior do que a minha dor. O desejo de poder viver sem os altos e baixos constantes motivou-me a não desistir. E, quando finalmente se alcança a estabilidade percebemos que todo o esforço, persistência e resiliência compensaram.

 

7. Quais foram os maiores mitos e desinformações que já encontrou sobre doença bipolar?

Um dos maiores mitos que já encontrei sobre esta condição foi a ideia de que se trata apenas de mudanças repentinas de humor. Como dizem, ora se está feliz, ora se está triste. Mas a realidade é bem mais dura do que essa. As fases maníacas e depressivas têm uma duração, um impacto e uma intensidade maior do que uma simples oscilação de humor. Outro mito bastante comum é que as pessoas que são portadoras desta doença não conseguem ter uma vida normal. E, a verdade é que, com o tratamento adequado, é perfeitamente possível ter uma vida equilibrada.

 

8. A vida pode ser muito dura e pesada quando se lida com uma doença mental. Aos 21 anos, já encontrou a leveza de borboleta que procurava?

Sim. Hoje afirmo que vivo com mais leveza, com mais alívio e sobretudo, com mais estabilidade. Sei que ainda tenho muito para descobrir da vida, desvendar novas facetas da minha pessoa, novas fases para experienciar, novas pessoas para conhecer, novos lugares para visitar e é isto que me dá motivação para continuar. Continuar a estar aqui. Continuar a viver, sem medos e sem o peso da culpa.

 

9. A Maria tem uma frase que remete à coragem de enfrentar uma doença bastante complexa, de aguentar e lutar. A terapia ajudou-a nesse sentido, a ver os pontinhos de luz que se escondem em qualquer escuridão?

Sem dúvida. A terapia foi uma ferramenta crucial no meu processo de recuperação. Com ela, aprendi a valorizar cada pequena conquista e a olhar para a minha pessoa com mais ternura e com mais compaixão. De facto, auxilia-me a ver a vida de uma forma mais leve e mais bonita. E, fornece-me diversas estratégias para lidar melhor com o que vou sentindo. Foi e é indispensável para mim.

 

10. Noutra parte do livro a Maria diz que tem uma doença mental que pode não ter cura, mas é uma doença que se trata. É preciso passar mais mensagens de força, resiliência e esperança no campo da saúde mental?

Acredito que é essencial espalhar mensagens de força, resiliência e esperança no campo da saúde mental. Quando se recebe um diagnóstico de uma doença que não tem cura, é propício pensar que é o fim do mundo e que a vida será para sempre limitada por essa condição. Mas a verdade é que não é. De facto, com o tratamento adequado, é perfeitamente possível viver com qualidade.

Sinto que as narrativas em volta das doenças mentais ainda estão muito associadas à dor e ao sofrimento e, embora isso faça parte da realidade, é importante mostrar que também existe superação. A vida não termina com um diagnóstico, pelo contrário, renasce com mais autocuidado, estabilidade e consciência.

 

Paula Cristina Gouveia

 

 

Excerto do livro “Não sei onde está, pergunta à tua mãe!”

 

O parto: como fingir que estás calmo enquanto tremes por dentro

 

     Há momentos na vida para os quais achamos que estamos preparados. Como por exemplo, uma entrevista de emprego, um discurso em público, ou um casamento. E depois há o parto — onde tudo isso parece um ensaio para um monólogo num teatro em chamas.

     Quando a minha primeira filha estava prestes a nascer, com tudo calendarizado, agendado e certinho no boletim — qual reunião de condomínio com hora marcada — achei que fazia todo o sentido caprichar no look. Afinal, se me visto bem para ir a casamentos de primos afastados, que nem sei bem de que lado da família vêm, por que não me haveria de vestir bem para o nascimento da minha filha? Uma camisa bem passada, calças direitinhas, sapato formal. Um homem digno. Um pai moderno com um toque de classe. E charme…

     O problema? O problema começou logo aí.

     Desde o momento em que entrei no hospital até à minha primeira filha decidir fazer a sua grande entrada no mundo, passaram mais de vinte e quatro horas. Vinte e quatro. Em numerais: 24.

     Em horas de sapato fechado, são duzentos e quarenta mil minutos de sofrimento plantar. A certa altura, aquele sapato, que no início da manhã me fazia parecer um gentleman de catálogo, passou a ser um alçapão térmico de couro. O meu pé, antes orgulhoso, começou a manifestar sinais de revolta. Suava. Inchava. Sussurrava pedidos de asilo a cada passo. Por esse motivo, deixo-vos um concelho: roupa confortável.

