A construção das memórias

 

Se recordar é viver, de uma coisa podemos ter a certeza: as nossas lembranças raramente são estáticas, como que gravadas na pedra, inalteráveis e perfeitamente objetivas. Pelo contrário, a forma como olhamos para trás e encaramos a nossa história de vida, as nossas vivências e experiências depende muito do ponto em que nos encontramos atualmente. Estarmos num bom ou mau momento vai influenciar inevitavelmente a nossa ótica relativamente ao passado, a narrativa que construímos do que vivemos e estamos a viver. E nada, é mais importante do que as histórias que contamos a nós mesmos.

As memórias são caprichosas, fluidas como gotas de água a escorrer por entre os dedos, quando as queremos agarrar simplesmente podem desaparecer ou transformar-se pois, tal como nós, estão em permanente evolução e estamos sempre a integrá-las com a pessoa que somos agora. Tudo o que pensamos é sempre subjetivos pois como disse a escritora Anais Nin, não vemos as coisas como são mas sim como somos. É, portanto, uma questão de perspetiva pessoal, do prisma pelo qual decidimos enveredar.

Escolho falar sobre isto neste artigo porque considero que muitas vezes nos limitamos e contribuímos para o nosso próprio confinamento, para definições dos outros que se não se coadunam com a nossa verdadeira natureza, com o acumular de caixas em que é suposto encaixarmos-mos mas que não encapsulam toda a nossa complexidade e a riqueza das lições que aprendemos ao longo do caminho e de todas as coisas pelas quais estamos a passar.

Cada dia é uma nova oportunidade para começar de novo e tentar escapar a todas estas caixas e fazer-nos a nós mesmos, como queremos ser e não como os outros querem que sejamos. Cada dia é uma oportunidade para nos libertarmos um pouco do peso da bagagem que carregamos, dos ressentimentos, das amarguras, da dor, de toda a mágoa. Nunca é tarde demais para aceder a um lado nosso que nunca ousámos explorar, para descobrir, para arriscar, porque a vida rapidamente perde o sentido quando ficamos sempre dos limites que nos são impostos, confortavelmente dormentes.

Temos muitas possibilidades de decisão, que nos deixam muitas vezes angustiados e até paralisados, as relações são cada vez mais frágeis e pontilhadas de incerteza. Uma coisa é certa, nada nos trará clareza mental, paz interior ou felicidade se não a encontrarmos dentro de nós. Os bens materiais são prazeres fugazes que não preenchem os vazios do coração num mundo que se rege pela aparência e ilusão.

Se queremos sentir-nos centrados e felizes, temos de ser capazes de nos auto observarmos e tomar as nossas escolhas em consciência, tendo também em conta que há muito que não podemos controlar mas que podemos controlar sim a nossa reação aos acontecimentos que se nos deparam. Mesmo que um jogo de cartas não seja bom à partida, do pouco se pode fazer muito, se cultivarmos as nossas qualidades e dons, se não desistirmos de tentar ser melhores a cada dia.

Ser capaz de desempenhar um papel ativo nos nossos pensamentos é primordial. Não me refiro a censurar acirradamente ideias negativas ou que lhe façam sentir vergonha, é transformar a sua mente num jardim e saber discernir quando, à semelhança da curadoria dos conteúdos que colocamos nas nossas redes sociais, estamos a colocar demasiados filtros nas nossas memórias e a distorcer os factos.

Nunca é demasiado tarde para dizer o que sente, para se expressar de uma forma mais livre, mais autêntica, que lhe traga mais plenitude. Nunca é demasiado tarde para fazer um pedido de desculpas ou para perdoar, para amar e ser amado, tendo sempre em conta que uma relação saudável é uma estrada de duas vias e tem de haver um equilíbrio entre o que dá e o que recebe, para que ambas as pessoas se sintam respeitadas e valorizadas e possam crescer em conjunto.

A forma como acede às suas memórias, como as interpreta e forma pode contribuir para um estado de espírito de miséria ou de glória. Conseguir sentir gratidão por tudo o que tem, ver o copo sempre meio cheio, é meio caminho andado para completar lacunas e começar a sentir bem-estar. De nada adianta recriminar-se ou culpar-se por coisas que não pode mudar,  foque-se no que pode melhorar no seu presente e não naquilo que se arrepende que já ficou para trás.

Pode ser difícil mudar hábitos e comportamentos, tornar-se menos pessimista ou deixar de sofrer por antecipação, por exemplo, mas se tem uma configuração mental que em nada o beneficia, nunca é tarde demais para mudar a sua mentalidade, para ser mais flexível, para criar uma realidade em que seja feliz porque, em última análise, vale sempre lutar pelo que nos faz sentir bem.

 

Paula Gouveia

 

Créditos da foto: https://unsplash.com/photos/73OJLcahQHg