Beleza por dentro e por fora

 

Mente sã em corpo são é uma citação latina atribuída ao poeta romano Juvenal, que parece relativamente simples, mas que se torna mais complicada de aplicar na prática. A beleza é mais que máscaras faciais, as últimas linhas de maquiagem e cremes para o corpo. É algo que se relaciona com a nossa própria perceção e estado de espírito num mundo que  nos faz sentir como se não fossemos suficientes, para nos incentivar a consumir produtos que nem sempre são necessários.

Crescemos a olhar para o espelho amplificando as nossas inseguranças, sem saber como é suposto sermos. Quando a nossa validação e bem-estar dependem das opiniões dos outros, vamos sempre nos sentir aquém porque os ideais de beleza mudam como as estações e a verdadeira harmonia e paz tem de vir de dentro. Temos de encontrar primeiro quem somos para conseguirmos manifestá-lo através do nosso estilo, do nosso rosto, de todos os modos ricos e distintos com que nos podemos expressar.

Ter uma autoimagem saudável nesta era de redes sociais não é tarefa fácil porque os parâmetros de comparação social são inéditos também. Estudos relatam o impacto que esta vida digital e de aparências pouco realistas tem nos nossos cérebros, abrindo brechas de fragilidades nos humores, já de si tendencialmente variáveis dos adolescentes. Uma coisa é certa: educar passa não apenas por dizer, mas por fazer; ou seja dar o exemplo. Se tentamos passar uma imagem de autonomia e autoconfiança a um filho(a) mas vivemos obcecadas com a cultura das dietas e com o que os outros podem dizer, é isso que estaremos a ensinar.

Todos temos uma beleza e um valor intrínsecos e devemos focar-nos na nossa própria jornada, na medida do possível. O conceito do que é bonito é altamente subjetivo e a perfeição não existe de qualquer das formas. Como diz Beyoncé na sua canção “Pretty hurts”, é alma que precisa da cirurgia. Quando tentamos tanto alterar o nosso aspeto físico e entramos em guerra com a balança, serão que não queremos alterar algo mais do que quilos e formas? O peso e medidas que ocupamos nesta Terra serão sempre apenas isso: quantidades. A qualidade no nosso estilo de viver, o que está dentro de nós, que determina a nossa alegria ou insatisfação, é que fazem a diferença.

Há sempre margem para melhoria nas nossas vidas, é um facto, mas se nos deixarmos entrar no jogo e competição por atenção baseado apenas na beleza exterior vamos ser como que sugados por um buraco negro a uma velocidade vertiginosa. O nosso aspeto muda com a idade, as nossas qualidades como pessoa podem manter-se inalteráveis toda uma vida. Dito por outras palavras: a pele ganha rugas e cicatrizes, celulite ou estrias e perdemos faculdades físicas. Mas o que faz de nós “nós” mantém-se sempre lá.

Deixo em seguida cinco dicas para que a beleza seja algo mais do que vê ao espelho e comece acima de tudo a partir do seu interior.

Pare um pouco por uns minutos. Dê-se a esse luxo de sentir o que quer que seja que o seu corpo e o seu coração lhe estejam a dizer, porque eles falam connosco o tempo, todo mesmo quando tentamos ignorar a sua voz e não queremos escutar. O que é que lhe diz a sua alma? De que precisa para se sentir bonito(a) neste exato momento? Agora mesmo. Sem precisar comprar um último modelo de roupa ou de qualquer adorno ou adereço que associamos com características desejáveis num homem ou numa mulher?

Investigue, como o melhor detetive policial, de onde vêm os seus vazios emocionais e carências. Porque sente que não se basta a si próprio(a)? Terá sido a educação que recebeu, traumas de infância, ditames ou expetativas sociais? Permita-se examinar bem fundo as profundezas da sua alma sem temer o que pode vir a encontrar. A ignorância não é sinónimo de felicidade e todo o processo de iluminação pessoal começa por um passo muito básico: o autoconhecimento.

Procure abastecer o seu poço interior com informação fidedigna e conteúdos inspiradores. Quantidade não é qualidade, como temos vindo a aprender nesta era sobrelotada de dados. Busque apenas o que ressoa consigo, o que 0 (a) puxa para cima e o (a) motiva a dar o seu melhor e não lhe traz desânimo ou mal-estar.

Esteja ciente dos seus gatilhos. Isto pode significar deixar de seguir algumas contas que lhe mostram uma imagem ou estilo de vida que é irrealista para aquele que tem e que o(a) fazem sentir-se inferior. Antecipe obstáculos e dificuldades. Por exemplo, ir a gabinetes de prova de roupa pode ser um momento de muito stress e ansiedade com a aparência. Saiba olhar-se com mais autogentileza e não se critique tanto. A sua autoestima agradece!

Ame-se como é. Perceba a ligação do seu corpo com o seu espírito e aprenda a amar-se genuinamente, de dentro para fora, tendo sempre em mente que a evolução é um processo contínuo, que é uma obra de arte sempre em construção e, como disse Antoine de Saint-Exupéry o essencial é invisível aos olhos.

Paula Gouveia

 

Imagem retirada de: https://unsplash.com/photos/PoogTvXLv8U