     Mas pronto, isto foi um problema menor perante o que estaria por vir. Porque, no meio daquilo tudo, o papel principal não é o nosso. Somos figurantes de luxo, homens-bandeja de água, mascotes do apoio emocional. Tentamos parecer úteis. Tentamos ser suporte. Tentamos não desmaiar. E tentamos, acima de tudo, manter um ar calmo — mesmo quando estamos por dentro a fazer uma dança ansiosa de conga existencial, com o cérebro a gritar “O que é que eu faço agora? Será que devia estar a dizer alguma coisa? Será que me calo? Será que trago gelo? Será que devia ir lá fora falecer só um bocadinho em silêncio?”.

     Costuma dizer-se que uma mulher só compreende verdadeiramente o sofrimento de um homem constipado, quando está em trabalho de parto. Porque é só ali, entre uma contração e outra, com um bebé a bater com os cotovelos nas paredes internas da realidade, que ela percebe: “Ah… então era isto que ele sentia quando tinha 37,3º de febre e pedia chá com bolachinhas no sofá.”.

     A diferença?

     Durante a nossa constipação, havia manta, Netflix, um mimo na testa e, às vezes, até um ‘coitadinho’ murmurado com alguma ternura.

     No parto?

     No parto, não há chá, não há sofá, não há mimo — e definitivamente não há ternura. Há gritos, suores, tensão no ar e um ambiente tão carregado que até o ar condicionado começa a suar.

     E tu estás ali. No meio daquilo tudo. A tentar parecer útil, enquanto percebes que és o equivalente humano de uma planta decorativa: simpático de se ver, mas irrelevante na prática.

     Tu bem queres ajudar. Dás-lhe a mão. Murmuras palavras de encorajamento que leste no Google às duas da manhã: “Amor, respira… estás a ir muito bem… força…” Mas rapidamente percebes que nada, mesmo nada do que digas tem qualquer efeito. Pior: pode ter o efeito contrário. Um leve “estás quase” pode ser recebido com um olhar que, se fosse uma arma de raios laser, te desintegrava no ato.

     E depois, o clímax: a mão. Aquela mão que a tua mulher agarra com a força de mil sofredores ancestrais. Aquele aperto que esmaga ossos, corta a circulação e manda os teus dedos para um lugar onde nunca quiseram ir. Mas tu não soltas. Não podes. Faz parte do ritual. Há um código silencioso: ela grita, tu sorris. Ela aperta, tu aguentas. Ela está a gerar vida… tu, no fundo, só tens de não desmaiar. É pedir assim tanto?

     E no meio de tudo isso, tu tremes por dentro. Claro que tremes. És humano. E estás a assistir ao momento mais inacreditável da tua vida: ver alguém que amas a passar por algo avassalador, brutal e, ao mesmo tempo, incrivelmente bonito. Estás ali, de camisa encharcada de nervos, com os sapatos a gritar por liberdade, com as mãos deformadas e o coração a bater mais depressa do que a máquina de CTG.

     Mas não mostras nada. És a rocha. O esteio. O pilar. A muralha que treme, mas não cai.

     E depois… nasce. E o mundo muda. E tudo o que passou, o cheiro, o suor, a dor, a ansiedade… tudo fica em segundo plano. Porque naquele instante em que ouves o primeiro choro da tua filha, percebes que, sim, foste figurante — mas num filme absolutamente maravilhoso.

     E não, não precisei de palmas. Ninguém me deu uma medalha. Nem uma taça. Nem sequer uma daquelas medalhinhas de chocolate com fita dourada que se compram no supermercado.

     Mas estive lá. Aguentei.

     O meu papel foi claro: estar ali. Respirar. Não cair. E parecer, pelo menos à superfície, um homem com tudo sob controlo. Se houvesse um prémio para a melhor representação num papel secundário, eu estava nomeado. O meu olhar era sereno, a postura atenta, a voz firme (com um leve tremor apenas percetível a cães treinados). Por dentro? Uma tempestade tropical com alertas vermelhos e trovoada emocional em todos os quadrantes.

     E sabem o que é mais injusto? É que ninguém fala disto.

     Ninguém pergunta ao pai: “Então, como foi para ti o parto?”. Porque, para todos os efeitos, acham que estiveste ali a jogar Candy Crush. Mas não. Estiveste na linha da frente. Sem escudo. Sem armadura.

     E por isso, caros leitores, se algum dia vos disserem que os homens não passam por nada no parto… por favor, corrijam essa injustiça histórica.

