“A neurose de angústia” de João dos Santos

 

João dos Santos (1913-1987) foi por unanimidade um dos maiores nomes da Saúde Mental em Portugal, que combinou uma larga experiência clínica com uma obra admirável. Membro da Associação Internacional da Psicanálise e Sociedade Portuguesa de Psicologia, foi também membro titular e fundador da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e da Associação de Psicologia Científica em Língua Francesa.

Tendo cursado Educação Física antes da licenciatura em Medicina, João dos Santos parece ter sido um exemplo vivo da exortação de Abel Salazar “O médico que só sabe de Medicina nem de Medicina sabe”. João dos Santos, sempre em busca de melhorar o seu trabalho e o panorama dos cuidados mentais em Portugal não mediu esforços para ser um motor de conhecimento e evolução para o nosso país. Isto é visível ao ter fundado numerosas instituições como Liga Portuguesa de Deficientes Motores, Associação Portuguesa de Surdos, Liga Portuguesa de Higiene Mental, Centro Hellen Keller, Associação de Educação pela Arte, Movimento da Escola Moderna e Liga contra a Epilepsia.

Ao longo da sua vida e ilustre carreira, é sabida a sua preocupação com os mais pequenos, especialmente vindos de meios sociais mais desfavorecidos e com dificuldades familiares ou de aprendizagem. Tal fica bem notório no livro “Casa da Praia: O Psicanalista na escola”, que tive a oportunidade de ler e de que gostei muito.

O que me atraiu para o livro de que falo neste artigo “A neurose de angústia” foi as minhas experiências pessoais com a angústia, com o sofrimento por antecipação, com a ansiedade primariamente e com o pensar demais no geral. Numa altura em que o legado de Freud estava ainda muito presente, João dos Santos fala-nos de forma simples de um tema altamente complexo e de como muitos problemas psíquicos surgem de uma líbido desviada dos seus fins. Fala-se de conceitos como neurostenia, que é de uma forma muito lata a neurose com enfraquecimento de força nervosa. A pessoa neurótica, em termos genéricos, preocupa-se excessivamente, tem conflitos internos pronunciados e pode ter sérias dificuldades de adaptação.

João dos Santos discorre de forma cristalina sobre a neurose nos adultos e também na criança e dá exemplos de casos clínicos que combinam medo, pânico e expetativas frustradas como o depoimento “Procuro uma mulher que não existe, procuro libertar-me”.

Fica sempre evidente neste livro a enorme empatia que João dos Santos tinha pelos seus pacientes, as suas vastíssimas qualidades humanas na forma como abordava qualquer caso clínico e a sua compaixão perante a dor do outro.

Creio que faltam mais pessoas como João dos Santos foi, pois apesar de não o ter conhecido, através das suas palavras reconheço um homem dotado por uma enorme curiosidade, um espírito vibrante e um grande amor não só à Ciência mas à Humanidade no seu todo. Numa sociedade em que a saúde mental continua a ser um tabu e as pessoas têm vergonha de dizer que vão a um psiquiatra (apesar do consumo de medicamentos psiquiátricos sujeitos a receita médica ter disparado nos últimos anos), sem dúvida que há muitas lições a aprender com João dos Santos e tentar humildemente aplicar nos dias de hoje.

 

Paula Gouveia