     Porque é verdade que a mãe carrega, sofre, grita, empurra e cria um ser humano com as entranhas.

     Mas nós… nós estivemos lá. A suar. A temer. A amar, e a fingir com todas as forças que estávamos calmos, enquanto, por dentro, já tínhamos comprado um bilhete só de ida para o pânico absoluto.

     E isso… também conta.

 

O livro pode ser comprado neste link:
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SOBRE O AUTOR:

 

 

Dinis Santos tem 33 anos, vive em Lisboa, onde tenta ser pai, trabalhador e escritor — nem sempre por esta ordem. É licenciado em Gestão de Recursos Humanos, e detém uma Pós-Graduação em Desenvolvimento Organizacional.
Atualmente, ocupa o cargo de HR Business Partner numa das principais empresas do sector alimentar em Portugal, onde aplica as suas competências e conhecimentos para potenciar o desenvolvimento e bem-estar dos colaboradores.
Embora a sua carreira tenha estado sempre ligada à gestão de pessoas, Dinis decidiu explorar uma nova paixão: a escrita. Viajando pelos Alpes | Crónicas Humorísticas de uma Viagem em Família (Vol. I & II) marcaram o seu primeiro trabalho literário, no qual partilha de forma divertida e envolvente as experiências e desafios de viajar com a família.
Este é o seu terceiro livro — e o primeiro que pode causar sorrisos espontâneos em qualquer lado, mesmo no trânsito, ou na fila do supermercado.

Entrevista a Márcia Arend: “Precisamos ensinar para as próximas gerações que ser diferente não é um problema”

 

Márcia Arend é pedagoga de formação com diversas especializações como: Psicopedagogia, Psicomotricidade,

Saúde Mental e Atenção Psicossocial, Neurologia Clinica e Intensiva, Neuropsicopedagogia, Intervenção ABA em autismo e Deficiência Intelectual. Mestrado em Pediatria e Saúde da Criança Doutoramento em Educação em Ciência: Química da vida e saúde. Para além disso, também é Escritora Infantil e Palestrante.

Fomos falar com ela a propósito do seu último livro, de como se aprende e como fomentar a inclusão.

 

1. Márcia, é psicopedagoga e psicomotricista, mestre em Pediatria e Doutora em Educação em Ciência. No debate como se faz a aprendizagem, se pela emoção e o coração ou pela parte da biologia e genética, como se posiciona?

A aprendizagem é um processo bem complexo que envolve os fatores biológicos e os fatores emocionais. É difícil querer separá-los, na minha opinião.

Do ponto de vista biológico e genético, sabemos que nascemos com predisposições neurológicas e cognitivas determinadas, em cada um de nós. Porém, muito escutamos e lemos que o cérebro possui a neuroplasticidade incrível, ou seja, ele é capaz de modificar conforme for estimulado, através das experiências vividas.

No entanto, temos a emoção com uma função essencial na aprendizagem. Aprendemos melhor quando estamos motivados, seguros, acolhidos e conectados afetivamente com aquilo que vivenciamos.

Com meu olhar profissional a aprendizagem acontece melhor quando integra a razão, emoção e a parte biológica. Acredito muito que ambiente afetivo, as experiências emocionais, as oportunidades se entrelaçam com a estrutura neurológica de cada pessoa.

 

2.  Sabemos que a aprendizagem se pode fazer de diferentes formas como ser visual, auditiva, basear-se na leitura/escrita ou cinestésica (tato). Considera que as escolas já estão a despertar para esta diversidade, de que cada aluno é único e especial, ou continuam muito focadas com os antigos modelos padronizados?

Esses movimentos sobre diferentes estilos de aprendizagens estão em constante crescimento, mas ainda vemos muitas escolas presas a modelos tradicionais e padronizados, que valorizam a prova escrita.

Felizmente, algumas escolas estão despertando para esses movimentos, dando uma atenção para a importância da personalização da aprendizagem e da valorização das múltiplas formas de aprender.

Ainda é um desafio real tornar essa aprendizagem uma prática constante no quotidiano escolar. Isso exige muitas mudanças, apoio à formação dos professores, e um olhar como ser único para o aluno, com interesses, potencialidades e formas específicas de se conectar com o conhecimento.

 

3. Os pais muitas vezes sentem-se pressionados a que as suas crianças compitam da mesma maneira que vemos nesta sociedade de roda de hamster, de mostrar trabalho, de mostrar rendimento. Dito isto, como resolver possíveis atrasos na aquisição cognitiva, social, emocional e de linguagem? A intervenção precoce e estimulação conseguem ser uma boa resposta para estes problemas?

A intervenção precoce e a estimulação adequada são fundamentais para lidar com possíveis atrasos no desenvolvimento cognitivo, social, emocional e de linguagem. No momento que é identificado que uma criança não está atingindo os marcos do desenvolvimento esperados para a sua faixa etária, entra-se com avaliações necessárias e o suporte através de estratégias lúdicas, interativas e afetivas.

A família tem um papel central nesse processo: quanto mais envolvida e orientada estiver, melhores serão os resultados.

Estímulos adequados fazem toda a diferença. É possível promover avanços significativos quando há acolhimento, acompanhamento profissional qualificado e um ambiente que favorece o brincar.

“O lúdico não é o contrário da aprendizagem!”

 

4. Sobre brincar, a Márcia diz que é desenvolvimento na prática, dotar as crianças de habilidades, fortalecer vínculos e prepará-las para o mundo. Porque vemos o brincar como um mero passatempo e não como algo que para além de lúdico, pode ser mais um arsenal de ferramentas que a criança tem para se descobrir a ela mesma e àquilo que gosta?

Por muito tempo, o aprendizado foi associado apenas ao que é formal, estruturado e produtivo. Eu sempre digo, ” brincar é desenvolvimento.” Quando a criança brinca, ela experimenta, cria, aprende limites, se expressa e se comunica. É nesse momento lúdico que surgem habilidades essenciais para a vida, como: atenção, empatia, autorregulação, vínculos afetivos, memória, melhora autoestima e ajuda a criança a se descobrir.

Se entendêssemos o brincar como esse verdadeiro arsenal de ferramentas para o desenvolvimento, daríamos muito mais valor a ele, em casa, na escola e na sociedade.

O lúdico não é o contrário da aprendizagem!

 

5. A discalculia afeta a capacidade de aquisição e realização de operações matemáticas. Encontra alguma relação de base entre dificuldade com números e a de letras- dislexia? E por último, o que nos podem ensinar outras condições como a síndrome de Down sobre resiliência, alegria e empatia?

Há uma relação entre discalculia e dislexia, pois ambas fazem parte dos Transtornos Específicos de Aprendizagem. A discalculia apresenta prejuízos na matemática: senso numérico, memorização de fatos aritméticos, precisão e fluência de cálculos e no raciocínio. Enquanto  a dislexia apresenta prejuízos na escrita e na leitura. Ambas podem envolver dificuldades na memória de trabalho, atenção e no processamento de informações diferentes. Ou seja, elas podem impactar na vida acadêmica e social da criança.

Importante estar sempre lembrando que nenhuma delas diminuiu o potencial da criança, é uma indicação que ela aprende de forma diferente e precisa de estratégias adequadas, apoio e compreensão.

Quando falo em Síndrome de Down me emociono porque é um convite a aprender muito mais do que conteúdos acadêmicos. São crianças que nos ensinam sobre resiliência, leveza, espontaneidade e empatia.  Mostram que inteligência, emoção e alegria são ferramentas poderosas de inclusão e transformação. Necessitam apoio certo, para poderem se desenvolver, aprender e são as maiores inspirações que tenho, passam uma força de viver e uma sensibilidade grandiosas.

 

6. Sabemos que os distúrbios alimentares nas crianças se revestem de alguma complexidade, no que revela a adoção e rejeição de certos ingredientes. Qual é a contribuição da fonoaudiologia neste quesito e qual é a conexão entre o corpo que se movimenta, interage e percebe o mundo?

Não é a minha área de conhecimento. Mas, acredito que  fonoaudiologia entra com grande contribuição na avaliação e intervenção das funções orais como: sucção, mastigação, deglutição e respiração, além de investigar possíveis questões sensoriais que impactam a alimentação e na estimulação da linguagem, entre outras.

O corpo que se movimenta, também interage e se interage percebe o mundo, está em constante  aprendizado. Quando a criança se movimenta, explora, brinca e se expressa, ela também está organizando sua percepção corporal, incluindo a oralidade. A alimentação é, um ato que envolve corpo, mente e afeto.  Por isso, a importância de uma equipe interdisciplinar é essencial para abordar essas questões de forma completa e respeitosa.

 

“Precisamos ensinar para as próximas gerações que ser diferente não é um problema”

 

7. Publicou recentemente o livro infantojuvenil “João assim assim- As aventuras de um menino para lá de especial”, sobre o autismo. É preciso desmistificar e eliminar preconceitos relacionados com esta condição neurológica, apresentando uma vida que pode ter qualidade e fluidez à mesma?

 

Sim, é urgente desmistificar o autismo e romper com os preconceitos que ainda cercam essa condição neurológica. Foi justamente com esse propósito que publiquei o livro “João Assim e Assim. As aventuras de um menino pra lá de especial”. A obra mostra, de forma lúdica e acessível, que as crianças autistas não só aprendem e se desenvolvem, como vivem histórias incríveis, cheias de emoção, desafios, superação e encantamentos.

O autismo não deve ser visto como uma limitação absoluta, mas como uma forma diferente de perceber e interagir com o mundo. Mostrar isso na literatura, especialmente para o público infantil e juvenil, é uma forma poderosa de promover empatia e inclusão. Precisamos ensinar para as próximas gerações que ser diferente não é um problema.

 

8. Quais foram os seus principais objetivos ao escrever esta obra e de maneira os pretende concretizar? É um trabalho em progresso?

 

Ao escrever o livro, meus principais objetivos foram dar visibilidade ao autismo, promover a empatia desde a infância e mostrar que toda a criança, mesmo com suas particularidades, pode aprender, sonhar e viver grandes aventuras.

Quis contar uma história inspirada na realidade, em uma criança que atendi, em famílias que acompanho, e em experiências que me marcaram profundamente como psicopedagoga e psicomotricista. João representa muitas crianças que pensam e sentem o mundo de um jeito diferente, mas que muitas vezes não são compreendidas ou acolhidas em sua essência.

Pretendo concretizar esses objetivos não apenas com a leitura do livro, mas com ações educativas: rodas de conversas, formações/capacitações nas escolas, projeto Neuro Bate-papo e palestras. O livro é um ponto de partida e sim, é um trabalho em progresso. A cada partilha com leitores, surgem novos caminhos, ideias e conexões. A obra segue viva, porque o compromisso coma inclusão é continuo.

 

9. Quando falamos de inclusão e de necessidade especiais, falamos de formação e de capacitação de profissionais. O que tem a dizer sobre este assunto?

A formação vai além do conhecimento técnico. Há a necessidade do desenvolvimento de um olhar empático, ético e humanizado, que compreenda as singularidades de cada pessoa. Muitos profissionais ainda saem da graduação sem preparo necessário para lidar com a diversidade presente nas escolas, clínicas e empresas. Por isso, a capacitação contínua é indispensável.

Investir em formação é investir na qualidade da inclusão!

Quando o profissional está preparado, a inclusão deixa de ser um desafio e passa a ser uma realidade possível e transformadora para todos os envolvidos.

 

10. É claramente apaixonada pela aprendizagem e pela educação. Em síntese, como foi a sua história e percurso profissional? Considera que os dons e talentos se identificam desde tenra idade ou temos uma vida inteira para os encontrar? Por último, o que fazer para que haja no aprender e não só, uma verdadeira ponte entre o corpo e a mente e possamos viver o nosso propósito com amor e verdade?

 

Sou completamente apaixonada pela inclusão, apaixonada pela minha profissão, apaixonada pelo que faço todos os dias. Minha trajetória começou cedo, cercada de crianças, livros, estudos, pesquisas e uma curiosidade incansável sobre o comportamento das crianças atípicas. Aos poucos, fui entendendo que minha missão estava em ajudar os outros a encontrarem seus caminhos de desenvolvimento, especialmente aquelas que, por alguma razão, não se encaixavam nos moldes tradicionais.

Estudei e estudo muito, pesquisei e pesquiso ainda com publicações em revistas científicas, atuo em clínica particular, do qual sou proprietária. Tornei-me uma profissional capacitada para lidar com crianças atípicas, na área psicopedagógica e psicomotora. Mas o que realmente moldou meu percurso foi o contato direto com crianças e famílias reais, com suas dores, desafios, vitórias e singularidades.

Sobre dons e talentos, acredito que alguns sinais aparecem na infância, mas acredito que ao longo da vida ainda podemos nos (re)descobrir. O mais bonito é que nunca é tarde para novas descobertas.

A educação precisa integrar o sentir, o pensar , o aprender com afeto, com o corpo, com o movimento, com a experiência. Quando isso tudo acontece, iremos viver com mais verdade e amor ao propósito que nos guia.

A verdadeira ponte entre corpo e mente é possível a partir da escuta, do acolhimento  e do respeito!

 

 

Paula Cristina Gouveia